Ocupação sem paz

Guarda Municipal acaba com acampamento na praça e é acusada de truculência por desalojados

Vinicius de Oliveira

Depois de quase 60 dias acampadas em frente ao Palácio 17 de Julho, as famílias desalojadas do acampamento ‘Ocupação da Paz’, localizado entre os bairros Jardim Belmonte (Volta Redonda) e Getúlio Vargas (Barra Mansa), acabaram deixando a Praça Sávio Gama. Saíram e suas tendas, como em um passe de mágica, foram ocupadas por moradores em situação de rua, estrangeiros na maioria, que acabaram expulsos do local na manhã de domingo, 1.
O estopim para a ordem de despejo, cumprida pela Guarda Municipal, embora o governo não admita, teria sido a notícia de que um estrangeiro teria estuprado a própria cadelinha. Em nota divulgada no Instagram, os líderes da Ocupação da Paz confirmaram o caso de zoofilia. “Nós acolhemos todas as pessoas sem discriminação porque entendemos que a solidariedade é um dos laços mais fortes que podemos ter com o próximo, ainda mais em um cenário que o Poder Publico falha ao garantir o direito a uma vida digna. Dito isso, na madrugada de sexta-feira para sábado, um dos estrangeiros que estava na praça, de forma hedionda, cometeu o crime noticiado pela mídia ao violentar e maltratar a sua própria cachorra”, relataram.
As lideranças afirmaram ainda que o estrangeiro acabou expulso do local e que o caso teria sido denunciado à GM, que nada teria feito. “A situação (zoofilia) foi reprimida pelos próprios companheiros de estrada que estavam com ele, gerando inclusive embate físico entre eles. Alguns dos nossos ocupantes, ao perceberem a confusão, intervieram e comunicaram ao sujeito que ele estava expulso daquele espaço, além de noticiarem a Guarda Municipal sobre o crime ocorrido. Nessa madrugada e durante todo o sábado nada foi feito e o homem saiu livre e impune da Praça e, infelizmente, levou a cadela”, contaram, justificando a surpresa ao se depararem com a GM no domingo seguinte ao ocorrido.
Ainda de acordo com a nota, houve truculência por parte dos GMs, que exigiram até Nota Fiscal de tudo o que eles (desalojados) teriam recebido como doação ao longo da ocupação. “A Guarda Municipal decidiu intervir de forma truculenta, agredindo as pessoas, retirando as que estavam dormindo de forma agressiva, puxando pelas pernas e confiscando todo o material e suprimento arrecadado através de muita luta e suor. Inclusive, estão solicitando NOTA FISCAL desses materiais confiscados para devolução, materiais que nos foram DOADOS. Além disso, uma pessoa teve seu braço fraturado e outras tiveram outros ferimentos”, denunciaram pelo Instagram.
“Toda ação foi violenta e, além disso, confiscaram materiais de trabalho, dinheiro, nosso fogão, nosso gás, lonas, colchões, alimentos, documentos e afins. Nem com os animais presentes a Guarda Municipal teve cuidado, levando a força dois gatos que têm tutores, jogaram água e abandonaram na rua. Esses, inclusive, já foram localizados. Só depois da ação truculenta, coercitiva e vexatória, pois filmaram todas as pessoas, é que foi aberto um diálogo informando a necessidade de saída e de desmobilização”, completaram.
A secretaria de Comunicação da prefeitura, sem comentar a ação da GM, disse que os ocupantes da praça foram expulsos não pelo crime contra a cadelinha, mas, sim, por não terem cumprindo a parte deles num acordo firmado que teve a Cúria Diocesana como uma das fiadoras do acordado. “Em reunião na Cúria Diocesana, realizada entre o fim de abril e maio e intermediada pela Igreja Católica e Defensoria Pública, o Poder Público Municipal fez uma proposta às pessoas que ocupavam a praça. A oferta era: três meses de aluguel social e emprego a todos os chefes de família, além da entrega de cesta básica durante seis meses. A proposta foi rejeitada, a partir de uma orientação política. E, infelizmente, os empregos oferecidos já foram preenchidos”, relatou a Secom.
Para um dos porta-vozes da Ocupação, Hafid Carvalho, os desalojados desconfiaram da proposta. “A questão principal é… a prefeitura emprega alguém? Então que emprego é esse? Promessa vazia ou uma rearticulação de criar um novo cabide de emprego da prefeitura como foi a Cohab?”, questionou, afirmando que era clara a intenção de acabar com o movimento. “A grande realidade é que o prefeito cansou de esperar que o movimento acabasse por si só. Ele viu que o movimento diminuía e aumentava e resolveu atacar. E o fez de forma violenta: atacou animais, pessoas e filmou a cara de todo mundo. Cortou a eletricidade até do ponto de ônibus que tem USB para carregar, deixando todo mundo sem comunicação”, desabafou.
Procurada, a Cúria Diocesana não comentou a expulsão dos desalojados da Praça Sávio Gama. A assessoria de comunicação da entidade explicou que nada poderia ser comentado pelo fato de todo o clero ter saído em retiro a partir de segunda, 2, um dia depois da ação da GM. Fica o registro: assim que começou a ocupação, em junho, o bispo D. Luiz Henrique falou sobre o acordo firmado com a prefeitura e com a Defensoria Pública. “Em poucos dias, conseguimos construir com os órgãos públicos – mais particularmente com a Prefeitura Municipal de Volta Redonda – uma proposta concreta para as famílias envolvidas com a “Ocupação da Paz”. Essa proposta consiste em viabilizar o aluguel social e outras urgências para as famílias que estiverem dentro do perfil exigido, dando assim um apoio significativo para que possam reorganizar a vida”, afirmou o religioso.

Na Praça

Segundo dados da ONG Habitat para a Humanidade Brasil, no país mais de 6 milhões de pessoas não têm uma casa para morar. Estão largadas à própria sorte. É o caso de quem faz parte da Ocupação da Paz, acampamento localizado nos bairros Belmonte (Volta Redonda) e Getúlio Vargas (Barra Mansa). As terras ocupadas eram da antiga fábrica de cimento Tupi, que entrou em falência e hoje está em recuperação judicial.
Com o fim das atividades, cerca de cinco mil famílias, entre homens, mulheres e crianças, majoritariamente negros, invadiram a área e ciaram um acampamento improvisado sem água encanada e saneamento básico. Para construir seus barracos, utilizaram paletes de madeira, do tamanho de uma mesa de quatro lugares. “Enquanto tivermos forças e espaço vamos acolher quem chegar sem um lugar para morar”, jurou Loira, uma das líderes da ocupação. “Quem tem sua barraca dorme lá dentro. Quem chega sem nada, fica no dormitório. Tem de homem e de mulher. Aqui todos encontram um abrigo. Não importa sua religião ou orientação sexual. Inclusive acolhemos um casal de homossexuais que foi expulso de casa pela família”, completou Loira, enquanto mostrava as porções de terras igualmente divididas entre as famílias que, ao saberem da possibilidade de terem um lugar para morar, corriam para a Ocupação da Paz.
O nome do acampamento foi escolhido de caso pensado. Seria como uma bandeira branca gigante, hasteada bem no meio daquelas terras, indicando que eles só querem paz e um teto para se abrigar. Mas nem no meio do mato essa gente teve paz. A atual proprietária legal das terras, que as adquiriu da Tupi, é a misteriosa Ano Bom Incorporação e Empreendimentos S.A, antiga Mape Incorporação e Empreendimentos Ltda, cuja sede fica na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.
Conforme o jornal apurou, a empresa quer construir no local condomínios com unidades habitacionais enquadradas no programa Minha Casa, Minha Vida. O plano prevê a construção de 1.456 unidades, entre casas (com 51 m2 cada) e apartamentos (com 43 m2 cada), assim distribuídas em 05 (cinco) condomínios ou etapas. Só que os planos foram frustrados pela Covid-19. E a grande incorporadora não contava com a chegada da Ocupação da Paz. Para reaver a terra, a empresa exigiu na Justiça a reintegração de posse.
O caso acabou ‘adotado’ por partidos de esquerda, como o PV e o Psol, e seus filiados se aproximaram dos ocupantes. Num primeiro momento, deu certo. Só que no dia 28 de maio, a Ocupação da Paz se rendeu a um exército da PM que contou com agentes vindos até da capital para expulsar a todos. Na ocasião, os assentados juntaram seus poucos pertences e marcharam até a porta do Palácio 17 de Julho, no Aterrado. Os que estavam na parte do terreno de Barra Mansa permaneceram no local. “O prefeito Neto vai ter que arrumar um lugar para a gente ficar. Continuaremos acampados por tempo indefinido. Não queremos guerra, só queremos um lugar para morar”, desabafou Baiano, outra liderança do movimento.
Foi nesta ocasião que a Cúria Diocesana entrou no circuito. “A doutrina social da Igreja nos ensina que a propriedade privada, embora legítima, tem uma função social. Através de uma ocupação, portanto, tem-se a oportunidade de recordar e fazer acontecer a referida função social da propriedade privada. Contudo, a legitimidade de toda e qualquer ocupação deve ser avaliada pelas instâncias capazes de averiguar a situação concreta dos ocupantes e da terra ocupada”, justificou.

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