Recentemente, a PUC-PR publicou um relatório, baseado no Censo de 2022, que deveria nos convidar a uma profunda reflexão coletiva. Saber que aproximadamente 306 mil brasileiros com 60 anos ou mais se autodeclaram no espectro autista é uma forte evidência, com fortes fundamentos demográficos, de um entendimento que a ciência e os movimentos sociais vêm afirmando há anos: o autismo sempre existiu. O que é novo é a nossa capacidade – e dever – de percebê-lo
Vivemos bombardeados por clichês perigosos e equivocados, que mentem que enfrentamos uma “epidemia” ou “explosão” de casos de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Essa ideia, no entanto, não encontra amparo em evidências científicas sólidas.
Pelo contrário, ela é frequentemente alimentada por uma avalanche de desinformação que busca culpados fáceis e soluções mágicas, associando o autismo a vacinas, ao uso de paracetamol, a certos alimentos ou a estilos de vida.
Essas mentiras, além de infundadas, cumprem um propósito nefasto: desviam o foco do debate real e semeiam pânico, servindo como uma cortina de fumaça para o verdadeiro fundamento por trás dessa percepção de “aumento”: o preconceito.
A verdade é que só agora as pessoas autistas estão sendo percebidas. Antes, elas eram completamente invisibilizadas, diluídas em um mar de rótulos estigmatizantes. O homem idoso que hoje se reconhece autista era, em sua juventude, apenas o “excêntrico”. A mulher que passou a vida com dificuldades de interação social era a “antissocial”. A criança com uma necessidade visceral de rotina era a “teimosa” ou “problemática”.
Esses rótulos eram a expressão de uma violência simbólica, manifestada por uma sociedade que insiste em encaixar a riqueza da experiência humana em padrões rígidos e excludentes.

É importante frisar que no caso dos idosos, essa violência é dupla, somando o capacitismo ao etarismo – essa forma perversa de discriminação que vê o envelhecimento como sinônimo de decadência.
Os 306 mil idosos autistas pesquisados pela Universidade não são somente números ou estatísticas; são 306 mil biografias de resiliência que nos contam uma história de silenciamento.
São pessoas que atravessaram a vida sem compreender por que se sentiam deslocadas, por que a socialização era tão exaustiva ou por que o mundo, tantas vezes, parecia um lugar caótico e hostil. O diagnóstico tardio, para muitos, é a chance de, finalmente, nomear a própria experiência e se perdoar por não se encaixar em um molde que nunca lhes serviu.
Como, então, superamos décadas de preconceito e um presente inundado de mentiras? A resposta é dupla e exige nosso compromisso ativo: convivência e informação qualificada.
Primeiro, a convivência. A diversidade, por si só, é pedagógica. É no encontro, na partilha de espaços e na construção de laços que os estereótipos se desfazem. Ambientes de trabalho, escolas e comunidades que acolhem a pluralidade não apenas cumprem uma função social; elas se tornam mais inteligentes, criativas e humanas.
A inclusão real, estruturada, é o antídoto mais potente contra o veneno do preconceito, pois ela nos força a enxergar o outro em sua humanidade plena, para além de qualquer diagnóstico.
Segundo a busca por informação verdadeira. Em um ecossistema digital onde a desinformação floresce, temos a responsabilidade de sermos curadores ativos do conhecimento que consumimos e partilhamos. Isso significa desconfiar de soluções milagrosas, checar fontes, valorizar a ciência e, acima de tudo, ouvir as vozes das próprias pessoas autistas. Elas são as verdadeiras especialistas de suas vidas e as protagonistas indispensáveis desta conversa.
O chamado, portanto, vai muito além que a simples análise e indignação. Convido você, leitor, a levar essa reflexão para a prática.
Em sua vida privada, busque ativamente fontes de informação qualificadas e confiáveis, que substituam o medo pelo conhecimento. E, em sua vida pública, como cidadão, profissional e ser humano, ajude a construir as estruturas sociais inclusivas e justas que permitam uma convivência verdadeiramente plural.
Não há uma “explosão” de autismo. O que há é a esperança de que, como sociedade, estamos finalmente começando a abrir os olhos.
Que possamos construir um mundo onde ninguém precise esperar uma vida inteira para, simplesmente, ser quem é.
André Naves é Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política. (Instagram: @andrenaves.def).
Terrorismo e religiosidade
A propósito do recente e trágico ataque ocorrido na Austrália, que vitimou diversas pessoas – algumas delas fatalmente –, durante a pacífica celebração do Hanukkah, a Festa das Luzes da comunidade judaica, impõem-se algumas reflexões sobre os motivos e as consequências de tal ato.

À falta de definição mais apropriada, e sem entenderem bem o que teria motivado os ataques, aparentemente praticados por pessoas isoladas, os analistas chamaram a atenção para a facilidade com que se adquirem armamentos hoje em dia, fenômeno que ocorre também em nosso país.
É simbólico que a Festa das Luzes seja muito próxima dos festejos de Natal. Também no tempo do Advento as luzes da coroa vão sendo acesas num crescendo até que a Luz do Mundo venha a nascer na noite tão esperada pelos cristãos.
Jesus Cristo não selecionava ninguém. Qualquer pessoa seria bem acolhida por Ele, bastando que professasse o único mandamento propriamente cristão: ama o próximo como a ti mesmo. Aliás, o Cristo ia além e dizia: amai vossos inimigos, o que revela, igualmente, o modelo mais aberto de compreensão da pessoa do próximo.
Na verdade, o fundamentalismo dos terroristas – de todos os matizes – é antissemita, anticristão e antihislamista, porque se vale da inimizade aos valores religiosos para disseminar o ódio, a cultura de morte a que já se referia São João Paulo II.
Trata-se, portanto, do mesmo tipo de fundamentalismo que outros grupos de terroristas praticam para excluir as minorias de todo o tipo, mesmo as que não professem nenhuma crença.
É simbólico que tenha sido Ahmed, o sírio, a desarmar um dos terroristas, o que lhe custou dois ferimentos.
Esses terroristas disparam, inclusive pelos meios de comunicação virtual, contra todos aqueles que não pensam como eles. Eis quem são, em certo sentido, os verdadeiros fundamentalistas do ódio.
Por que teriam escolhido a reunião do Hanukkah, tão plena de simbolismos?
Não nos prendamos a esse vetor. Basta atentar para os recentes ataques a uma mesquita e a uma feira natalina para que se ponha foco na essência do que está em jogo.
A enorme confusão ideológica e doutrinal do terrorismo revela, antes de tudo, mentes perturbadas, incapazes de discernir entre o bem e o mal. Ou, se quisermos embaralhar ainda mais as cartas, incapazes de discernir a esquerda da direita.
A confusão ideológica, aliás, não é apenas um sintoma de desordem mental, mas a estratégia consciente de aniquilar a pluralidade inerente à condição humana. O extremismo, ao se apropriar de símbolos sagrados e transformá-los em bandeiras de exclusão, trai a própria essência de qualquer fé que pregue a transcendência e o amor ao Criador, pois desumaniza a criatura feita à sua imagem.
Desta forma, o verdadeiro combate ao terrorismo não se limita à repressão policial ou militar, mas passa necessariamente pela defesa intransigente da educação e do diálogo inter-religioso. É a luz da razão e da tolerância que deve ser acesa para dissipar a escuridão do fanatismo, provando que a diferença de crença jamais pode ser motivo para a guerra, mas sim o motor para um enriquecimento mútuo da civilização.
Urge que os homens de boa vontade se ergam, em uníssono, em favor de uma cultura de paz e de liberdade religiosa, e que todas as luzes se acendam em alerta contra toda e qualquer manifestação terrorista.
Wagner Balera é professor titular de Direitos Humanos e integra o corpo editorial da Revista de Direitos Humanos da PUC-SP.
