Cenário de guerra

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Fuzis, invasões, tiros, gritaria, ônibus queimado… Volta Redonda vive semana inimaginável

Mateus Gusmão

Era madrugada de sábado, 24, para domingo, 25, quando moradores do Vila Brasília foram acordados por tiros e gritaria. O que se viu estava longe de ser uma ocorrência comum. Dezenas de homens fortemente armados haviam tomado as ruas da comunidade. Segundo informações das autoridades, seriam integrantes do Comando Vermelho (CV), a principal facção criminosa do Rio de Janeiro, e estavam querendo tomar os pontos de venda de drogas dominados pelo grupo rival, o Terceiro Comando Puro (TCP), em todo o Complexo do Vila Brasília.

Assim que a invasão começou, vídeos passaram a tomar conta das redes sociais, mostrando os homens armados com fuzis circulando pelas ruas. Nos confrontos entre as facções rivais, duas pessoas morreram e ainda não foram, oficialmente, reconhecidas. O clima entre os moradores era de pânico. Para agravar a situação, domingo, 25, era dia do segundo turno das eleições presidenciais. Enquanto eleitores se preparavam para ir às urnas e PMs cuidavam da segurança do processo eleitoral, os moradores da comunidade estavam com medo de sair de casa para votar. Durante o dia, um ônibus da Viação Elite foi incendiado na Rua Waldir Sobreira Pires, principal acesso ao Vila Brasília. Um carro também teria sido incendiado. 

As cenas vistas pela população seriam, até pouco tempo atrás, inimagináveis para os volta-redondenses. Vídeos, áudios e fotografias se espalharam como fogo em mato pelo WhatsApp. As fake news também. Além da violência, outro fator aumentou a apreensão: o silêncio das autoridades policiais nas primeiras horas da crise. Com os boatos, os confrontos e diante da repercussão dos acontecimentos, o prefeito Neto informou que havia acionado o Comando-Geral da Polícia Militar. A mobilização abriria caminho para a chegada do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) a Volta Redonda.

Primeiras operações

O clima de tensão seguiu durante o domingo, 25. Mais de 40 PMs iniciaram a ocupação do Complexo do Vila Brasília, abrangendo também comunidades próximas, como Belo Horizonte e Coqueiros. Em comunicado oficial, a Prefeitura de Volta Redonda informou que a ocupação seria permanente, por tempo indeterminado. Detalhe: a própria comunicação oficial do Palácio 17 de Julho mencionou dificuldades operacionais relacionadas ao período eleitoral, que teriam afetado a mobilização das equipes.

Já na segunda, 26, um dia após a invasão ao Vila Brasília, Volta Redonda amanheceu sob clima de insegurança. Oito escolas da rede municipal suspenderam as aulas durante o turno da manhã. A medida foi adotada para preservar a segurança de alunos, professores e funcionários. Enquanto isso, as forças policiais intensificaram as ações na região, com o objetivo de conter a disputa territorial e impedir novos episódios de violência. Nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp, vídeos, áudios, relatos e muitos boatos continuavam circulando, aumentando a apreensão dos moradores.

A crise continuou repercutindo. Além da tensão na região do Vila Brasília, alguns episódios de violência foram registrados em outros bairros; entre eles, Água Limpa. Caíque de Oliveira Alves, de 29 anos, foi morto a tiros na Rua José do Patrocínio, enquanto estava em uma motocicleta Honda Fan 160 azul. A vítima teria parado a motocicleta diante de outro rapaz quando os criminosos chegaram e começaram a atirar. 

Mesmo depois de Caíque cair, os bandidos continuaram atirando. Um deles ainda retornou para atirar mais uma vez antes de fugir. Foram mais de 40 disparos. O assassinato chamou ainda mais atenção porque ocorreu menos de 48 horas depois de outro homicídio registrado no mesmo bairro. Na madrugada de domingo, 25, Cauã de Souza Paes, 22, também havia sido morto a tiros.

Ainda na terça-feira, PMs entraram no condomínio Ingá 2, no bairro Santa Cruz, culminando na apreensão de um adolescente de 17 anos. O jovem foi apontado como suspeito de auxiliar no recrutamento de criminosos que participaram da invasão ao Vila Brasília. Entretanto, a própria Polícia Militar não confirmou essa informação. Durante a ação, foram apreendidas duas pistolas e um acessório conhecido como quebra-chamas, utilizado para reduzir o clarão produzido pelo disparo de uma arma.

Já na noite de terça, 27, novos episódios de violência foram registrados na região conhecida como Posse, no Núcleo Tancredo Neves, que separa os bairros São Geraldo e Monte Castelo. Criminosos que seriam ligados ao CV e ao TCP voltaram a entrar em confronto pela disputa territorial. Até granadas foram utilizadas e, após os disparos, o Bope realizou uma operação no local.

Enquanto a Cidade do Aço tentava entender a dimensão da invasão, outra mudança chamou a atenção: a tenente-coronel Amanda Neves Ferreira deixou o comando do 28º Batalhão de Polícia Militar. Para substituí-la, foi anunciado o nome do tenente-coronel Décio Keiji Takamine, que assumiria oficialmente o Batalhão do Aço no dia seguinte.

Suspeita de facilitação por policiais

A crise na segurança pública em Volta Redonda se estendeu por toda a semana. Na quarta, aconteceu um dos episódios mais graves até então. A Prefeitura de Volta Redonda denunciou à Corregedoria da Polícia Militar a possível participação de agentes do 28o BPM na invasão ao Vila Brasília. Imagens do sistema de monitoramento municipal (enfim, apareceram!) mostraram duas viaturas da PM supostamente abrindo caminho para um comboio de veículos (oito) que seriam utilizados pelos criminosos durante o ataque de domingo.

A suspeita levantada é de que os PMs possam ter facilitado a movimentação do grupo que invadiu a comunidade. As gravações de vídeo e as imagens das câmeras corporais dos agentes passaram a integrar a investigação, conduzida pela 5ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar (DPJM). Como medida inicial, seis policiais que integravam as duas viaturas investigadas foram transferidos. Em nota oficial, o Palácio 17 de Julho cobrou rigor na apuração e a responsabilização de eventuais envolvidos.

No mesmo dia, Volta Redonda recebeu o reforço de pelo menos 16 PMs em quatro viaturas, enviados da capital fluminense. O reforço foi anunciado após articulação do prefeito Neto com o 5º Comando de Policiamento de Área (CPA). O objetivo era manter a ocupação policial no Complexo do Vila Brasília e ampliar o patrulhamento em outros bairros. Na mesma data, o tenente-coronel Décio Keiji Takamine assumiu oficialmente o comando do 28º BPM. À noite, recebeu os vereadores para um bate-papo (ver reportagem na página 11).

Prisões e apreensões

A quinta, 29, foi marcada pela divulgação dos ‘resultados’ das ações policiais realizadas desde o domingo, 25. Um dos principais desdobramentos foi a prisão de um homem de 30 anos, apontado pela Polícia Civil como liderança do tráfico no Água Limpa e suspeito de participação tanto no assassinato de Cauã, de 22 anos, quanto na invasão ao Complexo Vila Brasília. A investigação também levou à identificação de dois veículos que teriam sido utilizados pelos criminosos durante a invasão e em outros episódios de violência registrados na cidade.

Tem mais. Saiu o primeiro balanço parcial das operações integradas. Segundo a Prefeitura, até então, três suspeitos haviam sido presos e mais de 10 pessoas tinham sido identificadas por possível participação nos ataques. Muito pouco, por sinal. O levantamento contabilizou ainda a apreensão de cinco pistolas, quatro granadas, um fuzil calibre 7,62, dois revólveres, 150 munições, mais de 1,6 mil unidades de drogas, quatro rádios-transmissores e quatro veículos – três carros e uma motocicleta. As ações haviam alcançado 11 bairros.

Mas os confrontos continuaram. A Creche Municipal Irmã Zilá, no Belmonte, teve que suspender as aulas após um tiroteio na região.

Operações continuam

Com o feriado pelo Dia do Servidor Público transferido para ontem, sexta, 30, e sem novos episódios de grande repercussão nas últimas horas, Volta Redonda começa a dar sinais da retomada da normalidade. Mas a sensação de insegurança continua. E perguntas importantes precisam ser respondidas: a ocupação policial será permanente? Serão divulgados os resultados sobre a possível participação de agentes da PM? E, principalmente, a cidade conseguirá impedir que a disputa entre facções avance para outras comunidades?