terça-feira, novembro 30, 2021
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Pobre de marré…

Roberto Marinho

Todo mundo sabe que eleição custa dinheiro. No passado, era comum encontrar casos e casos de candidatos que não se elegeram e perderam tudo: a casa, o carro, o negócio e até a mulher. Motivo: acreditaram nos eleitores e, quando as urnas foram abertas, descobriram que eram ruins de voto. Hoje, guardadas as proporções, e diante da mudança das regras – como a proibição de empresas doarem dinheiro para os políticos –, os interessados ainda gastam muito para participar da ‘corrida das urnas’. Mas dizem que gastam pouco.

Para a eleição de 15 de novembro, por exemplo, conforme determinação do TSE, os candidatos a prefeito de Volta Redonda poderiam gastar até R$ 817.109,16. Quase um milhão. Detalhe: pelo endereço eletrônico divulgacandcontas.tse.jus.br – o DivulgaCandContas 2020 –, todo e qualquer cidadão pode conferir o que cada um recebeu, o que investiu do próprio bolso e como gastou o dinheiro da campanha. O aQui descobriu, entre outras, que a maioria dos que queriam chegar ao Palácio 17 de Julho não gastou quase nada.

Dos três primeiros colocados, a campanha mais cara foi a de Neto, que arrecadou apenas R$ 247 mil, tendo gasto R$ 107.541,50. Ficou com um saldo de R$ 140 mil, dinheiro que terá que devolver para o DEM que, posteriormente, devolverá ao Fundo Partidário. Do total arrecadado por Neto, mais da metade foi oriunda da direção nacional do DEM, que doou R$ 150 mil para a chapa do prefeito eleito. Mas Neto e seu vice, o engenheiro Sebastião Faria, também coçaram o bolso: cada um deles pôs R$ 40 mil na própria campanha. Quem deu uma forcinha para eleger a dupla foi o ex-secretário de Fazenda, José Carlos Abreu. Reza a lenda que Abreu tem um escorpião no bolso, mas ele doou R$ 10 mil para os antigos companheiros de governo. Um milagre!

Neto, pela prestação de contas apresentada ao TSE, optou por fazer uma campanha conservadora, com pouco gastos nas redes sociais. Ao contrário de outros candidatos, não houve contratação de especialistas, consultores, palpiteiros e não se gastou com impulsionamento de publicações no Facebook, Twitter ou Instagram. A maior parte dos gastos da equipe de Neto foi com adesivos – cerca de R$ 60 mil (cerca de 55%), seguido de material impresso (R$ 22 mil ou 20%) e despesas contábeis (R$ 18,5 mil, equivalente a 17%), entre outras despesas. Nos jornais, por exemplo, o prefeito eleito não gastou um centavo.

A prestação de contas de Neto também registra um expediente curioso, que foi utilizado por diversos candidatos: algumas pessoas aparecem como doadoras, mas ao mesmo tempo aparecem como credoras. Na verdade, são pessoas que emprestaram bens – no caso de Neto, dois imóveis que provavelmente serviram como comitês de campanha – ou prestaram algum serviço de forma “graciosa”, ou seja, sem custo, para as candidaturas. Há registros, inclusive, de empréstimos de carros “com motorista” para alguns candidatos. Tudo isso deve ser registrado contabilmente e encaminhado à Justiça Eleitoral.

O ex-prefeito Paulo Baltazar (PSD), que rompeu com Samuca perdendo um polpudo salário de diretor do Hospital do Retiro, arrecadou menos da metade que Neto – R$ 114 mil –, sendo que a maior parte do dinheiro saiu dos cofres da direção municipal provisória do PSD, que é comandado pelo ex-deputado estadual Nelson Gonçalves, que também perdeu o emprego no governo Samuca. O PSD doou R$ 109 mil para a campanha de Baltazar, o equivalente a 95,61% do total arrecadado. O restante do dinheiro saiu do bolso do próprio candidato, que investiu R$ 2 mil na campanha, e de uma doadora particular, que cedeu um veículo avaliado em R$ 3 mil para a candidatura. Sem motorista, ao que parece.

Os gastos totais da campanha de Baltazar foram de R$ 87.616,45. Ao contrário de Neto, Baltazar e seus conselheiros políticos, muitos oriundos do Palácio 17 de Julho, optaram por uma campanha mais moderna e “digital”. Nada de anúncio em jornais, é claro. Gastaram R$ 19.795 em material impresso – adesivos “praga-de-mãe”, cartões de visitas, santinhos e “santões” – e mais R$ 16,4 mil em uma pesquisa eleitoral, que não foi registrada ou publicada. Talvez por mostrar que a derrota estava a caminho.

A campanha de Baltazar gastou R$ 10 mil em uma “consultoria especializada em comunicação política eleitoral e planejamento”, que mostrou não ter tido efeito. Outros R$ 10 mil foram gastos com a criação de conteúdo digital para as mídias sociais e R$ 6,5 mil foram usados para impulsionar os conteúdos postados nas redes. De ataques a Samuca e Neto, por exemplo.

O prefeito Samuca Silva (PSC), que disse ao aQui ter se arrependido de ter concorrido à reeleição, deve ter ficado chateado mesmo, depois de ficar em terceiro lugar com seus 13.889 votos. Mais ainda por ter perdido R$ 30 mil, que tirou do próprio bolso para a campanha. Baltazar, só para comparar, gastou R$ 2 mil, uma merreca para quem sonhava voltar ao Palácio 17 de Julho.

Samuca recebeu R$ 60 mil do Partido Liberal (que fazia parte da coligação), outros R$ 50 mil do PSC, além de R$ 6 mil de um doador particular. Do total de R$ 146 mil que arrecadou, o atual prefeito só utilizou efetivamente R$ 63.996. Ficou com saldo positivo de quase R$ 82 mil, dinheiro que poderia ter investido em anúncios de jornais, entre outros, para não ter que devolver às legendas que o financiaram.

O curioso é que a maior parte das despesas de campanha de Samuca foi com aluguel de imóveis: R$ 27 mil, quase a metade do valor investido (exatos 42,19%). A maior despesa da campanha como um todo – R$ 20 mil – foi com o aluguel de um dos três imóveis que utilizou durante a campanha. Para se ter uma ideia, esse gasto foi inexistente na campanha de Neto – ou melhor, ficou na base do doador/credor – e de R$ 2.300 na campanha de Baltazar, cerca de 3% do total utilizado.

Outro investimento “diferente” da candidatura de Samuca foi em carros de som, as terríveis ‘pererecas’, de efeito duvidoso. Uma única recebeu R$ 16 mil para atazanar o dia dos eleitores. O investimento nas pererecas representou 25% dos gastos da campanha do atual prefeito. Deve se por essas e outras que fracassou nas urnas.

Samuca ainda gastou R$ 10.086 (15,76%) em material impresso, e R$ 8.188 (12,79%) em adesivos. Curiosamente, a campanha do prefeito investiu apenas R$ 2 mil (cerca de 3,1%) no impulsionamento de conteúdo nas redes sociais. Deve ter apostado na presença massiva de Samuca na internet durante as transmissões ao vivo para falar da Covid-19, e na atuação constante do governo nas mídias sociais. Tudo o que os jornais falavam – bem – do governo era replicado diariamente (só o aQui não era repostado).

É interessante lembrar também que foram justamente as redes sociais que, em 2016, levaram o então “azarão” Samuca Silva ao segundo turno contra Baltazar, e à vitória do prefeito mais jovem a governar Volta Redonda.

Quanto foi?
Para efeitos meramente comparativos, nada oficial e sem base científica, quem melhor utilizou o dinheiro da campanha foi Neto, prefeito eleito. Na relação “custos x votos”, Neto foi o campeão: gastou R$ 107.541,50, ou seja, investiu em torno de R$ 1,25 por cada um dos 85.673 votos que conquistou. Com 18.961 votos e gastos de R$ 87.616,45 com a candidatura, os votos não saíram barato para Baltazar: foram cerca de R$ 4,62 por voto, quase quatro vezes o custo de Neto. Para Samuca, a conta também foi salgada. Com R$ 63.996 gastos na campanha e 13.889 votos, cada voto saiu ao custo da ordem de R$ 4,60 para o atual prefeito.

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