Advogada que denunciou assédio moral foi demitida do Sindicato dos Metalúrgicos

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Por Pollyanna Xavier

O caso de assédio moral no Sindicato dos Metalúrgicos, publicado na última edição do aQui, cuja vítima é a advogada Ana Paula Martins, teve um desdobramento negativo. Ela foi demitida pelo presidente da entidade, Edimar Miguel, por justa causa e sem direito a boa parte dos benefícios trabalhistas que compõem as verbas rescisórias de um trabalhador demitido. Ironicamente, a situação vivida pela advogada é semelhante a centenas de casos de assédio que acontecem todos os dias nas empresas de base e que são rechaçadas e denunciadas ao Ministério Público do Trabalho pelo próprio Sindicato.
Ana Paula é advogada da entidade desde 2015. Ela era responsável por defender o Sindicato em ações judiciais, analisar os acordos coletivos da CSN e de outras empresas da base e ainda atuar em processos e procedimentos envolvendo o MPT. Com a mudança de gestão, grande parte de suas atribuições foram retiradas de suas mãos, só ficando as análises de acordos coletivos das empresas, exceto os da CSN. Ao aQui, Ana Paula contou que a perseguição estaria partindo do assessor mais próximo de Edimar Miguel – o advogado e ex-sindicalista Tarcísio Xavier. “Ele tem problema pessoal comigo”, desabafou.
Na última quarta, 10, Ana Paula foi chamada à sala da presidência e
recebeu a notícia da demissão. Segundo ela, Edimar Miguel citou quatro situações que teriam motivado a dispensa por justa causa. Uma delas, pasmem, foi a entrevista que concedeu ao aQui, contando a pressão que estaria sofrendo no Sindicato desde que a atual gestão assumiu a direção do órgão. O assédio moral é investigado pelo Ministério Público do Trabalho, que já ouviu testemunhas e sofreu uma baixa há cerca de 10 dias, quando o procurador do Trabalho, Elcimar Bittencourt, foi obrigado a deixar as investigações, por motivo de suspeição arguido por um dos advogados de Edimar.
Ao aQui, Ana Paula contou que, ao receber o comunicado de demissão motivada, se recusou a assinar o documento. O diretor jurídico Leandro Vaz também não teria assinado, o que obrigou a coordenação do RH a buscar duas testemunhas dentro do próprio Sindicato, que pudessem assinar o comunicado. “O Edimar alegou que eu o ofendi e o ameacei. Eu não fiz isso. Ele disse ainda que eu agredi verbalmente a coordenadora do RH, mas isso também não é verdade. A coordenadora do RH era minha amiga pessoal, confiávamos uma na outra. Não a agredi verbalmente”, garantiu.
Ela foi além. Contou que Edimar não gostou do fato de o Sindicato ter entrado na mira do MPT por uma denúncia de assédio moral, que ele classificou como mentirosa. “Para o Edimar, tudo o que eu falei e vivi com a atual gestão foram inverdades imputadas ao Sindicato. E o fato de eu ter notificado o MPT sobre tudo isto gerou a minha demissão por justa causa”, contou. Quanto a dar publicidade ao procedimento investigatório do MPT, Ana Paula contesta. “Eu dei entrevista a vocês, contei o que passei no Sindicato, mas jamais apresentei ou publiquei qualquer peça deste procedimento”, frisou.
A demissão motivada da advogada acabou servindo como uma confissão de culpa do Sindicato. Isto porque ela tinha estabilidade até dezembro, graças a um acordo feito pela gestão anterior do Sindicato, que garantiu o emprego de todos os funcionários da entidade pelo período de um ano. Com a demissão, o acordo teria sido desrespeitado. “Eu já imaginava que isto aconteceria, mas confesso que fiquei incrédula. Não sabia que chegaria a este ponto. O Edimar tomou a decisão de forma unilateral, ele não convocou os diretores para decidirem sobre minha demissão, muito menos para comunicar que eu seria dispensada por justa causa. Ele não ouve os diretores e valoriza muito mais os assessores, que não têm nenhum vínculo estatutário com o Sindicato, do que os diretores que estiveram com ele no processo eleitoral”, desabafou.
Sem dar detalhes do que fará daqui para frente, Ana Paula comentou apenas que tomará providências jurídicas contra o Sindicato. “A coisa tomou uma proporção maior. O Edimar demonstrou que também tem algo pessoal contra mim. Quando ele assumiu, disse que eu era uma ótima advogada, mas que era uma pena eu bater muito nele. Ele se referiu aos inquéritos que ele e Tarcísio abriam contra o Sindicato na gestão anterior e que hoje, como presidente, responde a todos eles. Eu atuava nesses inquéritos, porque era advogada do Sindicato, não porque eu tinha algo contra ele. Nem o conhecia. O problema é que ele nunca soube separar as coisas. A minha atuação profissional era pra ele uma atuação pessoal. Lamentável”, concluiu.
O aQui enviou um e- mail para Edimar Miguel para que ele contasse a sua versão dos fatos. Até o fechamento desta reportagem, não houve qualquer resposta.