Em 30 anos, o número de veículos passou de 500 para 160 mil carros em Volta Redonda
Os problemas de trânsito em Volta Redonda começaram a ser sentidos desde a criação da CSN, no final da década de 1940, início dos anos 1950. Na época, a segurança era feita pelas ‘rapinhas’ – apelido popular dado pelos operários à força policial interna da CSN, que atuava na vigilância e repressão dentro da UPV e seus arredores, especialmente nos bairros de Volta Redonda. Os veículos – antigos Jeeps na cor laranja – transportavam os poderosos ‘guardas da CSN’, que cuidavam de tudo.
A eles cabia o controle dos carros de boi – sim, ainda circulavam –; dos cerca de 500 carros que rodavam pelas áreas nobres da cidade, onde moravam os engenheiros; e das bicicletas sem marcha, meio de transporte dos primeiros ambulantes, que vendiam pão, revistas, picolés e guloseimas. Perseguiam até os estudantes da ETPC, Rosário, Batista e Macedo que matavam aula. Pior. Reprimiam greves, reuniões políticas, organização sindical e qualquer atividade considerada “subversiva”.
Era função dos guardas da ‘rapinha’ evitar os poucos congestionamentos que existiam na época, como nos horários de troca de turno na Passagem Superior da Usina Presidente Vargas, quando multidões de operários se deslocavam ao mesmo tempo. Além disso, eles se encarregavam de colocar – de forma exagerada, é claro – todo para dormir à zero hora.
Hoje, as ‘rapinhas’ foram substituídas por possantes veículos 0 km, semiblindados, com luzes estroboscópicas, sirenes barulhentas, ocupadas por agentes fortes e destemidos da Semop (Secretaria de Ordem Pública), que, armados, passaram a ter poder de polícia. Correm atrás dos holofotes das redes sociais e deixam aos guardas municipais, teoricamente menos preparados do que eles – ganham até menos –, a tarefa de controlar o trânsito nas ruas e avenidas de Volta Redonda, uma cidade que já conta com cerca de 160 mil veículos, entre carros, ônibus, motos etc.
O aumento do número de veículos – de 500 da década de 1950, para 160 mil nos dias de hoje – deveria ser acompanhado, sempre, de estudos e planos de mobilidade urbana, certo? Errado. Essa nunca foi a preocupação dos prefeitos eleitos e nomeados. Embora Volta Redonda possua até um Plano Diretor Municipal em vigor, vejam só, desde 2008, ele nunca foi atualizado como prevê a lei. Deveria ter sido atualizado, por exemplo, em 2018 e, novamente, em 2028.
Até que o governo Neto, em um dos seus mandatos, o último, ainda em vigor, em 2023 chegou a promover audiências públicas e debates na Câmara de Vereadores para tratar da revisão do Plano Diretor de 2008. Só que o Ministério Público recomendou a suspensão imediata das audiências, solicitando o retorno do projeto ao Poder Executivo para ‘ajustes no diagnóstico participativo e maior transparência e participação popular’. Ou seja, voltamos à estaca zero.
Os gargalos
?Sem abordar a polêmica questão do desatualizado Plano Diretor de 2008, o aQui mostrou na edição passada um levantamento espontâneo de alguns dos gargalos existentes no trânsito de Volta Redonda. Foi proposital, afinal, a Prefeitura de Volta Redonda iria inaugurar o Viaduto Porfirio de Almeida, equipamento incluído no seu Plano de Mobilidade Urbana, que prevê gastos de R$ 140 milhões. Não contávamos, por exemplo, que já na manhã de terça, 5, o caos reinaria no centro da cidade, por conta de um acidente envolvendo uma carreta na Avenida Getúlio Vargas. Ninguém chegava a Barra Mansa, nem a Barra do Piraí. Ninguém andava.
?Vários internautas logo responsabilizaram Paulo Barenco, o impopular secretário de Transportes e Mobilidade Urbana de Volta Redonda, no cargo há cerca de 10 anos. “Esse secretário não deve ter carro”, ironizou um dos leitores do aQui, referindo-se a Barenco. Faz sentido. Em 2015, por exemplo, Paulo Barenco criou uma faixa exclusiva de ônibus entre a Vila Santa Cecília e a Rua Gustavo Lira, no Centro. A ideia seria priorizar o transporte coletivo, prevendo sinalização adequada e ajustes na largura da via – operações que envolviam cortes na calçada para comportar a nova faixa. A previsão era que estivesse em funcionamento até o final de setembro… De 2015. E já se vão 10 anos…
Mas Barenco tem seus defensores. Um deles é o prefeito Neto, que o considera altamente capaz, tanto que o mantém no cargo. Outro é Leandro Souza, que discordou totalmente do teor da reportagem do aQui sobre os gargalos do trânsito. “Sou membro do Comutran (Conselho Municipal de Transporte e Mobilidade Urbana) e discordo da opinião dos entrevistados sobre o Secretário Paulo Barenco, profissional na visão extremamente técnico. A SMTU (Secretaria Municipal de Transporte Urbano) recentemente perdeu dois técnicos, isto porque não temos um plano de carreira atrativo para profissionais gabaritados. Outra questão muito sensível que impacta diretamente na mobilidade urbana, NÃO TEMOS UM PLANO DIRETOR”, escreveu.
Leandro foi além. Discordou também dos comentários dos vereadores Renan Cury, Lucian Mineirinho e Dinho, que pediram, entre outras coisas, a demissão de Barenco e a urgente mudança no trânsito da Ponte Alta. “Há quanto tempo estes mesmos vereadores entrevistados ficaram inertes a esta situação?”, questionou o conselheiro do Comutran. “Por esta situação, não só a questão da mobilidade, mas estrutural e urbanística da nossa cidade, está totalmente comprometida para os próximos 20 anos”, aposta. “Foi citado na entrevista o plano de mobilidade, Volta Redonda não tem este plano, até porque, o plano de mobilidade urbana para ser concluído depende do plano diretor”, escreveu. Só que o Plano Diretor, como dissemos na abertura desta reportagem, existe sim. Existe desde 2008, só não é atualizado como exige a lei.

CSN com um caminhão, no Laranjal
Na sua argumentação pró-Barenco, Leandro também abordou outros aspectos. “Hoje temos uma SMTU esvaziada de técnicos. O Paulo Barenco só permanece no cargo a pedido do prefeito Neto, pois nenhum engenheiro de tráfego aceitaria o cargo para ganhar o que é pago pelo município, sendo que o setor privado paga em média R$ 40 mil para profissionais qualificados e experientes na área”, comparou, criticando a seguir os políticos locais. “Outra questão, o uso político nas intervenções do trânsito de Volta Redonda, algo que já aconteceu inúmeras vezes e em momentos diferentes. A insatisfação dos vereadores em criticar o Secretário está neste aspecto, pedidos politiqueiros que não tem amparo técnico para aplicação”, alfinetou.
E quais seriam as suas soluções, indagou o aQui. “Absurda a sugestão do vereador em transformar o viaduto da Ponte Alta em mão única, que estudo técnico ele tem para dar amparo legal a esta tese?”, opinou. O detalhe é que a sugestão não foi apresentada por nenhum vereador. Foi uma fonte que sugeriu a implantação de uma mão única na Via Sérgio Braga, e não no viaduto da Ponte Alta. Cabe a Barenco & Cia estudar a proposta e, se for inviável, que aponte uma solução melhor, pois ninguém deveria perder 30 minutos diariamente para vencer um trecho de 500 metros a caminho do centro, passando pela Via Sérgio Braga.
Um ponto positivo das colocações de Leandro Souza foi com relação à pasta comandada por Paulo Barenco. “A SMTU deveria ter autonomia, assim como o Saae, para abrir oportunidade de contratação de pessoal técnico”, sugeriu, referindo-se ao Serviço Autônomo de Água e Esgoto, uma autarquia da Prefeitura de Volta Redonda. O que ele não sabe é que PC, presidente do Saae-VR, vive tendo problemas com o Palácio 17 de Julho justamente na sua autonomia financeira. É que Neto trabalha como se PMVR e Saae tivessem um caixa único.
Leandro apresentou ainda mais duas sugestões que o prefeito Neto e Paulo Barenco deveriam estudar. “Os recursos provenientes de multas de trânsito e estacionamento rotativo poderiam ser destinados exclusivamente para projetos de mobilidade”, sugeriu, esquecendo que a renda do rotativo vai para os cofres da empresa VR Parking. Nenhum tostão para os cofres públicos. “Estamos impedidos de licitar o transporte público por conta de decisão judicial, porém, Volta Redonda deveria licitar o sistema de bilhetagem eletrônica. Fato que traria receita para o município e facilitaria a gestão do sistema de transporte urbano com independência”, defende Leandro. “Volta Redonda precisa de ações planejadas visando o longo prazo, não com ações pontuais”, disparou, voltando ao tema da reportagem sobre os gargalos no trânsito. “Precisamos incentivar o uso do transporte público, criar corredores exclusivos para ônibus”, completou.
Leandro também fez algumas colocações pontuais, como “proibir o tráfego de veículos pesados na parte central da cidade”, já que, segundo ele, “muito caminhoneiro deixa de usar a Rodovia do Contorno para cruzar a cidade”, e sugeriu “implantar a CET em Volta Redonda, para controle e fiscalização do tráfego”. Ou “aprovar projeto de lei que permita o uso das câmeras de segurança para autuação de estacionamento irregular, parada em local proibido, conversão irregular, entre outras infrações de trânsito”, disse, para logo finalizar: “O problema dos gargalos no trânsito da nossa cidade, de longe a culpa é do secretário, mas da falta de planejamento urbano dos nossos gestores”, escreveu.
Exemplo de Curitiba
O arquiteto Ronaldo Alves, ex-presidente do IPPU-VR, um dos técnicos procurados pelo aQui para falar dos gargalos no trânsito de Volta Redonda, entende que alguns dos pontos externados por Leandro Souza “são importantes e merecem concordância”. Mas insistiu na tese que defendeu na reportagem. “Volto a dizer que a falta de um SISTEMA de transporte coletivo, a exemplo de Curitiba, ainda é o mais importante. Enquanto não mudar todos os caminhos do transporte, iniciando por um plano de mobilidade urbana de verdade, no qual serão definidos os princípios técnicos e jurídicos da questão, nada mudará”, pontuou. “A Prefeitura vive alardeando obras que ‘fazem parte do Plano de Mobilidade Urbana’ de Volta Redonda, mas apenas são obras escolhidas pela administração, sem haver relação com um plano eficaz e sólido”, avaliou.
Ronaldo Alves, que também foi secretário de Planejamento da Prefeitura de Volta Redonda e de outras cidades da região, é categórico ao falar do Plano Diretor. “A revisão é fundamental e terá que abordar essas questões. O CMDU (Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano) está com a revisão em pauta, contando com assessoria de uma equipe importante de técnicos experientes. É preciso que a Câmara acompanhe esse trabalho visando referendá-lo assim que for encaminhado para votação. Coisa que, infelizmente, não aconteceu em 2019. Estamos já atrasados 6 anos do prazo de revisão, que era de 10 anos pós 2008”, comparou.
Ronaldo vai além. “Só teremos melhorias no trânsito e no transporte coletivo após a revisão do Plano Diretor, aprovação do Plano de Mobilidade Urbana e criação do Sistema novo de Transporte Coletivo (o exemplo de Curitiba continua válido)”, dispara, lembrando que tudo tem que estar ligado ao IPPU-VR. “O IPPU foi criado em 1977 para conduzir essas coisas. Tudo é competência do Instituto de Pesquisas e Planejamento Urbano”, reitera. “A Comissão de Transporte deve participar, mas a liderança tem que ser do IPPU”, dispara, apresentando um detalhe importante: “O IPPU tem um plano de transporte coletivo elaborado em 1987, e ele nunca foi analisado pelas administrações que sucederam”. É mole?
Jorge Melhem, ex-presidente da Cohab-VR, hoje prestando serviços de consultoria em outro município da região, concorda com as teses de Leandro e de Ronaldo Alves. “O eixo principal das críticas é a ausência de um Plano de Mobilidade Urbana, no entanto, uma rápida consulta ao Google revela que a cidade conta, sim, com um Plano de Mobilidade Urbana”, diz, citando a Lei Municipal 5.367/2017, que prevê entre outras a estrutura e organização da Secretaria Municipal de Transporte e Mobilidade Urbana, além de conter dispositivos relacionados ao Plano de Mobilidade Urbana.
Melhem lembrou ainda que, recentemente, em abril de 2024, durante a última reunião do Comutran, foi discutida justamente a necessidade do início dos trabalhos de revisão do Plano de Mobilidade Urbana Sustentável de Volta Redonda. Ele tem razão. A reunião do Conselho de Mobilidade Urbana de Volta Redonda ocorreu no dia 12 de março, e os conselheiros votaram a favor do início das atividades da revisão da Lei Municipal 15.653/19, tendo como primeiro passo a apresentação, por parte da SMTU, dos princípios básicos que deverão nortear os trabalhos, que foram aprovados por unanimidade.
Ficou decidido, pelo que o aQui apurou, que o Conselho discutiria nos próximos encontros a metodologia do processo de revisão, e que deverá compor um grupo de trabalho entre seus membros para acompanhar e validar a metodologia e atividades envolvidas no processo da revisão de plano. Pena que até hoje, mais de um ano depois, nada foi feito. E os gargalos estão aí…
Opinião
Gargalos
Parabéns pela matéria a respeito do trânsito da cidade do aço.
Entre os entrevistados, o arquiteto Ronaldo Alves falou o que tem de mais importante para solução a médio e longo prazo. O palpite de um outro entrevistado, sobre eliminar a rodoviária da Ponte Alta, deveria ser seguido com pelo menos uma sugestão de qual deveria ser a opção.
No mais, resta a dúvida de quem não passa no bairro Niterói pela Av. N.S. do Amparo e Av. Sávio Gama em horário de pico. O trânsito está fluindo bem após a inauguração do Viaduto Porfírio Almeida ou apenas o gargalo foi transferido mais para a frente, ao lado da Praça Aprígio Cravo, e em dobro, pela soma num só trecho, de quem vem do Retiro e da Voldac?
Por Paulo Roberto de Oliveira

