A quem interessar

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Reportagem do aQui sobre acidente na CSN vira fonte de pesquisa para vídeo de historiadora

Pollyanna Xavier

No jornalismo, há uma máxima segundo a qual uma reportagem não termina necessariamente quando é publicada. Pode atravessar o tempo, reencontrar personagens, ganhar novos leitores e contar histórias por outros caminhos. Foi o que aconteceu com uma matéria que escrevi há quatro anos sobre o mais grave acidente já ocorrido na CSN. Sem que eu soubesse, o texto se tornou fonte de pesquisa para uma historiadora, que contou a história em suas redes sociais. A descoberta foi por acaso. Enquanto navegava pelo Instagram, me deparei com um vídeo de Vanessa da Silva sobre um episódio que eu havia ajudado a reconstruir. Da coincidência, nasceu uma nova entrevista. 

Vanessa é dona do canal ‘A quem interessar’, que conta histórias reais de fatos que marcaram pessoas, cidades e épocas. Mineira de Ouro Fino, morando no interior de São Paulo, ela nunca esteve em Volta Redonda. Nem tem amigos na cidade. A ideia de recontar o acidente ocorrido na CSN, em 1962, quando uma panela com 70 toneladas de ferro-gusa despencou de uma ponte rolante, atingindo cerca de 50 trabalhadores no chão da Aciaria, partiu de um internauta. “Ele sugeriu e eu fui pesquisar o assunto. É impressionante como quase não tem registro daquele fato, mas eu acabei encontrando a reportagem do aQui e, com base nela, fiz o vídeo”, contou.

Formada em Redes de Computadores, Vanessa é historiadora em formação. Na pandemia, resolveu unir a primeira profissão à paixão pela História e acabou criando o canal. A ideia começou com um livro de curiosidades, que reunia uma coletânea com mais de 50 fatos históricos. Vanessa achou que, gravando vários vídeos para contar cada um daqueles fatos, conseguiria produzir um registro capaz de preservar a memória dos acontecimentos. Ela estava certa. Os vídeos foram bem aceitos, e o canal cresceu: hoje, tem mais de 12 mil inscritos. Atualmente, posta um vídeo por semana, mas o acervo do canal já conta com mais de 400 produções. 

O trabalho de Vanessa tem semelhanças com o nosso. Ela escolhe o tema, pesquisa, busca fontes, reúne informações e cria uma cronologia dos fatos para produzir o vídeo. No Instagram, o conteúdo é rápido, dura em média 30 segundos, mas, no Youtube, o vídeo é completo, podendo durar mais que 10 minutos, dependendo da riqueza de detalhes. “Quando eu começo a pesquisar, me conecto com novas histórias e o repertório acaba aumentando. Eu busco, investigo, faço um verdadeiro garimpo”, contou. 

A história de Volta Redonda foi pedida por um seguidor que mora na cidade. A princípio, Vanessa achou interessante. Mas ao buscar informações, estranhou a escassez de registros sobre o acidente. “Encontrei dois únicos registros: o jornal A Noite, que inclusive você cita na sua matéria, e a sua própria reportagem, publicada pelo aQui. Eu dei os créditos, mas jamais imaginaria que meu vídeo pudesse aparecer para você enquanto você navegava pelo Instagram. Foi uma surpresa enorme quando vi seu comentário no meu vídeo”, relatou Vanessa. De fato, ao assistir ao vídeo, deixei uma mensagem me identificando. 

Questionada se as redes sociais ajudam as pessoas a se interessarem mais por História ou se estão fazendo com que elas consumam versões cada vez mais simplificadas do passado, Vanessa é assertiva: “Eu acho que os historiadores precisam estar nas redes. A internet é uma ferramenta que precisa ser usada para recontar a História e até fazer História. Não dá para deixar só nos livros ou nos museus. Nem todo mundo lê, mas muita gente acessa a internet. Então levar o registro dos livros para a internet é continuar a contar a História. Já recebi mensagens de seguidores que quiseram ler um livro a partir do conteúdo de um vídeo. Isso é muito legal”, comemora.  

Apesar do caráter educativo e informativo, o canal de Vanessa não produz conteúdos voltados especificamente para vestibulandos. “Eu gosto de recontar a história e não escolho os conteúdos de maneira aleatória. Não. Eles precisam me atravessar de alguma maneira. O caso de Volta Redonda é interessante, porque aquele acidente ainda diz muito sobre a empresa. Depois de fazer o vídeo, eu pesquisei sobre a CSN e como ela está hoje, quase 65 anos depois do acidente na Aciaria. E eu percebi que ainda acontecem muitas coisas aí, que poderiam ser contadas também. Para mim, significa que os aprendizados do passado não serviram de lição para o presente. Ainda morrem trabalhadores dentro da CSN”, lamentou. 

Para Vanessa, a História não é apenas um registro do passado. Muito menos, entretenimento ou mero conteúdo digital. Ela é aprendizado, reflexão e deveria contribuir para mudanças futuras. “Histórias como a do acidente na CSN precisam ser contadas e recontadas para as gerações futuras. Muitos comentários no vídeo são de pessoas de Volta Redonda que não sabiam desse acidente. Gente que trabalha dentro da usina e que não sabia disso”, relatou. O vídeo de Vanessa já passava de mais de 25 mil visualizações poucos dias após a publicação. “Foi um dos vídeos mais assistidos, comentados e compartilhados”, comemorou. 

Além do canal no Instagram, Vanessa também mantém contas no YouTube, Facebook e no Tik-Tok. Em todas as plataformas o nome é o mesmo: ‘A quem interessar’. E interessa, afinal, Vanessa produz conteúdo de qualidade, com boa comunicação e agilidade. 

Acidente

Foi no dia 27 de janeiro de 1962, quando uma panela (de aço) com 70 toneladas de ferro-gusa, a 1.200 graus, se soltou de uma ponte rolante atingindo cerca de 50 metalúrgicos que trabalhavam no chão da Aciaria. Dezesseis operários tiveram morte imediata, quatro foram socorridos gravemente e morreram poucos dias depois, e o restante ficou sequelado: perdeu dedos das mãos, partes das orelhas, do couro cabeludo, ou sofreu queimaduras tão violentas que lhes deformaram o rosto. 

O acidente, tido como um dos mais graves da história da CSN, completou 64 anos em janeiro de 2026 e foi contado por um sobrevivente: o metalúrgico aposentado Clóvis Gonçalves. Ele concedeu entrevista ao aQui em 2022, quando o acidente completou 60 anos. Clóvis morreu no ano seguinte, 2023. Sobre a reportagem, vale a pena ler e conhecer o fato. Pelo aQui, o link é (https://jornalaqui.com/chuva-de-ferro-derretido/) e pelo canal de Vanessa Silva, o acesso é pelo link:

https://www.youtube.com/@AQuemInteressarAQI).