Armas de gel ganham espaço na periferia, e autoridades tentam evitar que crianças se machuquem de verdade

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Por Vinícius de Oliveira

O uso de réplicas de armas de brinquedo, como as chamadas gel blasters, que disparam projéteis de gel, já é uma prática recorrente em bairros periféricos da capital há pelo menos três meses. Vendidas em média por R$ 200, elas começam a ganhar adeptos na periferia de Volta Redonda e Barra Mansa. Por lei, só deveriam ser vendidas a maiores de 18 anos. Mas não é isso o que acontece… Nas feiras livres são vendidas como inofensivos brinquedos. Os vídeos que circulam nas redes sociais mostram que o estilo é semelhante em todos os cantos: jovens de capuzes e roupas escuras simulam confrontos armados em ruas pouco iluminadas, geralmente em áreas marcadas por conflitos reais, o que aumenta os riscos de serem confundidos com criminosos. Inspirados em jogos de videogame e no cotidiano marcado pela violência, os adolescentes transformam o que seria uma brincadeira em uma atividade potencialmente perigosa.
A situação se agrava quando envolve a negritude periférica. Dados do Atlas da Violência indicam que, em 2021, 79% de todas as vítimas de homicídios no Brasil eram negras. Jovens negros, especialmente os que vivem nas periferias, carregam um estigma que os torna alvos em potencial. Ao portar réplicas de armas de fogo e aderindo à “estética do tráfico”, as chances de serem confundidos com criminosos aumentam c o n s i d e r a v e l m e n t e , potencializando o risco de tragédias. As forças de segurança já estão em alerta. O aviso foi dado pelo secretário de Ordem Pública de Volta Redonda, coronel Luiz Henrique. Ele e o coronel do 28º Batalhão, Moisés Pinheiro Sadenberg, ordenaram que a Guarda Municipal e a Polícia Militar redobrem a atenção, principalmente nos bairros da periferia. “Essas brincadeiras têm se desenvolvido nas áreas periféricas, que já são alvo de atenção da segurança pública. A combinação das réplicas de armas com roupas que remetem à estética do tráfico, somada ao ambiente noturno, traz um risco enorme de que sejam confundidos com criminosos reais, tanto por moradores quanto pelas forças policiais. Uma tragédia pode acontecer a qualquer momento”, enfatizou Luiz Henrique, citando um incidente da semana passada no Volta Grande, região que pertence ao complexo Santo Agostinho. Na ocasião, jovens, majoritariamente negros, foram flagrados simulando tiroteios com as réplicas de gel na praça conhecida como ZL, local já marcado pela execução de um adolescente no ano passado. A polícia foi acionada por moradores, e dois PMs cuidaram do caso. Conforme um vídeo que circulou em grupos de WhatsApp ao qual o aQui teve acesso, um dos policiais chegou a endurecer o tom para convencer os envolvidos a abandonar a prática. “A Guarda Policial já tá vindo com a p* do ônibus. Quem tem réu primário vai perder agora. E quem não tem sabe que tá agarrado. Os maiores podem se enquadrar em corrupção de menor”, repreendeu o agente, que finalizou a abordagem sem violência.

Sorte
Em Barra Mansa, episódios semelhantes também já ganharam notoriedade. Um morador da Vila Maria relatou ter presenciado o encontro entre dois grupos “rivais” que pareciam querer decidir suas diferenças na bala de gel. Até que ponto estavam brincando, não se sabe. Pior: o ‘confronto’ começou perto de uma escolinha de futsal. “Eu estava indo buscar meu filho quando vi um [Renault] Kwid branco descendo a rua em alta velocidade. Quando chegou numa esquina próxima à escolinha, cantou o pneu e fez um barulhão. De dentro dele saiu um monte de gente. Todos armados com essas réplicas de gel. Foi assustador, sabe? Eles estão marcando ponto de encontro, pois neste lugar já tinha outro grupo escondido atrás de outro carro”, contou o morador, impressionado com a violência simbólica presente nos atos. Secretário de Ordem Pública, o capitão Daniel Abreu destaca o risco de quem brinca e ainda de quem está por perto. “Entendo que tem que ter um cuidado por parte dos responsáveis, pois o que consideram uma brincadeira saiu do controle e está colocando tanto quem pratica em risco quanto quem está em volta, seja por hoje estarem utilizando equipamentos fora das normas técnicas, alguns alterando as armas parecendo simulacros e alterando a munição congelando, o que causa mais lesões”, avaliou.
Abreu vai além. “Outro fator é o risco de as pessoas utilizando esses simulacros serem confundidos pelos agentes de segurança e acabarem causando um incidente grave. Os praticantes maiores ou os responsáveis dos menores têm que refletir sobre o tema, além disso, estamos analisando uma forma de ter um espaço próprio para uma brincadeira utilizando equipamentos de proteção individual e armas de gel atualizadas pelos órgãos reguladores, para garantir a segurança de todos”. As gel blasters já começam a invadir as escolas de maneiras diferentes. Há relatos de jovens posicionados embaixo das janelas das unidades escolares, atirando para dentro das salas de aula. Esse fato também foi registrado no Santo Agostinho. Contudo, o caso mais emblemático ocorreu no Colégio Getúlio Vargas, no Laranjal. Na semana passada, dois alunos levaram para dentro da escola suas armas de plástico, e a Patrulha Escolar foi acionada para recolher os objetos.
Diante da repercussão estadual, a questão das armas de gel ganhou uma dimensão legislativa. A apreensão delas tem sido fundamentada pelo artigo 15 do Estatuto do Desarmamento, que proíbe a comercialização de objetos que possam ser confundidos com armas de fogo. No entanto, as brechas na legislação levaram a deputada estadual Tia Ju (Republicanos) a propor uma emenda à lei da deputada Marta Rocha (PDT), que trata da regulamentação de réplicas. A emenda busca endurecer a fiscalização e proibir a circulação dessas armas em locais públicos.
Ela também reforça a necessidade de certificação e fiscalização no comércio desses produtos, algo frequentemente negligenciado. A ideia é evitar que esses objetos sejam usados de forma indevida e comprometam a segurança pública. De acordo com o delegado de Volta Redonda, Vinícius Coutinho, a polícia está empenhada em coibir o uso indevido das réplicas e avaliará caso a caso a presença de crimes relacionados, como contrabando ou infrações contra as relações de consumo. “Ainda estamos compreendendo essa situação, que é um evento novo. Em muitos casos, foge do alcance criminal da nossa atuação, mas vamos colaborar na medida do possível para tentar conter o avanço desses problemas, que podem gerar impacto na ordem pública da cidade. Vamos avaliar caso a caso”, afirmou.

A pedagoga e supervisora educacional Gabriella Lázaro Aparecida faz um alerta para os danos causados por brinquedos que simulam armas no desenvolvimento cognitivo e social de crianças. “A entrega de réplicas de armas para crianças representa mais do que uma simples brincadeira; ela reforça uma relação simbólica com a violência que pode ter impactos profundos no desenvolvimento cognitivo e emocional dos jovens. Durante a infância, o cérebro está em formação e extremamente suscetível a influências externas. Ao introduzi-las a brinquedos que simulam armas, não só naturalizamos a violência como forma de interação, mas também enviamos uma mensagem implícita de que a agressividade pode ser um meio de resolução de conflitos ou até mesmo de diversão”, avaliou a educadora. Gabriela destaca ainda que o momento da brincadeira é crucial para moldar as relações interpessoais e a percepção de mundo. “Quando o foco da brincadeira está em atividades que romantizam ou simulam confrontos violentos, o aprendizado se dá em torno da competitividade, do domínio sobre o outro e da falta de empatia – valores que estão na contramão do que buscamos ensinar em uma sociedade que almeja convivência pacífica. Dar armas – mesmo de brinquedo – às crianças é um retrocesso que ignora o papel da educação e da família na construção de valores que promovam uma convivência saudável. Precisamos repensar a mensagem que queremos passar às nossas crianças e plantar as sementes de um futuro menos violento”.