terça-feira, maio 24, 2022

Rabuda

Após quatro meses do retorno das aulas, Volta Redonda ainda enfrenta falta de professor nas escolas; e nem sinal de computadores

A secretária de Educação de Volta Redonda, Terezinha Gonçalves, a Tetê, tem um desafio pela frente: manter o aprendizado de 36 mil alunos que estiveram fora das escolas por quase dois anos em decorrência da Covid-19, somado ao fato que eles tiveram pouquíssimo acesso às aulas on-line em 2021. Pior. Como pôr fim ao drama – para os alunos – da falta de professores, um dos principais personagens na superação do desastre escolar?
Desde que as aulas presenciais retornaram, em setembro do ano passado, um número considerável de professores teria pedido demissão, desmotivado pelo baixíssimo salário e cobrança extenuante. “A maioria era de outras cidades, como o Rio de Janeiro. Quando estavam na pandemia, não precisavam vir a Volta Redonda dar aula. Faziam de casa. Mas quando as aulas voltaram, isso começou a não valer a pena. O salário é muito baixo e a cobrança, muito grande”, contou um professor de Educação Física, que pediu exoneração logo depois da retomada das aulas presenciais.
Desde então, Tetê tem encontrado dificuldade para suprir a carência dos professores, e os pais continuam à espera de um milagre. Estão cada vez mais vigilantes e prontos para reagir. Um destes encaminhou ao aQui um vídeo gravado por um aluno da Escola Juarez Antunes, no São Luiz. Nele, sem que se possa ver a presença de um adulto, meninos e meninas jogam bolas de papéis uns nos outros, há gritos e muita movimentação. “Recebi hoje o vídeo, que me deixou ainda mais preocupado com a situação de falta de professores no colégio Juarez Antunes onde meus filhos estudam. Não bastasse a confusão generalizada na sala, meu filho foi ameaçado por um dos colegas, pelo simples fato de ir procurar um responsável que desse jeito na situação”, criticou o pai de um aluno que estuda na escola.
Quando foi procurar a direção da unidade, o pai já sabia a resposta: não tinha professor! “A diretora já se adiantou, justificando a situação pela falta de profissionais na escola, tendo em vista a falta de professores e de uma funcionária que seria responsável pela disciplina e que está doente. Se fosse em outros tempos, eu não ficaria tão preocupado, porém, as brigas em escolas ficaram mais sérias, com crianças esfaqueando outras, como pudemos ver recentemente em São Paulo”, pontuou.
Segundo outra mãe, que mora no Santo Agostinho, a Escola Maria José Campos Costa – a maior entre as do primeiro ciclo do ensino fundamental de Volta Redonda – começou o ano letivo sem oito professores. “Teve rodízio na escola porque não tinha professor para todo mundo. Minha filha disse que a turma dela se juntava com outra turma e a professora era uma ‘tia da direção’”, confidenciou. “Hoje já chegaram professores, mas ainda está faltando pelo menos um”, relatou.
A secretaria de Educação não quis dizer a carência atual de professores, mas conforme o jornal apurou, a SME deve chamar 60 profissionais nas próximas semanas, além dos contatos que já voltaram a circular na rede. Resta saber se haverá interesse. “Neto se recusa a pagar o piso nacional salarial dos professores, o mínimo que devemos receber. Também se nega a reservar o tempo necessário para planejamento”, denunciou a carta do Sepe aos pais e responsáveis pelos alunos da rede municipal numa tentativa de convencê-los a apoiar um possível movimento grevista.
O problema é que o Sindicato dos Profissionais da Educação ainda não conseguiu mobilizar uma quantidade expressiva o suficiente para abalar as estruturas do Palácio 17 de Julho. Na semana passada, pouco mais de 50 educadores fizeram meia paralisação com panfletagem na feira do Retiro e ato na Câmara. Vale lembrar, no entanto, que mesmo com mais gente mobilizada, o Sindicato do Funcionalismo teria sido ignorado por Neto quando promoveu uma greve no início do ano e, se não fosse pela intervenção dos vereadores, os professores não teriam tido um reajuste de 10,18%, suficiente apenas para corrigir o salário mínimo. E mesmo assim os servidores terão de esperar até julho para começar a receber.
Cuidadores
Em Volta Redonda, professor não é a única espécie em risco de extinção. Cuidadores também pensam dez vezes antes de ingressar na rede. Fundamentais no processo de inclusão dos alunos com deficiência, esses profissionais simplesmente abandonam a função depois de alguns dias na escola ou sequer respondem a convocação da SME. “Já chamamos todos os cuidadores do concurso, ninguém quer ficar. Já estamos preparando um novo concurso”, anunciou Tetê.
Sem reajuste de salário e sentindo falta dos abonos oriundos de verbas represadas do Fundeb, os professores também reclamam os notebooks que receberiam, os Chromebook para os alunos e as TVs inteligentes para as salas de aula, promessas feitas por Neto e Tetê durante uma live em ocasião do Dia dos Professores, no ano passado. Nenhuma cumprida até hoje. “Burocracias da licitação. A primeira não deu certo. Tiveram que fazer tudo de novo. Pensaram até em desistir de comprar os computadores e dar o dinheiro aos professores como forma de auxílio-tecnológico, exatamente como fez o governo do Estado, mas nem isso deu certo”, afirmou uma fonte de dentro da secretaria, garantindo que pelo menos as TVs devem chegar até o mês de maio, assim como os Chromebook. “Já os notebooks realmente devem demorar mais tempo”, disparou.

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