Por Pollyanna Xavier
Epidemia não tem, mas pode vir a ter. Não foi exatamente assim que a secretaria de Estado de Saúde se posicionou sobre o aumento dos possíveis casos de dengue nos municípios fluminenses, mas a estratégia de enfrentamento é exatamente esta. O alerta foi disparado pela SES-RJ depois que o Diagrama de Controle da Dengue (sistema que monitora os casos no estado) indicou um aumento de 296,62% nos 10 primeiros meses do ano em comparação com o mesmo período de 2022. Atualmente, os casos somam quase 40 mil (39.369 para ser exato), contra 9.926 de 2022. Dos quase 40 mil infectados, 2.161 pacientes precisaram de internação e infelizmente 21 morreram.
Os números da dengue no estado estão concentrados nas regiões Metropolitana, Noroeste e Baixada Litorânea, que estão em alerta máximo. No Médio Paraíba, em cidades como Volta Redonda e Barra Mansa, a situação não é das piores. Mas também não é confortável. A região aparece como área preocupante, devido ao alto índice registrado em Resende, com mais de mil casos de janeiro até agora. Os números, porém, podem ter erros de subnotificações, com discrepâncias imensas.
Enquanto Resende lidera o ranking com 1.056 casos prováveis da doença, Rio das Flores, que também integra a mesma macrorregião do estado, registrou apenas um caso nos últimos 10 meses. Outra divergência aparece comparando-se Volta Redonda com Barra Mansa. Enquanto a cidade do aço registrou 298 casos, Barra Mansa teve apenas 85. A diferença entre os dois municípios (vizinhos) é vista pela Vigilância Epidemio-
lógica com cautela, porque um deles certamente sofreu com a subnotificação. O mesmo ocorre com Pinheiral, Piraí e Barra do Piraí, vizinhos entre si, que registraram números bastantes distantes uns dos outros. Pinheiral teve 20 casos de dengue de janeiro a outubro, Piraí, 195, e Barra do Piraí, 22. Considerando os determinantes da doença, os registros certamente contêm falhas.
Angra dos Reis e Rio Claro também servem de exemplo. Angra pertence à área da Ilha Grande e Rio Claro, ao Médio Paraíba. Apesar de pertencerem a regiões diferentes, eles estão a apenas 35 km de distância um do outro. Enquanto Angra registrou 1.490 casos, Rio Claro contabilizou apenas cinco. Mangaratiba, que é colada em Angra, teve 98 casos, ou seja, nem 10% do que Angra registrou. A discrepância tem duas explicações possíveis. E o Estado admite a possibilidade de ambas.
A primeira é que a sub- notificação é uma realidade em todos os municípios fluminenses. As secretarias de Saúde não informam ao Estado cada novo caso, e isto acontece não porque elas querem esconder os reais números da doença, mas porque muitas vezes elas nem sabem da ocorrência da doença. A notificação da Dengue, ou de qualquer outra doença de comunicação compulsória, é feita pelo médico durante ou imediatamente o atendimento ao paciente. “Se o médico não registrar que atendeu um caso (confirmado) de dengue, este paciente nunca será enxergado pelo Estado, e o prejuízo na tomada de decisões para o enfrentamento da doença será enorme”, defendem epidemiologistas.
Outra explicação é justamente o contrário Municípios com maiores registros da doença podem estar sobrecarregando os sistemas de informação com casos suspeitos em vez dos confirmados. Resende é um bom exemplo disto. Segundo apurado pelo aQui, todo paciente que busca atendimento na Unimed Resende com pelo menos um sintoma de dengue é notificado como provável caso. Até que o exame sorológico ou o teste rápido afaste ou confirme a doença, este paciente já entrou nos sistemas de informação como um novo caso, fazendo com que os números aumentem rapidamente. O próprio sistema do Estado admite casos notificados como “prováveis”.
Seja qual for o problema em relação aos números da dengue, a SES- RJ nega a existência de uma epidemia nos municípios com maiores ocorrências da doença, mas não afasta o risco. “O momento é de alerta, e não de epidemia”, informou, explicando que, mesmo com a alta incidência da dengue (calculada pela proporção entre número de casos e o total da população), com um número de casos acima do esperado para o período do ano, a taxa encontra-se abaixo dos índices verificados historicamente nos períodos de epidemia.
O monitoramento é feito através do Diagrama de Controle da Dengue, que reproduz a metodologia preconizada pelo Ministério da Saúde e utiliza os dados coletados para prevenir e orientar os municípios sobre as ações a serem implementadas, sempre considerando o cenário epidemiológico. “Há municípios no Noroeste e na Baixada Litorânea que estão em situação de alerta, mas não de epidemia. O cenário aponta para um aumento sustentado no número de casos até o verão, e podemos até chegar ao ponto de ter surtos localizados em áreas específicas”, explicou Mário
Sérgio Ribeiro, subsecretário de Vigilância e Atenção Primária à Saúde da SES-RJ.
Segundo Mário Sérgio, desde a semana passada, as Câmaras Técnicas (reuniões com representantes das secretarias municipais de Saúde) estão debruçadas no assunto, “para planejar ações de combate à Dengue e outras arboviroses (zika, chikungunya, febre amarela urbana)”. As reuniões começaram pela Baía da Ilha Grande e Médio Paraíba e se estenderam às regiões Serrana, Baixada Litorânea, Centro Sul, Metropolitana 1 e 2, Norte e Noroeste. A pasta também vem garantindo itens para estruturação de centros de hidratação em municípios que manifestarem a necessidade de apoio do estado diante de cenário de alerta. “Temos ações previstas para todos os cenários possíveis”, concluiu o subsecretário.
O perigo do fumacê
Uma das ações de combate ao mosquito da dengue é o carro fumacê, que lança um larvicida ou inseticida na atmosfera em forma de fumaça, e a criançada adora correr atrás. O prefeito também, pois mostra que está ‘combatendo o mosquito’. Ledo engano. A estratégia pode ser interessante, mas o uso do carro passou a ser controlado pelo Ministério da Saúde devido a sua pouca eficácia e aos danos ao Meio Ambiente. O problema é que o inseticida utilizado no fumacê mata o mosquito da dengue, o pernilongo, as moscas varejeiras, mas mata também passarinhos, borboletas e outros insetos importantes no equilíbrio do ecossistema.
Há ainda outro agravante pontuado pelo Ministério da Saúde: o inseticida não atinge os criadouros do Aedes aegypti – muitas vezes escondidos em locais onde a fumaça não alcança. Em geral, o produto mata o mosquito na fase adulta, quando ele já está voando. Mas os criadouros, repletos de ovos ou de larvas, acabam preservados, aumentando o risco de proliferação da doença. Para piorar, quando o fumacê passa, muitos moradores fecham as janelas e portas de suas casas, para evitar que o cheiro do produto entre nos imóveis, impedindo a eficácia do seu uso para eliminar os criadouros domésticos.
O próprio Ministério da Saúde já informou, em várias ocasiões, que o fumacê é a última estratégia de enfrentamento às arboviroses, justamente pelas situações já citadas. E que a melhor maneira de combater o mosquito causador da dengue é eliminar a água parada dos quintais, varandas, pratinhos de plantas, lixos, inservíveis, recicláveis ou de qualquer outro depósito, dentro e fora de casa, que acumule o mínimo de água possível.

