Sem choro, nem vela

Por Vinicius de Oliveira

De acordo com as normas regimentais, daqui a três dias, às 10 horas de 1º de janeiro de 2020, a Câmara de Volta Redonda terá um novo presidente, seguindo a tradição de um rodízio entre os vereadores, estabelecido em vários mandatos. E, pela primeira vez desde que se tornou parlamentar, Nilton Alves de Faria, o Neném, vai assumir a cadeira mais alta da Casa em 2020, justamente no ano cujas previsões de políticos mais experimentados indicam que será um dos mais difíceis em termos eleitorais. Neném terá pela frente um plenário quase que em pé de guerra e envolto em uma situação desconfortável, motivada pela disputa entre o atual prefeito, Samuca Silva, e seu principal adversário, o ex-prefeito Neto, mentor político de Neném. 

Embora alegue que fará uma gestão independente, Neném, em entrevista exclusiva ao aQui, reafirmou o que todo mundo está careca de saber: é Neto roxo! Mesmo assim, garantiu, não pretende atrapalhar Samuca. “Eu sou um vereador independente. Não pretendo fazer oposição ferrenha ao Samuca. Talvez ele sinta diferença na minha gestão porque ele pegou três presidentes de situação. Não será o meu caso. Vou votar e propor votações sempre com estudo e seriedade. Mas não posso negar que sou Neto”, disparou.

Neném também adiantou que, da mesma forma que não colocará empecilhos ao governo Samuca, não vai perturbar a vida de Neto, seu amigo pessoal. Muito pelo contrário. Sua intenção é não colocar em votação as contas do ex-prefeito, que ainda não foram apreciadas pelos vereadores, referentes aos anos de 2015 e 2016. Detalhe: Uma delas teria sido reprovada pelo TCE. “Quero, sim, deixar tudo preparado e muito bem estudado (para que sejam apreciadas em 2021, grifo nosso). Mas não acho justo colocar em votação as contas de um ex-prefeito em pleno ano eleitoral. Também não pretendo fazer isso com as de Samuca. Vamos deixar isso mais pra frente”, comentou Neném, em tom apaziguador.

Vale lembrar que, em 2017, as contas de Neto, referentes a 2011, foram rejeitadas pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) e ratificadas pela Câmara, o que o tornou inelegível por um período de oito anos. Só que o ex-prefeito não se cansa de dizer que pode derrubar a tese da inelegibilidade a seu favor já que, segundo sua defesa, não houve dolo por parte do ex-prefeito. Ou seja, não teria tido a intenção de cometer crime de responsabilidade muito menos de se enriquecer ilicitamente. “Estamos recorrendo da decisão (que o tornou inelegível, grifo nosso), porque não houve prejuízo para os cofres públicos. As contas foram remaneja-mentos da verba da publicidade para setores como educação e saúde, sem autorização da Câmara. Não houve nenhum desvio para enriquecimento ilícito”, defende o ex-prefeito, como fez quando de sua filiação ao DEM, partido de Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados.

A rixa entre Neto e Samuca por pouco não tirou a presidência de Neném. Conforme o aQui já noticiou, um grupo de vereadores tentou inviabilizar de uma vez por todas a possível candidatura de Neto, o que poderia ocorrer se as contas não apreciadas fossem rejeitadas.  Isso poderia ainda atrapalhar as articulações políticas do vereador Granato (que se diz pré-candidato a prefeito), que abandonou a base aliada do governo Samuca depois de jurar amor eterno ao atual prefeito. Para isso, a maioria dos parlamentares teria assinado um abaixo-assinado a fim de impedir a posse de Neném & Cia. Detalhe: segundo o futuro presidente da Câmara, o encontro teria acontecido no Palácio 17 de Julho.

Ao tomar conhecimento do fato, Neném disse que manteve a cabeça no lugar. Jura que agiu com serenidade, o que é negado por fontes do aQui. “Não sei se fizeram isso realmente para atrapalhar a vida do Neto ou se foi para me atingir. Eu penso que o Samuca foi usado por alguns vereadores para ‘acertar’ o Granato, que será meu primeiro secretário, me prejudicando por tabela. Outros me disseram que Samuca não teve participação nenhuma. Mas só pelo fato de ter feito a reunião em seu gabinete já demonstra que foi conivente. É uma pena”, avaliou.

“De qualquer forma, a iniciativa nasceu morta. Eu sou respeitado na Casa. No mesmo instante que aconteceu a reunião, colegas me avisaram o que estava rolando e me disseram que assinaram a lista por terem sido pressionados durante a tal reunião. Garantiram que, se houvesse uma sessão para inviabilizar minha gestão, não compareceriam. Se isso foi uma ameaça, não deu certo. Não me intimidou nem um pouco”, completou Neném, que não revelou os nomes dos vereadores que o teriam alertado da estratégia do grupo de vereadores da base governamental.

A suposta estratégia, com ou sem a participação direta do Palácio 17 de Julho, mesmo que não tenha ido à frente, acabou fortalecendo Neném e expôs a fragilidade da base aliada ao prefeito. “Samuca não tem uma base unida. Foi uma infantilidade dos vereadores que participaram da reunião e assinaram a lista. O prefeito poderia ter esperado a reunião acontecer e só depois se juntado (ao grupo, grifo nosso). Ele se deixou levar pela vaidade de três ou quatro vereadores”, desabafou Neném, salientando que recorreu ao regimento interno da Casa para se blindar. “Eles não poderiam mexer comigo, pois nem tomei posse. Não sou o presidente ainda. Se fossem tirar alguém, seria o [Edson] Quinto. Então, torno a dizer, se foi uma ameaça, não deu certo”, pontuou.

O único que acabou saindo queimado do quiproquó foi o vereador Rodrigo Furtado, escolhido para ocupar a 1ª vice-presidência na gestão de Neném. Advogado, marinheiro de primeira viagem, e eleito, segundo muitos, por ter o mesmo sobrenome do deputado federal Antônio Furtado, o vereador teria assinado o suposto abaixo-assinado. Denúncia feita, vejam só, pelo próprio Neném. “Não guardo raiva, mas acho digno da parte dele pedir para não fazer mais parte da Mesa já que ele assinou a lista contra mim. Como ele poderá assumir o cargo?”, questiona Neném.

O aQui fez a pergunta a Rodrigo Furtado. Só que o vereador nega ter assinado a tal lista.  “Eu realmente desconheço tal lista, e no ano que vem serei o vice-presidente da Câmara, junto com o Neném. Gostaria, se possível, de conhecer tal lista, se é que ela existe. Destaco que qualquer alteração na mesa diretora teria que ser fomentada por justo motivo, que não vejo como ser aplicado ao vereador Neném, que cumpre seu papel como parlamentar”, alegou Furtado, o vereador.

Após ser perguntado a quem o grupo de vereadores pretendia atingir com a suposta lista, Rodrigo voltou a afirmar que esta não existe. Mas deu a entender que, de fato, foi proposta. “Por desconhecer a existência de lista, e o tema sequer ter sido apresentado na Casa, essa pergunta deveria ser voltada para o parlamentar que a propôs. Não tenho problema pessoal com nenhum parlamentar, discordo de algumas condutas na Casa, mas cada vereador toca seu mandato da forma que se propôs a fazer. Estou na base, tenho conseguido êxito nas minhas solicitações junto à população, minhas emendas impositivas estão sendo realizadas, com planejamento e responsabilidade, e meu mandato é voltado para o bem comum”, crê.

Ao ser confrontado sobre o desejo de Neném – de que ele, Furtado – deixe a Mesa, o vereador deixou claro que não atenderá ao pedido do futuro presidente. Saiu-se com o argumento de que foi eleito, assim como Neném, pelos colegas de forma democrática. “A mesa diretora foi composta no início do mandato (1ª sessão de 2017), onde foram escolhidos os parlamentares que comporiam a mesa diretora de cada legislatura. Fui eleito para ser o vice-presidente em 2020, e o Neném como presidente. Vou cumprir o papel que fui eleito. Tenho bom relacionamento com o vereador Neném, e estou muito preparado para desempenhar a função”, disse.

Questionado se, de fato, manterá o bom relacionamento, Neném preferiu manter o tom cordial. “Não guardo raiva de ninguém. Espero que haja amor no coração dos vereadores no ano que vem já que será um ano difícil, polarizado e sei que isso se refletirá na Câmara. Mas não consigo entender como um vereador que se colocou contra mim poderá compor a Mesa ao meu lado”, cutucou Neném.

Sobre suas pretensões futuras à frente da Casa, Neném preferiu não fazer promessas. Disse que Edson Quinto fez uma boa gestão, mas que poderá mudar algumas estratégias. Caso da sessão itinerante, por exemplo, uma iniciativa da atual administração não muito elogiada pelos vereadores. “Precisamos ver se realmente vale a pena. Algumas sessões itinerantes não foi ninguém. Será que realmente estamos levando o povo pra perto da Câmara? Geralmente são os vereadores que solicitam. Desta forma, a gente analisa e vê se vale a pena”, ponderou.

Nota da redação: O prefeito Samuca Silva não foi encontrado para se posicionar sobre o caso.

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