Cenas de guerra

Suspeito de tráfico de Volta Redonda faria parte da cúpula do Comando Vermelho

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Por Mateus Gusmão

A ‘guerra do Rio’ ou a operação ‘Contenção’ deixou um saldo trágico: mais de 100 suspeitos mortos, quatro policiais assassinados, pessoas feridas por balas perdidas e milhares de cidadãos assustados – nas ruas e em casa. As cenas, de forte impacto, ganharam repercussão mundial e escancararam o poder bélico de uma das principais facções criminosas do país: o Comando Vermelho.
Entre as medidas adotadas pelo Governo do Estado após a operação, está o pedido de transferência de 10 integrantes da facção – que estão presos em Bangu – para penitenciárias federais. Segundo o governo, eles fariam parte de uma espécie de “comissão” do CV, apontada como responsável por ordenar, de dentro da cadeia, as
ações de retaliação contra a megaoperação policial nos complexos do Alemão e da Penha.
Entre os presos que serão transferidos está o volta-redondense Fabrício de Melo de Jesus, conhecido como Bicinho, figura antiga e conhecida no tráfico de drogas do Dom Bosco e arredores. Durante anos foi o mais mais procurado da região. Foi preso, em 2011, após tentar fugir a nado pelo Rio Paraíba.
Em 2013, Bicinho foi condenado pela Justiça de Volta Redonda a 27 anos de prisão pelo assassinato de Cleiton Luiz da Silva, ocorrido em 29 de setembro de 2010. Ele respondeu por homicídio qualificado, ocultação de cadáver e coação de testemunha no curso do pro- cesso. Segundo a acusação, Bicinho teria matado Cleiton após perder R$ 7 mil em drogas apreendidos pela polícia – responsabilizando a vítima pelo prejuízo. Depois do crime, o corpo teria sido jogado nas águas do Rio Paraíba. A coação de testemunhas envolveu familiares de Cleiton, que foram ameaçados pelo traficante.
Bicinho e os outros nove membros da chamada “cúpula do CV” devem ser transferidos nos próximos dias. A operação de transferência aguarda apenas a conclusão dos trâmites burocráticos necessários. O processo exige decisões judiciais tanto na esfera estadual quanto federal, incluindo aprovação dos estados onde estão loca- lizadas as penitenciárias federais de destino.

Ex-GM de Volta Redonda foi morto na ‘Contenção’
Entre os quatro agentes de segurança mortos na operação de segunda, 27, estava o 3o sargento Cleiton Serafim Gonçalves, de 40 anos, lotado no Batalhão de Operações Especiais (Bope). Cleiton iniciou sua carreira na Guarda Municipal de Volta Redonda, após aprovação concurso público. Foi admitido em 23 de junho de 2008 e deixou o cargo em 17 de junho de 2009, quando foi aprova- do na Polícia Militar do Rio. Ele era de Mendes.
A Prefeitura de Volta Redonda divulgou nota oficial lamentando a mor- te do ex-agente da Guarda Municipal. “Neste momento de dor, a Administração Municipal se solidariza com familiares, amigos e colegas de corporação, expressando votos de força e conforto. Que a paz seja restabelecida o quanto antes e que a memória do sargento Cleiton permaneça como exemplo de honradez e serviço à sociedade”, diz o texto.

Cerco contra migração de traficantes
OcaosnoRiode Janeiro obrigou o 5° Comando de Policiamento de Área (CPA) a intensificar as ações preventivas pelo Sul Fluminense – Volta Redonda (28o BPM), Barra do Piraí (10o BPM) e Barra Mansa (31o BPM). “Estamos monitorando os serviços de inteligência, mas até o momento não foi detectada movimentação nesse sentido. Mesmo assim, estamos reforçando o policiamento em toda a região”, informou o coronel Ronaldo Martins, do 5o CPA.
Na noite de terça, 28, as forças de segurança também iniciaram operações em rodovias estaduais e federais, com o mesmo objetivo. As primeiras ações foram registradas na região da Costa Verde. O Gabinete de Gestão Integrada de Angra dos Reis coordenou uma grande operação na Rodovia Rio-Santos e na RJ-155 (Saturnino Braga), que liga Barra Mansa a Angra dos Reis. O trabalho reúne a Secretaria de Segurança de Angra, a Polícia Militar, a Polícia Civil, a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal (PRF).

Alerj cobra informações sobre operação
A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa encaminhou ofícios ao Ministério Público e às polícias Civil e Militar cobrando explicações sobre a Operação Contenção. A presidente da comissão, Dani Monteiro (Psol), afirmou que a ação transformou as favelas do Rio em cenário de guerra e barbárie. “Estamos diante de uma operação letal jamais vista. O Estado não pode continuar agindo como se houvesse pena de morte, nem tratar as favelas como território inimigo. É grave que o governador Cláudio Castro insista em atuar isoladamente, enquanto o Ministério da Justiça afirma ter atendido prontamente a todos os pedidos do governo estadual para o emprego da Força Nacional”, argumentou.

Presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar cobra endurecimento das leis contra criminosos

Após a maior operação da história do estado do Rio contra o Comando Vermelho, que deixou mais de 100 mortos, 81 presos e mais de 100 fuzis apreendidos, o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, usou as redes sociais para afirmar que está comprometido em
somar forças no combate ao crime organizado e voltou a cobrar o endurecimento de leis contra os criminosos. Bacellar, que recentemente criou um Pacote de Enfrentamento ao Crime, já sancionado, também voltou a mencionar a necessidade de endurecer a legislação contra os criminosos. Segundo ele, muitos dos bandidos que trocaram tiros na operação já entraram e saíram várias vezes do sistema prisional. O presidente da Alerj defende uma legislação mais dura e eficaz, que evite que marginais sejam presos hoje e soltos amanhã. Por fim, Bacellar afirmou que não é momento de palanque político e que está disposto a cooperar e somar forças com todas as esferas, independentemente de lado político. Ele reiterou que “um Rio mais seguro é o desejo de todas as famílias de bem do estado”.