Número de farmácias já supera o de padarias

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Mercado está tão bom que farmácias ficam uma ao lado da outra


Por Mateus Gusmão 

Quem nasceu em Volta Redonda certamente guarda na memória a padaria do bairro — do pão fresquinho logo cedo, do café antes do trabalho ou da conversa no balcão. Mais do que comércio, as padarias sempre foram espaços de convivência e sociabilidade. Pena que hoje elas estão perdendo espaço para outro tipo de negócio, que suga o dinheiro, principalmente dos aposentados: as farmácias. A impressão que se tem, em todos os bairros da cidade do aço, é que em cada esquina tem uma drogaria. Em algumas avenidas, como na Amaral Peixoto, elas são vizinhas de porta.

Um levantamento feito pelo aQui junto à secretaria de Fazenda da prefeitura de Volta Redonda mostra que, em alguns dos principais bairros da cidade, já há mais farmácias do que padarias. A Vila Santa Cecília, por exemplo, tem apenas quatro padarias contra 27 farmácias — quase sete vezes mais. No Aterrado, o quadro também chama atenção: quatro padarias para 19 farmácias. No Centro/São João, são duas padarias contra nove farmácias. A exceção é o Retiro, onde o número de padarias (18) se aproxima das farmácias (21), mantendo a tradição do pãozinho.

A realidade local não é isolada. Em junho, a prefeitura do Rio divulgou que a Zona Sul já conta com mais drogarias do que padarias: 425 contra 380. Em Copacabana, bairro marcado pela população idosa, há 118 farmácias para 93 padarias — o equivalente a uma farmácia a cada 100 metros.

Em Volta Redonda, quem sente a mudança no dia a dia é Cida Soares, a “Cida da Padaria”, dona há 21 anos de um estabelecimento no Aterrado, à Rua Luiz Alves Pereira. Hoje o bairro conta com apenas quatro padarias. “A economia tá fraca, a gente vê de uns sete anos para cá que ficou muito ruim e sentimos isso nos negócios. Há 20 anos as pessoas tinham poder de negociação, a economia era pulsante tanto para o mercado grande quanto para pequeno comércio”, avaliou, lembrando ainda que o fim dos empregos de salários altos da CSN, que se concentravam no antigo Escritório Central, reduziu a renda média da cidade.

Outro desafio, segundo Cida, é a concorrência dos supermercados, que passaram a investir pesado no setor de panificação. “Hoje todos os mercados têm padaria, vendendo de tudo. Se não fosse o Sindicato das Farmácias, acho que (os supermercados) já estariam vendendo remédio também”, opinou. Apesar das dificuldades, ela garante que só permanece no ramo quem tem amor pelo trabalho. “Padaria é para quem gosta, para quem acorda cedo, para quem valoriza o cliente fiel, os amigos. Tem que gostar, ter bom atendimento e qualidade nos produtos”, disse.

Do outro lado dessa mudança, os farmacêuticos veem um mercado em franca expansão. Para Mario Vitor, que trabalha em Volta Redonda, a automedicação é um dos principais fatores que explicam o crescimento. “Uma pesquisa mostrou que 90% das pessoas acima de 16 anos já se automedicou. Isso aumentou muito o número de farmácias. Só na Avenida Sávio Gama, no Retiro, são sete. A demanda é grande”, destacou.

Segundo ele, não foram apenas os analgésicos e medicamentos mais comuns que puxaram as vendas. “Nos últimos anos, cresceu bastante a procura por remédios controlados, como para ansiedade e antidepressivos. Na pandemia, então, o movimento aumentou muito. Mas acredito que a automedicação é o principal motivo desse aumento de farmácias”, completou.

Outro fator que amplia a presença das drogarias é a diversificação de produtos. “Hoje farmácia não vende só remédio. Temos uma gama enorme de produtos ligados à estética, dermocosméticos, perfumaria e muito mais. Vendemos muito além do medicamento”, garante Mario.

Fato é que, em Volta Redonda, a cena mudou. Se antes o cheiro do pão fresco guiava os passos pelas ruas dos bairros, hoje é a cruz verde das farmácias que domina as esquinas da cidade.