Luiz Vieira
Amanhã, domingo, 23, não será um dia comum. Muito pelo contrário. Se não chover, tem tudo para ser especial, por marcar mais um dia de protesto contra o pó preto que cai dos altos-fornos da Usina Presidente Vargas. Cai, é bom que se frise, desde que a CSN foi inaugurada, em 1945. A manifestação está marcada para acontecer às 10 horas e será na Praça Brasil. Não importa nem quantas pessoas estarão presentes. Se meia dúzia ou centenas, é irrelevante. A importância está no fato de, pela primeira vez, a poluição da CSN ter mobilizado tanta gente, principalmente nas redes sociais, por estar prejudicando moradores de todos os bairros. Até de Barra Mansa. “Esse pó está sujando tudo por aqui também”, atestou o prefeito Rodrigo Drable, aumentando o coro dos insatisfeitos
As reclamações, aliás, provocaram reações diversas. A começar pelo prefeito Neto, que vem cobrando providências imediatas por parte da diretoria da CSN. Seu posicionamento tem sido duro, e a siderúrgica tratou de apresentar soluções imediatas (ver box), além de ter anunciado novos investimentos – da ordem de R$ 700 milhões – para compra e instalação de novos equipamentos. A postura de Neto também forçou o governo do Estado a se mexer, para não ficar sujo de pó preto, de forma figurada, pelo problema que se agravou muito nos últimos meses.
Aliás, estava tão ruim que o próprio presidente da CSN, Benjamin Steinbruch, que há muito tempo não vinha a Volta Redonda, ao visitar a UPV, em junho último, soltou cobras e lagartos sobre seus colaboradores. Teria ameaçado demitir vários deles por ver a sujeira que tomava conta das vias internas da usina. “Limpem tudo e resolvam o problema”, teria exigido.
Coincidência ou não, logo a CSN voltou a adotar o 5S – metodologia inspirada em cinco sensos japoneses: de utilização; organização; limpeza; normalização; e disciplina. “A usina estava largada, suja. O Steinbruch ficou p… e ameaçou demitir muita gente. Ele voltou para São Paulo, mas exigiu que tudo fosse normalizado na Usina Presidente Vargas”, contou uma fonte, pedindo anonimato.
Para a comunidade, já cansada e raivosa com tanto pó preto caindo sobre a cidade do aço, o presidente da CSN também mandou seus colaboradores encontrarem soluções imediatas para conter a pressão, principalmente, do prefeito Neto e de outros atores, como o bispo D. Luiz Henrique (que até nota oficial soltou a respeito do tema) e políticos, como o vereador Paulo Conrado, presidente da Câmara, e os deputados estaduais Munir Neto e Jari de Oliveira, entre outros. “Queremos a CSN produzindo, mas não queremos poluição”, sentenciou Neto no alto da crise.
A gota d’água foi o vendaval que atingiu Volta Redonda na manhã de quinta, 13, levantando uma poeira jamais vista. Chegou a cobrir a própria UPV. O fenômeno também ocorreu em Ipatinga, sede da Usiminas, e Congonhas, sede da CSN Mineração (ver página 2). Ou seja, as três siderúrgicas estão às voltas com a poluição que o pó preto provoca. A diferença é que o acidente natural ocorrido em Volta Redonda foi o único que despertou interesse do Jornal Nacional, que apresentou uma longa reportagem, meio fantasiosa até, sobre os males do pó preto. A repercussão foi imediata. O cantor Roberto Carlos, com suas manias de limpeza (TOC), teria até desistido de fazer um show (que seria na Ilha São João) no dia 2 de setembro. Entre os motivos do rei, segundo depoimento dado por Alexandre Magno, que promoveria o evento, estariam a poluição e a falta de estrutura da cidade do aço.
Tem mais. No dia 17 de julho, quando Volta Redonda comemorou o seu 69o aniversário de emancipação político-administrativa, o prefeito Neto teve que abandonar a festa que acontecia na Praça Brasil, com direito a distribuição de bolo a populares, para se reunir no Rio de Janeiro com o vice-governador Thiago Pampolha, atual secretário estadual do Meio Ambiente, e com alguns diretores da CSN para tratar da poluição do pó preto. Neto foi com sua equipe e seu irmão, o deputado estadual Munir Neto. A CSN, por sua vez, tinha à frente o ex- ministro Luiz Paulo Barreto, que é o diretor-executivo de Relações Institucionais, devidamente acompanhado pela diretora-executiva de Sustentabilidade, Helena Olímpia, e pelo diretor- executivo de Siderurgia, Alexandre Lyra.
No encontro, Pampolha foi informado oficialmente das providências que a CSN está tomando de imediato, como exigiu Benjamin Steinbruch, para resolver o problema do pó preto. Entre eles, a troca dos precipitadores eletrostáticos (filtros) da área da sinterização da UPV e a instalação de 12 canhões de névoa no interior da usina (ver box). A previsão é de que os reparos nos filtros estejam funcionando até setembro, reduzindo a emissão do pó preto. Detalhe importante: o investimento da CSN será da ordem de R$ 700 milhões.
Disposto a faturar politicamente em cima do caso, o secretário estadual do Meio Ambiente anunciou no encontro com Neto e os diretores da CSN que vai endurecer a legislação sobre qualidade do ar em Volta Redonda, que, até então, o Estado ignorava solenemente. Tem mais. Garantiu que o presidente do Inea, Philipe Campello, deverá promover a revisão do Decreto Estadual n° 44.072/2013, que regulamenta os padrões de qualidade do ar no estado do Rio de Janeiro. Ou seja, confirmou que o material produzido pela CSN, formado por micropartículas de ferro, chamado de “poluente sedimentável” estava, desde 2017, fora da lista de poluentes que deveriam e devem ser monitorados pelas autoridades ambientais.
“Estamos aqui representando aquilo que nossa população espera, cobrando o que ela quer. Precisamos de ações imediatas, que tragam alívio aos nossos pulmões. As ações de curto e médio prazo serão importantes para melhorar a situação atual, mas ainda queremos ver as medidas previstas no TAC em vigor”, disse Neto logo após o encontro. “Queremos que a CSN produza cada vez mais e polua cada vez menos. Isso é possível, pois existem recursos e tecnologia”, pontuou.
MEDIDAS
Os precipitadores eletrostáticos, que a CSN vai trocar, correspondem a filtros e existem nas duas áreas da Sinterização (Sinter 2 e 3) da Usina Presidente Vargas. Só na Sinter 3 serão trocadas 640 placas imantadas. Importante: as placas impedem que as micropartículas de ferro sejam liberadas no ambiente. Popularmente, pode-se dizer que o pó preto vai ficar preso às placas e não vai parar na cabeça de ninguém, pois a substância será retirada por meio de coletores, peça fundamental no sistema de filtragem. Já os canhões de névoa, que já estão sendo instalados nas áreas das sinterizações e nos pátios de material descartável na UPV, servem para controlar a poeira, evitando que seja levantada em dias de fortes ventos ou mesmo de um vendaval, como o do dia 13 de julho.
A CSN também está utilizando um polímero sobre as pilhas de material particulado (como carvão, coque e minério de ferro) existentes no interior da usina – em áreas sensíveis, que podem provocar a dispersão de poeira pelo ar. O produto, vejam só, é biodegradável, não oferece risco ambiental nem à saúde das pessoas e impede que as partículas se espalhem.
Ações ambientais imediatas
Além da construção dos novos filtros precipitadores para as sinterizações, previstos no TAC da CSN com o INEA, a empresa passou a adotar medidas ambientais imediatas, conforme relatórios entregues ao prefeito Neto e ao vice-governador, Thiago Pampolha, que cobraram as medidas mais urgentes. Veja algumas destas medidas:
Aplicação de polímero: Um polímero especial está sendo aplicado sobre as pilhas de matérias-primas e resíduos particulados existentes na Usina Presidente Vargas. Biodegradável, sua função é reduzir a dispersão das partículas em pilhas de carvão, coque e minério de ferro. A aplicação forma uma crosta do polímero com mais de 3 mm, sendo altamente resistente a chuvas e ventos acima da normalidade, protegendo e evitando a dispersão das partículas em até 90%. Feito com materiais reciclados, não é tóxico e não polui as águas subterrâneas.
Canhões de Névoa: Instalação de 12 canhões de aspersão de névoa nas áreas de sinterização e pátios para reduzir a poeira e partículas em suspensão, melhorando a qualidade do ar. Os equipamentos utilizados para dispersar partículas finas de água no ar acabam criando uma névoa ou neblina. Esses canhões são geralmente compostos por um sistema de bombeamento de água que pressuriza o líquido e o pulveriza através de bicos especiais, transformando-o em pequenas gotículas que formam uma névoa suspensa no ar, ligando-se ao pó e removendo-o do ambiente. Cada canhão de névoa atinge até 60 metros.
Limpeza de pó na Usina: Utilização de varredeiras novas e modernas, além de mais caminhões-pipa para lavagem das vias internas, limpeza e lavagem nas áreas de saída dos caminhões de escória de alto-forno em todos os turnos e até o uso de equipes de rapel. A mobilização de uma equipe de Rapel Industrial será usada para a limpeza das partes mais altas das estruturas metálicas dos equipamentos, retirando as camadas de pó.
Reparos imediatos de equipamentos: Reparação de 12 fornos críticos na Coqueria a fim de garantir o controle adequado do combustível e preservar a qualidade do ar. Manutenção preventiva no Precipitador Eletrostático Primário da Sinter 3, através da restauração das placas e correntes arrastadoras, para garantir maior eficiência e redução dos impactos ambientais.
Reparo geral no Precipitador Eletrostático Primário da Sinter 3, incluindo a troca de 640 placas, ainda em setembro, com impacto direto na redução da emissão de particulados.
SOLUÇÃO IMEDIATA
Uma solução bem simples e funcional, além de ser econômica para a CSN, e que tem tudo para resolver o problema do pó preto, foi apresentada ao aQui pelo empresário Oswaldo de Miranda Nascimento, de Volta Redonda. Ele é proprietário de uma empresa especializada em tratamento de escória para fins industriais. No caso do pó preto, ele diz que a CSN pode contratar empresas, como a sua, que queiram recolher o pó preto na sua origem. Ou seja, quando cai dos altos- fornos. “Pode-se usar eletroímãs para recolher o pó preto, acondicionando-o em bags (sacos gigantes) ou outro tipo de recipiente”, detalha.
Oswaldo vai além. “A empresa terá que ter um forno ou vários fornos, dependendo da quantidade que buscar do produto na CSN para derreter o pó preto em altas temperaturas, transformando-o em pequenos tijolos fundidos (como uma barra de ouro, grifo nosso), que vão retornar para a UPV como matéria-prima na fabricação do aço”, afirmou.
Oswaldo garante que, se a CSN instalar os novos filtros na área da sinterização e se adotar a sugestão que apresentou, Volta Redonda poderá ficar livre do problema do pó preto. “Pode não ser viável para a CSN adotar ela mesma esse processo de recolher, derreter e fundir o pó preto. Mas há quem possa e queira fazer isso. Só precisa de apoio da própria CSN”, dispara.

