quarta-feira, maio 25, 2022

Sem saias

Volta Redonda continua com pouca representatividade feminina na política; partidos burlam regra de candidaturas mínimas

Mateus Gusmão

Na terça, 8 de março, será celebrado o Dia Internacional da Mulher, uma data sempre marcada por discussões sobre igualdade de gênero e protestos. Instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1975, em alusão às operárias que lutavam por melhores condições de trabalho. Mais de 45 anos depois, muita coisa mudou no mundo. Mas uma segue sendo um grande calcanhar de Aquiles: a pequena – ou quase nula – representatividade política feminina no Brasil.
Um dos exemplos disso acontece em Volta Redonda. A cidade, que tem 21 vereadores, hoje não conta no Parlamento sequer com uma mulher. A Comissão Permanente de Políticas para Mulheres, vejam só, é ocupada por três homens. Tem mais. A última vez em que a cidade do aço elegeu uma mulher deputada foi em 2006, quando Cida Diogo se elegeu para a Câmara Federal.
Para demonstrar que a política local é majoritariamente masculina, o aQui fez um levantamento dos 40 candidatos a vereador mais votados nas eleições de 2020. O resultado é assustador. Dos 40, apenas duas eram mulheres: a ex-vereadora América Tereza (1.259 votos) e a líder comunitária Quênia Fernanda (952 votos). Tereza, aliás, é a única mulher que já foi prefeita de Volta Redonda. Por três dias, é bom que se ressalte. Mas ela assumiu o Palácio 17 de Julho em 2015, quando o prefeito Neto foi cassado pela Justiça Eleitoral, fato que ele reverteu em poucos dias.
Por falar em Tereza (ver foto), ela acaba de ser nomeada secretária de Comunicação de Barra do Piraí, mesmo não sendo jornalista. Para chegar lá, Tereza foi cinco vezes vereadora, foi secretária de Direitos Humanos de Volta Redonda, presidente da Fundação Para Infância de Adolescência do Governo do Estado e ‘subprefeita do Distrito da Califórnia’, em Barra do Piraí, mesmo não tendo sido eleita. “Eu iniciei a caminhada na política há muitos anos e as coisas foram evoluindo. Como aceito desafios, sempre lutei e fui buscar meu espaço”, justificou.
Para a ex-vereadora, que chegou a ser candidata a prefeita em 2016, é preciso encorajar mais as mulheres a entrarem na política para diminuir o preconceito de que o espaço é masculino. “As mulheres precisam ter coragem. A política muitas vezes amedronta, mas nós temos que encarar”, destacou. “Nós nunca tivemos na Câmara de Vereadores uma representatividade grande feminina. Isso é muito ruim”, completou.
Mas, para Tereza, chega a ser natural que o Parlamento seja predominantemente masculino. “É que a grande maioria disputando as eleições é formada por homens. Hoje há uma lei de que 30% dos candidatos a uma eleição precisam ser mulheres, mas é difícil preencher essas vagas. Às vezes são candidatas que estão só para completar número. O que a gente precisa é que as mulheres disputem mesmo a eleição”, disse, ressaltando que ainda há também preconceito em muitas famílias, que não encorajam as mulheres a disputarem o pleito.
“Eu nunca sofri preconceito durante meus mandatos como vereadora ou como secretária. Eu sempre me posicionei e quis ser ouvida. E há espaço para mais mulheres. Precisamos de propagandas, palestras e outros meios para encorajar mais mulheres”, afirmou. “Eu sinto muito não ter mais mulheres, até porque nós temos um olhar mais atento para as áreas sociais e isso ainda faz muita falta”, concluiu.

Candidaturas-fantasmas

O aQui também procurou um articulador político de Volta Redonda para falar sobre o tema. Como dá detalhes de como se monta uma chapa para candidaturas proporcionais (vereador e deputado), ele não será identificado. “Para aumentar a representatividade feminina, foi criada uma lei onde 30% da nominata (chapa) de candidatos de cada partido tem que ser de mulher. Em Volta Redonda, por exemplo, o partido pode ter 32 candidatos a vereador, então, desses, pelo menos 11 terão que ser mulheres”, disse.
Segundo ele, há uma dificuldade grande de encontrar mulheres que querem de fato ser candidatas. “A gente tem algumas mulheres que valem ouro na política, pois além de ajudar a cumprir a obrigação dos 30%, ainda trazem voto para o partido, caso da Tereza, Quênia Fernanda, Neuza Jordão, Rosana Bergone e Rose Vilela. Mas infelizmente, para completar a chapa de candidatos, precisamos inventar candidaturas de mulheres”, revelou.
A fonte explica como funciona a criação de candidaturas-fantasmas. “Já que não conseguimos muitas mulheres, a gente busca ‘inventar’ algumas candidatas apenas para cumprir os 30% obrigatórios. Isso funciona com você chamando uma prima, uma vizinha, a assessora de algum político, para ser candidata, mesmo sabendo que ela não tem chance de ganhar. A candidata também sabe. A gente a registra como candidata, faz pouquíssimo material de campanha, e ela tem que ter pelo menos uns 30, 50 votos. Isso já garante que ela não seja identificada como uma candidata-fantasma pela Justiça Eleitoral”, crê.
Três partidos de Volta Redonda, segundo a fonte, estariam sofrendo investigações com supostas candidaturas femininas. O caso mais emblemático – que já foi tema de reportagem do aQui – envolve o PSC. O Ministério Público Eleitoral diz que existem irregularidades na candidatura da advogada Alexandra Fernandes. Ela, segundo o MPE, não teria se desincompatibilizado do cargo que ocupava na prefeitura de Volta Redonda para se candidatar. Se a Justiça Eleitoral entender que a candidatura foi fantasma, a chapa de candidatos do PSC corre o risco de ser considerada irregular. Com isso, Fábio Buchecha, Lela, Rodrigo Furtado e Vair Duré podem ficar sem suas cadeiras na Câmara.

Candidaturas-fantasmas

O aQui também procurou um articulador político de Volta Redonda para falar sobre o tema. Como dá detalhes de como se monta uma chapa para candidaturas proporcionais (vereador e deputado), ele não será identificado. “Para aumentar a representatividade feminina, foi criada uma lei onde 30% da nominata (chapa) de candidatos de cada partido tem que ser de mulher. Em Volta Redonda, por exemplo, o partido pode ter 32 candidatos a vereador, então, desses, pelo menos 11 terão que ser mulheres”, disse.
Segundo ele, há uma dificuldade grande de encontrar mulheres que querem de fato ser candidatas. “A gente tem algumas mulheres que valem ouro na política, pois além de ajudar a cumprir a obrigação dos 30%, ainda trazem voto para o partido, caso da Tereza, Quênia Fernanda, Neuza Jordão, Rosana Bergone e Rose Vilela. Mas infelizmente, para completar a chapa de candidatos, precisamos inventar candidaturas de mulheres”, revelou.
A fonte explica como funciona a criação de candidaturas-fantasmas. “Já que não conseguimos muitas mulheres, a gente busca ‘inventar’ algumas candidatas apenas para cumprir os 30% obrigatórios. Isso funciona com você chamando uma prima, uma vizinha, a assessora de algum político, para ser candidata, mesmo sabendo que ela não tem chance de ganhar. A candidata também sabe. A gente a registra como candidata, faz pouquíssimo material de campanha, e ela tem que ter pelo menos uns 30, 50 votos. Isso já garante que ela não seja identificada como uma candidata-fantasma pela Justiça Eleitoral”, crê.
Três partidos de Volta Redonda, segundo a fonte, estariam sofrendo investigações com supostas candidaturas femininas. O caso mais emblemático – que já foi tema de reportagem do aQui – envolve o PSC. O Ministério Público Eleitoral diz que existem irregularidades na candidatura da advogada Alexandra Fernandes. Ela, segundo o MPE, não teria se desincompatibilizado do cargo que ocupava na prefeitura de Volta Redonda para se candidatar. Se a Justiça Eleitoral entender que a candidatura foi fantasma, a chapa de candidatos do PSC corre o risco de ser considerada irregular. Com isso, Fábio Buchecha, Lela, Rodrigo Furtado e Vair Duré podem ficar sem suas cadeiras na Câmara.

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