quinta-feira, julho 18, 2024
CasaEditoriasBarra MansaCasos de superação

Casos de superação

Moradores contam como conseguiram enfrentar vícios e sair da vida nas ruas

Cada pessoa em situação de rua, seja onde for, tem uma história para contar. Pode ser dos motivos que a levaram a sair de casa. De livre e espontânea vontade ou não. A verdade é que nas ruas elas vivem em uma realidade de incertezas, em ambientes hostis e, na maioria das vezes, consumindo drogas. São encaradas até com olhares de desprezo e preconceito. São invisíveis, como se fossem criaturas sem nome e sem sentimentos. A sorte é que alguns encontram saída.
Em Barra Mansa, um exemplo de determinação para mudar esse quadro é o de Carlos Magno de Lima, hoje com 27 anos. Ele conhece a realidade difícil das drogas desde pequeno, já que sua mãe é dependente química há anos, o que fez com que ele fosse criado pelos avós. “Eu via minha mãe tendo muita briga com meus avós em casa e ficava triste com essa situação”, contou, lembrando que, com o passar dos anos, rebelde e usando álcool e outras drogas, ele mesmo passou a ser o causador dos conflitos dentro de casa. “Eu morava com meu avô no Roberto Silveira, mas nós tínhamos muitas brigas, porque eu ficava muito na rua. Quando eu era usuário, recebia meu salário na sexta-feira e ele ia embora em um dia. Eu passava o sábado e o domingo com fome. Depois de uma briga em casa, eu quis sair de lá, porque não estava mais me sentindo bem ali”, revelou, garantindo que não conhecia o serviço oferecido pelo Centro Pop da secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos (SMASDH) de Barra Mansa. “Um amigo de rua me falou, e eu vim conhecer. Depois de uma semana, eles me indicaram o Lar de Jesus, onde eu fiquei três semanas. Daí eu comecei a ficar no local, porque não queria mais viver na rua”, confessa.
Carlos Magno conta que, graças à indicação do Centro Pop, conseguiu trabalho em uma obra, onde ficou até o serviço ser concluído. “Dali, eu consegui uma casa para ficar. Já tem dois anos desde que saí da rua. Hoje estou trabalhando com serviço de capina, o Centro Pop que me indicou”, disse, indo além. Voltou a estudar – está cursando a Educação de Jovens e Adultos (EJA), no Ciep do bairro Bom Pastor. “Hoje eu me ocupo muito. Acordo cedo para o trabalho, à noite vou para o colégio, janto lá e volto para casa. Já tem mais de um mês essa rotina. Estou terminando o colégio para conseguir um emprego melhor. O Centro Pop me ajudou a abrir a mente, são pessoas acolhedoras. Aprendi que nós precisamos nos ajudar, porque sozinhos não somos nada”, comentou. Sobre a mãe, hoje com 48 anos, Carlos Magno diz que a chamou para morar com ele. “Ela ainda é usuária. O quarto é pequeno, mas ela pode ficar comigo. Só não quero que ela faça uso de drogas e bebidas. Ela está mudando, mas de vez em quando tem algumas recaídas. Eu sempre dou apoio, porque agora somos só eu e ela. Estou fazendo de tudo pra ter um serviço bem melhor e colocá-la pra morar num lugar melhor”. Atualmente, Carlos Magno mora em uma casa alugada no Centro e presta serviços de limpeza no local, conseguindo um desconto na mensalidade. “Eu me motivo todo dia. Estou frequentando uma igreja. Não tenho religião, mas vou aonde me sinto mais perto de Jesus”, concluiu o morador.

Deixando o álcool
Outro que viveu em situação de rua e recebeu apoio da Assistência Social de Barra Mansa foi João Carlos da Silva Tavares, 61 anos, morador do bairro Boa Vista. Ele trabalhava em uma oficina mecânica e tinha o hábito de beber apenas socialmente, mas, após um divórcio, passou a extrapolar na dose, até perder o controle. “Meu café da manhã era uma dose de pinga. Eu fiquei morando dois anos de favor no porão da oficina onde eu trabalhava, mas depois o dono precisou do imóvel. Aí fui dormir em um posto de gasolina perto de onde eu morava, e um senhor também me cedeu espaço em uma garagem. A comunidade me ajudava, mas a vida na rua não é fácil”, sentenciou.
Durante esse período, João Carlos passou a ter problemas de fígado, o que fez com que ele fosse acolhido pelo Abrigo Municipal, que na época ficava no Santa Rosa, recebendo atendimento médico. “Quando menos esperava, eu fui para o Abrigo. Fiquei 15 dias no isolamento, não comia direito, tinha suspeita de tuberculose. Isso foi em 2020, na época da Covid. Tive que ir com urgência para cirurgia na Santa Casa, por causa do fígado. Eu disse que queria sair daquela vida, não estava aguentando mais. Fui muito bem cuidado. Eles abraçaram minha causa”, revela, satisfeito. No Abrigo Municipal, João diz que passou a receber o Benefício de Prestação Continuada (BPC), o que lhe permitiu juntar dinheiro para construir uma casa. “Graças a Deus, consegui meu benefício, não voltei mais pra bebida e hoje sinto até pavor de bebida, o cheiro me dá ânsia de vômito”, confessou. “Minha rotina é ir ao médico, bater um papo com os amigos e sair para tomar um refrigerante. Agora quero parar o vício do tabagismo. Antes eu fumava um maço de cigarros por dia, mas agora um maço dá pra três dias. Sou muito grato ao pessoal do Abrigo. Que eu sirva de exemplo. Desejo a todos que estejam passando pelo que vivi que lutem para conseguir sair do vício e dar a volta por cima, como eu dei, graças a Deus. O que eu não quero pra mim eu não quero para os outros”, argu- menta, certo do que fala.

Atendimentos
O Centro Pop de Barra Mansa promove atividades diárias para pessoas em situação de rua, tanto em grupo quanto individuais. As ações incluem conversas, higiene pessoal, alimentação e oficinas. “Embora a maioria das ações sejam grupais, existem ações individualizadas, que são os atendimentos psicossociais e os encaminhamentos para que sejam monitorados em outros setores, como de saúde, por exemplo”, informou o gerente de Proteção Social Especial da secretaria de Assistência Social, Alexandre Martins Monteiro.

ARTIGOS RELACIONADOS

LEIA MAIS

Seja bem vindo!
Enviar via WhatsApp