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Câmeras de monitoramento não inibem crimes violentos

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Por Mateus Gusmão

A cidade mais vigiada da região. É dessa forma que a prefeitura de Volta Redonda e, principalmente, a Secretaria de Ordem Pública, estão alardeando o projeto ‘Cidade Monitorada’, que visa instalar centenas de câmeras de monitoramento pelos postes da cidade do aço para auxiliar – e melhorar – na segurança de quem vive no município. Diariamente, por exemplo, a Semop divulga imagens captadas pelas câmeras em suas redes sociais, priorizando as que envolvem acidentes de trânsito e casos de pequenos furtos, depredação de bens públicos etc.
Não há que se discutir se o ‘Cidade Monitorada’ é ou não um bom projeto. É. Suas mais de 700 câmeras já ajudaram a diminuir crimes nos centros comerciais, como roubos de lojas e furto de celulares. Até um caloteiro os ‘espiões da prefeitura’ já ajudaram a encontrar. Foi na semana passada, quando um homem abasteceu seu carro em um posto de combustível no Aterrado e saiu sem pagar. Só que uma das câmeras o flagrou e passou a segui-lo. Acabou preso e levado para a 93a DP. Detalhe: o próprio secretário de Ordem Pública, o poderoso tenente-coronel Luiz Henrique, oficial licenciado da PM, foi buscar o homem em sua residência.
Como nem tudo são flores, o projeto tem seus problemas. E não são poucos. Um bom exemplo é que, se por um lado as câmeras auxiliaram na diminuição
de crimes de pequenos portes, por outro lado os homicídios aumentaram na cidade do aço. E os dados são oficiais, do Instituto de Segurança Pública (ISP): foram 69 homicídios culposos de janeiro a dezembro de 2023. Quatro a mais que em 2022, quando a cidade conviveu com 65 casos de assassinatos. Importante: nenhum deles teria sido acompanhado ao vivo ou gravado pelas câmeras do ‘Cidade Monitorada’.
Pior. Na ‘cidade mais vigiada da região’, crimes violentos seguem acontecendo em plena luz do dia. Como o assassinato de terça, 23, na Rua Santa Teresa, em Niterói, via conhecida por abrigar muitas agências de veículos. Curiosidade: o crime foi cometido a apenas 200 metros da Secretaria de Educação. E bem perto, bem perto mesmo, do ‘Batalhão do Aço’ (28o BPM). Warlei Luis Gonzaga Machado, 38, foi executado com cerca de 30 disparos. Ele teria ligações com o tráfico de drogas. Até o momento do fechamento desta edição, nenhuma imagem das câmeras de monitoramento da prefeitura foi divulgada para ajudar a desvendar o homicídio. A que o aQui postou nas redes sociais foi publicada por algum internauta, não identificado. Pior. Nenhum envolvido foi preso.

Câmeras em áreas centrais
Oficialmente, a Secretaria de Ordem Pública diz que trabalha com mais de 700 câmeras espalhadas pela cidade do aço, localizadas ‘estrategicamente’ em ruas, praças e acessos às escolas. “Nada escapa das lentes”, garante o poderoso titular da pasta, afirmando ainda que a população pode acessar as câmeras em tempo real (apenas das 6 às 20 horas) através do app Free View (http:// a p p o r d e m publica.voltaredonda.rj.gov.br/ tixxi/freeview/). “Pode até parecer o Big Brother Brasil, mas estamos falando do projeto ‘Cidade Monitorada’”, completou, comparando, sem modéstia, o seu programa ao BBB da TV Globo.
Só que quem acessa o aplicativo do ‘Cidade Monitorada’ percebe que o discurso está bem diferente da realidade. Ao todo, aparecem para a população apenas 350 câmeras funcionando. Pior. A maioria, em áreas centrais da cidade, como Aterrado, Amaral Peixoto, Vila e Retiro. Localidades onde o domínio de criminosos é mais do que conhecido, por exemplo, ficam de fora. Nelas, ninguém vê nada. A região da Vila Brasília – Vale Verde, Verde Vale e Fazendinha – não tem sequer uma câmera de monitoramento. Morro da Conquista, no Santo Agostinho, também não, assim como Padre Josimo e outros.
O aQui bem que tentou descobrir se a Secretaria de Ordem Pública pretende expandir o ‘Cidade Monitorada’ para as áreas periféricas de Volta Redonda. Apesar do questionário ter sido enviado há mais de uma semana, não houve interesse da pasta em responder as perguntas enviadas pela reportagem. Tem mais. Outros questionamentos visavam esclarecer os motivos pelos quais as câmeras não inibiram assassinatos e, por outro lado, quantos homicídios foram elucidados com ajuda das imagens do projeto. O silêncio foi total!

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