Por Julio Ferreira – ex-vereador e ecologista de plantão
(O tempo passou, as virtudes da simplicidade, do desapego à ostentação, a consciência límpida de não ser o Estado, mas o de estar provisoriamente nele, por deferência ao Bem Público, desapareceram do Brasil -Julio Ferreira)
As cidades imitam os homens. Nascem dos encontros das vontades, desenvolvem-se na luta pela sobrevivência e têm longevidade diferenciada por suas próprias histórias.
As cidades, entretanto, são mais resistentes do que os homens isolados. Há uma situação concretamente sobrenatural e continuamente modificada, que poderá sempre estabelecer ruínas palpáveis, indícios, fragmentos, renascimentos, sístoles e diástoles existenciais, ou até fazê-las desaparecer indefinidamente sob lavas, mares ou novos sítios antropológicos.
Tudo poderá acontecer em qualquer cidade: vide Pompéia e o exemplo fulgurante de Roma; nem a efervescência escaldante do Vesúvio, libertou as delicadezas de sua arte, as frivolidades humanas de suas fraquezas, como também a glória num mundo antigo não libertou Roma de seus desafios, da crítica humanística de um mundo contemporâneo, voltada cada vez mais à recuperação integral na reorganização teocêntrica do Homem e de sua vida no planeta.
Ouvia-se o balbuciar de Volta Redonda, quando o clarão denunciou sua primeira corrida de aço. Uma infância sob cuidados de um paternalismo estatal nem sempre primoroso, mas, certamente, autenticamente exorbitante na determinação de uma vocação siderúrgica transplantada.
O Estado brasileiro é rico em exemplos deste tipo, onde a vontade suprema do dirigismo acaba colocando comunidades humanas sob princípios e valores deformadores da liberdade, da autonomia e da livre iniciativa.
Sem dúvida nenhuma. A privatização da Companhia Siderúrgica Nacional, foi o passo histórico em nossa libertação. Talvez poucas pessoas estejam se dando conta desse fato de que, embora abalando muitos interesses locais e mesmo externos, nos colocou na desafiadora encruzilhada atual, em que toda uma cultura política e social deverá ser repensada, sob o risco de não se poder projetar com lucidez as alternativas necessárias para fugir à monocultura do aço, em boa hora entregue aos acionistas privados.
Hoje, a CSN é uma grande empresa pagadora de tributos crescentes. O interesse municipal, apenas deverá envolver-se com os cuidados que um grande contribuinte possa sempre, e com legitimidade, exigir. A grande contribuição social da CSN será a de aumentar sua produtividade e seus lucros . Nada há mais que exigir-se dela, como de qualquer outra empresa de Volta Redonda. Vamos chamar isto de retorno à realidade, tão deformada pelos vícios políticos canalizados para o clientelismo, o fisiologismo e o deplorável dirigismo, que ainda pretendem ser perpetuados.
Sem um grande suporte físico territorial, o destino de Volta Redonda não parece ser o da agropecuária e nem do Turismo às montanhas de Escória do Bairro São Luiz e arredores. O que há de se fazer, além dos serviços subsidiários à siderurgia?
O dilema pedirá uma sincera e plausível reflexão por todos nós. Mais que o desemprego que já assusta com a crise Global, é o desenvolvimento da pobreza que veio para multiplicar. Um quadro alarmante, quando ausente uma diretriz política que irradie um esforço coletivo contra as dependências ditadas por um passado de erros de visão.
Na intimidade luminosa e ardente de nossas experiências de uma infância tão sofridamente mimada, poderemos desvendar que uma vontade livre de preconceitos culturais, talvez seja a grande resposta divina às aflições de um universo globalizante que fingíamos não existir. Sem dúvida o binômio Sustentabilidade e Desenvolvimento será o grande desafio de nosso subdesenvolvimento vegetativo, sempre amparado pelo assistencialismo vazio e castrador das espertezas políticas sem grandeza.
Volta Redonda tem tudo para transformar-se em Polo Internacional de Green Tecnologia e inovações no Estado do Rio. As igrejas, os fundos nacionais e internacionais, as empresas regionais não fugiriam ao desafio . Teríamos dinheiro e recursos de muitas fontes no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos. Investimentos nos diversos níveis de ensino, vejam a UNIFOA com seu capital intelectual , se fizéssemos a nossa parte: na ordenação de uma vontade pública municipal capitaneada pelo prefeito Neto, pela CSN , pela CDL e ACIAP. Uma união que fecundasse em liberdade, uma atuação verdadeiramente voltada à valorização dos recursos humanos disponíveis na Região Sul-fluminense.
Só com a têmpera da fé e com a vontade política, que se forja uma melhor cidadania.
Volta Redonda tem tudo para mudar seu reconhecimento social, o momento é agora.
NENHUM CÃO É SÓ CÃO
Por Sebastien Florens
O caso do Orelha não expõe um crime isolado, mas o abismo entre negligência e responsabilidade na forma como a sociedade trata os cães
A carta era simples, poucas linhas, escritas à mão, deixadas dentro da casinha onde ele costumava descansar. Falava de saudade, de cuidado, e de um pedido de desculpa. Pedia perdão em nome de pessoas que não souberam proteger. Não descrevia a violência, a ausência já dizia tudo.
O gesto, registrado depois da morte do cão comunitário Orelha, comoveu o país porque não era um manifesto. Era um luto silencioso, um reconhecimento tardio de que aquele animal, tratado como parte da paisagem por tantos, era, na verdade, parte da vida.
O caso do Orelha não é um desvio isolado nem um episódio excepcional. Ele escancara como a responsabilidade humana é o fator decisivo que define se um cão será protegido ou exposto, cuidado ou abandonado à própria sorte. É nesse ponto que a conexão com o trabalho de especialistas como Sebastien Florens se torna legítima. Não para comentar o crime ou explicar o inexplicável. Mas para mostrar que existem dois mundos convivendo ao mesmo tempo, tratando o cão de formas radicalmente opostas.
De um lado, o cão exposto à negligência, à violência gratuita, à ausência absoluta de responsabilidade humana. De outro, o cão visto como vida sob tutela, treinado com método, protegido por protocolos e jamais colocado em risco por descuido. Esse segundo universo é o da segurança preventiva com cães de detecção, onde o princípio básico é claro: o animal nunca paga pelo erro do homem.
Para Sebastien, especialista internacional em detecção de explosivos com cães, essa lógica não é discurso. É regra operacional. “Se o ambiente não é seguro, o cão não entra. Se o treinamento não está validado, a operação é suspensa. Quando há dúvida, o cuidado prevalece. O método existe justamente para eliminar improviso e exposição desnecessária”, relata.
Essa visão lança luz sobre um ponto desconfortável. O que aconteceu com o Orelha não foi um acidente. Foi o resultado extremo de uma cadeia de falhas humanas. Falha de cuidado, falha de limite, falha de responsabilidade. E isso não começa no ato final. Começa muito antes, na naturalização da violência, na ideia de que um cão “aguenta”, de que não sente, de que vale menos.

Tratar a morte do Orelha como um desvio isolado é uma forma de aliviar a consciência coletiva. Mas a repetição de casos de maus-tratos no país mostra que o problema é estrutural. Existe uma cultura que ainda naturaliza a ideia de que animais são descartáveis.
A carta deixada na casinha do Orelha funciona como um contraponto poderoso porque revela o oposto dessa lógica. “Ela mostra vínculo, afeto. E é justamente por isso que emociona”, comenta Sebastien.
No campo da segurança preventiva, há uma ideia que ajuda a compreender esse contraste: O silêncio. Quando um grande evento termina sem incidentes, o silêncio é sinal de sucesso. Significa que o risco foi neutralizado antes de se tornar ameaça, que o planejamento funcionou, que o cuidado foi eficaz e a segurança prevaleceu.
No caso do Orelha, o silêncio teve outro significado. Foi o silêncio da imprudência, da crueldade. Dois silêncios opostos, produzidos por escolhas humanas igualmente opostas. Essa comparação serve para lembrar algo essencial. Cães não falham. Humanos falham, sempre.
Quando um cão é bem tratado, protegido e respeitado, isso não é heroísmo. É o mínimo. Quando um cão é violentado, isso não é impulso juvenil, brincadeira ou erro pontual. É falha ética, é responsabilidade não assumida.
Orelha não era só um cão comunitário. Era um teste cotidiano de humanidade. A vida sob nossa guarda não pode ser relativizada, afinal nenhum cão é só um cão.
Sebastien Florens é especialista internacional em detecção de explosivos com cães, com mais de 25 anos de experiência em segurança preventiva. De origem francesa, atuou em empresas privadas homologadas pelo Estado em ambientes de alta complexidade na Europa. Hoje, dedica-se à formação de cães de trabalho e à transmissão de conhecimento técnico, com foco em precisão, controle e validação contínua.

