Quem cuida de quem?

0
4

Provavelmente, em alguma área ou fase da sua vida, você é um cuidador. Pode ser de um filho, neto, criança da vizinha. Pode ser de uma mãe acamada, um aluno na classe, um enfermo no hospital, um parceiro de vida. Você também pode cuidar de cachorros, gatos, peixes, flores e árvores. Profissionalmente ou voluntariamente, de forma diária ou esporádica, o cuidado faz parte da vida de todos nós. 

O dia 29 de outubro é o Dia Internacional do Cuidado e Apoio. A data, instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2023, chama a atenção para o trabalho de cuidado, remunerado ou não, e para a necessidade de reconhecer, valorizar e apoiar quem cuida. 

Cuidar é um ato humano natural, porém exige limites e atenção. Embora nem sempre haja reciprocidade nessa relação, é fundamental formar uma rede de apoio que também sustente quem cuida. 

É muito comum ver as pessoas que cuidam esquecerem-se de si mesmas, colocarem-se no último lugar da fila. Coisas simples como fazer uma viagem, ter tempo para uma atividade física ou comprar um presente para si passam longe do radar dos cuidadores. Afinal, o tempo é escasso e a demanda parece infinita.  

Mas a natureza ensina sobre equilíbrio. Assim como acontece em tantos sistemas vivos, quando uma parte é continuamente sobrecarregada, o conjunto também pode sofrer as consequências. Dar e receber são dois lados da mesma moeda. O cuidado é essencial para fortalecer os vínculos humanos, mas isso não pode significar o esquecimento de si mesmo. 

Cuidar é uma expressão concreta de amor 

O amor não se manifesta apenas no que sentimos, mas também na atenção, na presença, na escuta e nas atitudes cotidianas. Cuidar transforma sentimento em ação, dando contornos ao invisível das nossas emoções. Para a psicóloga americana Barbara Fredrickson, o amor pode emergir em momentos de conexão, marcados por emoções positivas compartilhadas, sincronia e reciprocidade. Ou seja, ele não vive só nos grandes gestos, mas também nas pequenas interações que nascem do cuidado. 

Cuidar é se relacionar  

Relações de apoio e experiências de conexão positiva podem favorecer o bem-estar não apenas de quem cuida, mas também de quem recebe cuidado. O ato de cuidar e ser cuidado nasce da relação entre o eu e o outro, mas o zelo também pode ser cultivado na relação consigo mesmo. Aprender sobre autocuidado é uma necessidade primordial na construção do bem-estar.  

Cuidar pode nutrir ou exaurir 

Quando cuidamos, contribuímos para o bem-estar do outro. Essa experiência pode despertar emoções positivas, como gratidão, alegria, amor e fortalecer o sentido de propósito. No entanto, cuidar também pode gerar cansaço, impotência, tristeza e exaustão por sobrecarga. Saber os próprios limites e encontrar formas de não ultrapassá-los é um aprendizado difícil e importante.   

O cuidado e a mulher 

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), as mulheres respondem por cerca de 76% das horas de cuidado não remunerado no mundo. O dado não surpreende, mas lembra que o apoio envolve desigualdades e escolhas sociais, e que quem cuida não pode desaparecer na própria dedicação.  

Cuidar não significa estar disponível o tempo todo, nem assumir tudo sozinho. Falar sobre limites, redes de apoio e autocuidado é o maior desafio e, ao mesmo tempo, o melhor benefício que podemos gerar. Observe como isso circula na sua vida. Quanto você oferece? Quanto se permite receber? O cuidado não deve ser uma tarefa solitária, nem um caminho de mão única. Quando você se pergunta “quem cuida de quem?”, que respostas encontra?

Deborah Dubner é psicóloga e escritora, autora de sete livros sobre autoconsciência, evolução pessoal e Psicologia, com uma boa dose de poesia. Palestrante TEDx, especialista em Neurociência e Psicologia Positiva, é também graduada em Ciência da Felicidade e professora de pós-graduação em Motivação e Resiliência.