9 DE ABRIL
O que pedir a um possível novo dono da CSN ou a quem entrar de sócio de Benjamin Steinbruch na UPV
Na quinta, 9, a Companhia Siderúrgica Nacional completou 85 anos de vida. Não teve nenhuma festa. Nem bolo de aniversário. O presidente da companhia, Benjamin Steinbruch, não esteve na cidade do aço para dirigir algumas palavras aos cerca de 20 mil operários que ainda colocam a siderúrgica como uma das maiores da América Latina.
Também pudera. O executivo vive às voltas com seus planos de modernização da Usina Presidente Vargas. Seja negociando a usina, como seus críticos especulam, ou a entrada de um sócio – japonês, de preferência –, que esteja disposto a investir alguns milhões de dólares na planta industrial localizada em Volta Redonda.
Trabalhando em cima das duas possibilidades – venda ou novo sócio –, o aQui decidiu, para comemorar os 85 anos da CSN, fazer uma reportagem especial com algumas figuras públicas de Volta Redonda e questionar que reivindicação elas fariam a quem fosse investir na cidade do aço, para talvez evitar que os erros do passado, quando a CSN foi privatizada, se repitam. Na época, é bom relembrar, funcionários, sindicalistas, empresários e políticos travaram uma guerra com o governo Fernando Henrique Cardoso contra a privatização da CSN.
Esquecerem de pedir, por exemplo, que os terrenos e imóveis da empresa, sem ligação com a produção do aço, passassem a fazer parte, como uma espécie de indenização, do patrimônio municipal. Não pediram, e deu no que deu. Até hoje estão arrependidos. Veja abaixo como nossas lideranças se posicionaram a respeito e o que pediriam ao novo dono da CSN ou a quem entrar de sócio de Benjamin Steinbruch:
Antônio Francisco Neto – prefeito de Volta Redonda
“O que pediria é o mesmo que peço sempre: mais investimentos na cidade, na usina e no trabalhador. Que as relações institucionais com Volta Redonda sejam cada vez mais fortalecidas, com diálogo e parceria. E que a questão ambiental seja sempre tratada como prioridade, conciliando produção com qualidade de vida para a população.”
Edmilson Alvarenga – presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Itatiaia e Porto Real “O debate sobre a entrada de um novo sócio ou até uma mudança de controle na UPV reacende uma questão que Volta Redonda já deveria ter enfrentado: qual é, de fato, o compromisso da CSN com a cidade que ajudou a construir?

Na privatização, durante o governo FHC, faltou garantir que o crescimento da empresa estivesse vinculado ao desenvolvimento da cidade e à proteção dos trabalhadores. A empresa se fortaleceu e ganhou escala, mas Volta Redonda e o emprego local não acompanharam esse avanço na mesma proporção.
Diante de um possível novo ciclo, esse erro não pode se repetir. Um novo sócio pode ser uma oportunidade, desde que venha com compromissos concretos com a cidade, os trabalhadores e o desenvolvimento sustentável.
Volta Redonda precisa voltar a ser prioridade. Isso passa por modernização com tecnologia e competitividade, sem redução de empregos ou precarização de direitos, aliando avanço à valorização da mão de obra com qualificação e preservação dos postos de trabalho.
A questão ambiental também não pode ser secundária. Produzir melhor exige responsabilidade, transparência e respeito à saúde da população. Há ainda o déficit imobiliário. Com pouca área para expansão e grandes espaços ociosos da CSN, é viável avançar em projetos habitacionais por meio de parcerias, ampliando o acesso à moradia e organizando o crescimento urbano.
O ponto central é claro: quem investe na CSN precisa entender que não se trata apenas de uma operação industrial, mas de uma cidade inteira ligada a essa história. Volta Redonda já contribuiu muito. É justo que haja reciprocidade.
Seja com um novo sócio ou com a atual gestão, o compromisso deve ser o mesmo: crescer junto com a cidade, respeitar trabalhadores, preservar empregos e garantir direitos. A responsabilidade é contínua e não começa com um novo sócio. Mas com quem já está no comando..
A questão das terras também é importante, além da falta de oferta habitacional. O tema ainda não é latente nas discussões, mas deveria, ainda mais por conta da tomada de locais históricos que a CSN anda promovendo”.

Gustavo Tutuca – deputado estadual
“A CSN faz parte da história de Volta Redonda, e qualquer movimento futuro precisa, antes de tudo, respeitar a cidade e sua população. É fundamental avançar nas ações de sustentabilidade, com investimentos consistentes na redução de impactos ambientais e no controle da poluição, uma demanda histórica.
Ao mesmo tempo, é preciso olhar para o futuro. A CSN tem potencial para seguir como protagonista no desenvolvimento regional, atraindo novas empresas, ampliando a cadeia produtiva e gerando oportunidades. Nesse contexto, políticas como a Lei do Aço, de minha autoria, são importantes para garantir competitividade e estimular investimentos.
O que se espera é uma CSN cada vez mais moderna, sustentável e integrada à cidade, contribuindo para o crescimento econômico, a geração de empregos e a melhoria da qualidade de vida em Volta Redonda e no Sul Fluminense.”

Renan Cury – comunicador e vereador “Pediria que a empresa invista diretamente em soluções para problemas que, em parte, foram agravados pela ação humana e industrial ao longo dos anos. Um exemplo concreto é a prevenção de enchentes, com investimentos em infraestrutura urbana, drenagem, recuperação de áreas degradadas e apoio a projetos ambientais.”

Jorge Melhem – arquiteto especializado em Consultoria Política, Pública e Empresarial
“Que devolvam ao Município, via Prefeitura, todas as áreas de terras e imóveis adquiridas indevidamente por meio da privatização e que podem representar um novo momento de desenvolvimento local por administração direta pela mesma ou formulação de PPP – Parcerias Público Privadas.
Que comecem suas atividades corrigindo um erro histórico e consolidem solidamente o apoio e o respeito da comunidade.
Que observem a questão da observância às regras ambientais por ser obrigação.”

Ronaldo Alves – arquiteto, ex-secretário de Planejamento de Volta Redonda e Barra Mansa e presidente do IPPU-VR “Manter a função social das propriedades já destinadas ao uso coletivo, atendendo trabalhadores e a sociedade de Volta Redonda. Espaços como o Centro de Puericultura, Recreio do Trabalhador, Escola Técnica Pandiá Calógeras e clubes tradicionais devem ser preservados para uso dos metalúrgicos.
Já os clubes América, Versátil, Ressaquinha, Umuarama, Náutico e Clubinho do Laranjal devem seguir com seus usuários, sem cobrança de aluguéis ou taxas, resgatando seu papel social. Destinar o Escritório Central a um consórcio de empresas, como startups, sob gestão qualificada, e ceder áreas como as da antiga Cobrapi e do UBM a projetos empresariais ou educacionais, com participação da Prefeitura de Barra Mansa.
A Fundação CSN deve ser fortalecida, assumindo a gestão de áreas ambientais e espaços estratégicos, como a Fazenda Santa Cecília, a Arie Cicuta, a ETPC, o Hotel Bela Vista e o Hospital CSN, com modelo de plano de saúde, a exemplo do Amil ou Bradesco. As terras não urbanizadas devem ser transferidas ao Município para uso social. A manutenção da Fundação deve contar com recursos da empresa, apoiados por fundo municipal de desenvolvimento econômico com participação estadual e federal.”

José Maria da Silva – o Zezinho do MEP
“Às vésperas de completar 85 anos, a Companhia Siderúrgica Nacional vive um cenário de incertezas que reacende o debate sobre seu futuro e seus impactos em Volta Redonda. A partir de escutas com especialistas, o tema vai além de uma possível venda e envolve questões estruturais do desenvolvimento local.
Não há sinais concretos de venda total, mas há possibilidade de movimentos pontuais, como entrada de sócios ou negociação de ativos. A principal preocupação é o impacto sobre os empregos, especialmente na metalurgia.
A usina segue como eixo da economia local, e qualquer mudança precisa considerar a dependência do município. O maior risco, segundo especialistas, não é o fechamento, mas a redução de operações, com efeitos diretos sobre emprego e renda.
O cenário global da siderurgia, pressionado por exigências ambientais, como redução de emissões, também pesa. Há críticas à falta de preparo estratégico. A modernização é necessária, mas esbarra em custos altos e no foco no curto prazo.
Passivos ambientais e patrimônios ociosos, como clubes, prédios e imóveis fechados, ampliam a preocupação com a qualidade de vida. A falta de transparência sobre esses bens levanta questionamentos sobre sua função social. “A reativação desses espaços pode gerar empregos e dinamizar a economia local”, destacou um sociólogo, diante da ausência de um plano claro.
Apesar das dúvidas, não há indícios de venda estruturada, mas de reestruturação parcial. O desafio permanece: conciliar eficiência, responsabilidade ambiental e preservação de empregos, com mais transparência e diálogo com a sociedade.”

Eduardo Prado – presidente da Fundação Oswaldo Aranha
“Às vésperas de um novo ciclo societário da CSN, o debate sobre seu futuro em Volta Redonda vai além de uma decisão empresarial. A empresa é parte da identidade, da história e da base econômica do município, tendo moldado seu desenvolvimento ao longo das décadas.
A possível entrada de um novo sócio ou mudança de controle representa um ponto de inflexão e uma oportunidade de reposicionar, com responsabilidade, a relação entre a siderúrgica e a cidade. Volta Redonda não pode assistir passivamente. É necessário um novo pacto baseado em desenvolvimento sustentável e responsabilidade compartilhada. O princípio é claro: quem investe na CSN investe também no município.
Espera-se a garantia da permanência e fortalecimento da UPV, com modernização e investimentos contínuos. Parte da riqueza gerada deve retornar de forma estruturada à cidade, com estímulo à diversificação econômica, inovação e infraestrutura. Também é essencial avançar em educação e tecnologia, e assumir compromissos ambientais com transparência e melhoria da qualidade de vida.
O novo ciclo deve preservar empregos, promover qualificação e inclusão social, diante das transformações tecnológicas. Diferentemente do passado, quando faltaram contrapartidas, há hoje maturidade para transformar expectativas em compromissos concretos. Mais do que discutir controle, está em jogo o papel da siderurgia no futuro local. Volta Redonda não reivindica privilégios, mas reconhecimento por sua trajetória e o direito de participar do futuro que ajudou a construir. O verdadeiro indicador desse novo momento será o legado econômico, social e humano deixado à cidade.”
Jari – deputado estadual
“O nosso pedido à CSN é direto e histórico: respeito por Volta Redonda. Ninguém quer o fechamento da UPV. Pelo contrário, queremos uma siderúrgica forte, lucrativa e capaz de gerar emprego e renda com responsabilidade. É fundamental ampliar investimentos em tecnologia e garantir o respeito ao meio ambiente, especialmente no controle da poluição atmosférica e na redução das pilhas de escória no bairro Brasilândia.
Outro ponto central é a função social dos terrenos da empresa, hoje abandonados. É inadmissível que espaços históricos permaneçam fechados, como o Clube Umuarama, o Recreio dos Trabalhadores, o antigo posto de puericultura e o campo do ESPECIAL Ressaquinha. Soma-se a isso o risco de fechamento do Clube Náutico. Esses locais precisam ser devolvidos à cidade, com uso adequado, diálogo com a população e respeito à memória. Podem, e devem, retomar seu papel na cultura, no lazer e na convivência.
Também é preciso olhar para o futuro. Áreas hoje ociosas podem se tornar oportunidade estratégica para o desenvolvimento econômico. Com planejamento, é possível atrair novas empresas, especialmente da cadeia do aço, fortalecendo a economia local e ampliando empregos, renda e arrecadação em Volta Redonda e no Sul Fluminense.”
Rônel Mascarenhas e Silva – médico

“Primeiro, que disponibilizasse todos os imóveis de propriedade da CSN, seja venda ou aluguel, acabando com o desleixo e abandono. Que começasse a, efetivamente, investir na qualidade de vida da cidade onde está instalada.
E que liderasse, com o Governo local, uma ampla discussão com as forças sociais locais sobre o futuro de Volta Redonda, principalmente a hipótese de não termos mais a CSN…”


