Por Mateus Gusmão
“Quem fala demais dá bom-dia a cavalo”. O ditado é bem popular, mas o prefeito de Barra do Piraí, Mário Esteves, parece não estar nem aí para o que pensam dele. Até porque foi falando demais que ele se envolveu em uma grande polêmica, após sugerir que as mulheres da cidade que governa deveriam ser castradas para não terem muitos filhos. Com a repercussão negativa do caso, ele até foi expulso do partido ao qual era filiado. Só que conseguiu se livrar de um processo de impeachment votado na Câmara de Vereadores, e tem tudo para enfrentar dificuldades para eleger seu sucessor, seja ele quem for.
Prova de que a situação política ficou difícil para Mário Esteves é que vários funcionários da prefeitura, contratados para ocupar cargos comissionados, estariam fazendo uma campanha nas redes sociais para exaltar a figura do prefeito de Barra de Piraí. Se foi de forma espontânea ou não, apenas os envolvidos vão saber. Mas o detalhe é que a maioria garante não sentir vergonha em trabalhar para Esteves. Alguns usam até o mesmo texto, aliás. Tem mais. As postagens dos cargos comissionados estão sendo repostadas nas redes sociais do próprio prefeito.
“Vergonha de postar foto ao lado do prefeito Mário Esteves? Jamais! Eu tenho é orgulho. Vergonha tenho de pessoas que já passaram e não fizeram nada. Mário foi o único prefeito que fez e faz a diferença nos últimos 30 anos em Barra”, postou Cleber Fajardo e Thamiryes Ferreira, por exemplo. Regina Vitor fez a mesma coisa. “Orgulho do nosso prefeito. E não vergonha. Principalmente pela área de Saúde”, disparou.
Esta não é a primeira vez que os cargos comissionados da prefeitura de Barra do Piraí entram em campo para defender Mário Esteves. Vale destacar que na terça, 19, alguns vereadores chegaram a denunciar que vários CCs estiveram na Câmara quando da aprovação ou não do pedido de abertura de um processo de impeachment contra Esteves, proposto pela vereadora Kátia Miki, que é de oposição.
No seu discurso pró- impeachment, Kátia Miki reclamou da postura dos presentes, que a acusaram de ser oportunista. “É triste ver homens e mulheres, cargos comissionados da prefeitura, virem até a Câmara, a mando do prefeito, para insultar uma mulher”, completou. O impeachment não foi aprovado, mas para – digamos – não parecer que a Câmara aprovou a fala do prefeito, foi aprovada uma Moção de Repúdio pela declaração sobre ‘cas trar mulheres’. A moção também foi proposta por Kátia Miki e, dessa vez, acabou aprovada por unanimidade. Detalhe: o efeito prático da moção é nenhum.
Expulso do partido
Se por um lado Mário Esteves conseguiu se manter no cargo graças aos seus aliados, por outro acabou expulso do seu partido, o Solidariedade, que se fundiu com o Pros, legenda de filiação do prefeito. Ele foi expulso a mando do deputado federal Áureo Ribeiro, presidente estadual do partido que, em nota publicada nas redes sociais, destacou que havia decidido pela imediata expulsão de Mário de seu quadro partidário. “Nosso partido tem em seus valores basilares a defesa dos direitos das mulheres, a promoção da equidade de gênero e a luta incessante contra qualquer forma de discriminação”, disse o presidente do Solidariedade, destacando que a legenda segue firme no compromisso de construir políticas públicas inclusivas e de conscientizar a sociedade da importância de se respeitar e valorizar as mulheres em todas as instâncias de poder.
Vale destacar que Mário Esteves não poderá ser candidato em 2024, quando chegará ao fim seu segundo mandato consecutivo. Com isso, deverá lançar algum político aliado para sucedê-lo. O vice-prefeito, João Camerano, era um dos nomes mais fortes, mas, após o imbróglio em que o prefeito se meteu, a relação dos dois teria ficado estremecida. “Registro a minha indignação pela declaração do prefeito de nossa cidade. Todo meu respeito às mulheres”, postou João Camerano nas redes sociais.
Uma das opções de Esteves seria, inclusive, apoiar um candidato de fora, sem vínculos com a cidade. Apostaria tudo no seu próprio cacife para eleger até um poste. “O Mário Esteves tem tido dificuldade de encontrar um nome para a sua sucessão e agora está mais enfraquecido. Fala-se que ele poderia apoiar um candidato de fora, um político de direita, ligado ao Bolsonaro. Mas a cidade não tende a acolher tão fácil isso. A situação do Mário não é boa”, analisou um político local – que pediu para não ser identificado – a pedido do aQui.
Esta também foi a avaliação de Cristiano Almeida, ex-vereador e pré-candidato a prefeito em 2024. “Politicamente falando, ele está em seu segundo mandato e chegando ao final muito machucado. Há muitas críticas à condução da prefeitura. Ele fez muitos empréstimos para tirar obras do papel e dizer que foi o prefeito que mais fez obras. Mas a que custo? Ao custo de endividar a cidade pelos próximos anos pegando empréstimos”, disse, ressaltando que a situação do prefeito – e de seu grupo político – piorou muito após a declaração sobre ‘castrar mulheres’.
“Eu vejo que depois desse caso a sucessão dele fica ainda mais difícil para seu grupo político. Até o vice-prefeito repudiou sua fala. A repercussão do caso foi muito ruim para ele, em âmbito nacional. Isso vai prejudicar muito como a cidade o enxerga”, analisou. “Eu tive asco quando vi o vídeo e digo que, como político, me senti envergonhado. É uma fala que muitas vezes os homens não sentem. Mas ele ofendeu todas as mulheres de uma forma asquerosa. Não cabe mais na política e na sociedade pessoas que segregam, preconceituosas. É triste”, completou Cristiano Almeida.

