O início, o fim e o meio do jeitinho brasileiro

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*Marco Brito Mioni

Você já deve ter se perguntado quando e onde surgiu o jeitinho brasileiro. Na verdade, isso nem importa mais. O fato é que o bendito jeitinho se enraizou em nossa comunidade, faz parte da sociedade brasileira e domina tanto em seu aspecto positivo de deixar a vida nos levar, resolvendo coisas no último minuto, como também em seu aspecto negativo, aproximando-se da incompetência em não fazer as coisas com perfeição e no tempo certo. 

Consta nos registros históricos que tudo começou com o descobrimento do Brasil, que foi resultado de um “jeitinho” de Pedro Álvares Cabral que, tentando ir para a Índia mais rápido, sem enfrentar as tormentas do Cabo da Boa Esperança, simplesmente resolveu dar a volta ao mundo indo pelo oceano Atlântico tentando chegar ao Oriente. Esse certamente foi o início do jeitinho na nossa história. 

Por outro lado, um dos últimos jeitinhos brasileiros que temos conhecimento foi a tentativa de usurpação do poder com a aplicação de um golpe de Estado no ano de 2022. Esse seria um jeitinho daqueles bem barulhentos e tormentosos. Independentemente do lado político em que você se encontra, deve reconhecer que brasileiro não tem limites para criar as mais absurdas situações, que só se vê neste país. 

O problema de tudo isso não está no início nem no fim, mas sim no meio. Quinhentos e vinte e cinco anos de história e temos um jeitinho para cada ano e cada setor da sociedade, um jeito para a política, outro para o futebol. E o que dizer do carnaval? Esse já não tem jeito mesmo, vai nos trancos e barrancos, mas vai! Ainda temos a religião, que não se discute, a cultura popular e a saúde pública, porque, afinal, de médico e louco todo mundo tem um pouco. 

*Marco Brito Mioni é autor do livro “Os amadores do Brasil”, que une sua paixão pela literatura com seu amor pela história do país. 

Primeiro ano dos prefeitos

Cheguei a escrever “prefeitos atuais”, mas a lógica é simples: ou se é prefeito, ou se é ex-prefeito. Essa distinção vale para todos os cargos eletivos e para qualquer matéria jornalística. Ponto.

A administração municipal segue presa ao clichê segundo o qual “somente um louco faz as coisas da mesma maneira e espera um resultado diferente”, frase comumente atribuída a Albert Einstein, embora popularizada no Brasil por Flavio Quintela. O roteiro se repete: prefeitos iniciam o mandato alegando cofres vazios, sem perceber, ou sem admitir, que, na esmagadora maioria das vezes, o espólio foi deixado por um aliado político, responsável direto pela eleição do herdeiro.

Logo em seguida, surgem os investimentos em eventos festivos. Comemorações nababescas, contratação de artistas famosos e cachês absurdamente elevados passam a ocupar espaço central no orçamento. O ano avança e nenhum munícipe é capaz de citar um projeto estruturante, tampouco um evento esportivo de base do qual seu filho tenha participado. Essa lógica não se restringe aos municípios: repete-se nos 27 governos estaduais e no governo federal, com seus 39 ministérios, já no último ano de mandato e prestando-se a divulgar índices sociais dignos da Dinamarca ou da Noruega.

Na educação, multiplicam-se as festas de conclusão de curso ao fim do primeiro ano de gestão — e, com justiça, elas se repetirão nos três seguintes. Prefeitos entregam certificados, posam para fotos e divulgam resultados. O problema é que muitos concluintes apresentam praticamente o mesmo nível de conhecimento de quando estavam no ensino fundamental. Nem mesmo o secretário de Educação, autoridade máxima da área, parece saber como promover uma evolução real no aprendizado, realidade escancarada pelos ainda 11 milhões de analfabetos no país e por número ainda maior de analfabetos funcionais, inclusive entre pessoas com diploma de curso superior.

Na saúde, bastaria uma pesquisa elementar para constatar que poucas cidades com menos de 50 mil habitantes dispõem de aparelho de raio X. Quando existe, está quebrado ou falta material para a realização do exame. Os milhões de desdentados comprovam a inexistência de políticas efetivas de prevenção de cáries nas escolas.

Encerradas as festas de Réveillon, constata-se que praticamente todas as prefeituras investiram pesado em fogos de artifício, para deleite das emissoras de televisão em coberturas ao vivo, e em artistas com cachês astronômicos. São os mesmos artistas que não se acanham em cobrar do setor público o dobro do que recebem de contratantes privados e que, simultaneamente, aparecem na TV pedindo doações para entidades filantrópicas. Chama atenção o silêncio quase absoluto sobre os valores desses contratos, como se houvesse um pacto tácito entre mídia e prefeituras para não os divulgar, muito menos compará-los com investimentos em áreas como o esporte.

Como no Brasil há eleições a cada dois anos, este ano, prefeitos e vereadores passam a se ocupar mais do acompanhamento de candidatos aos governos estaduais e aos legislativos do que do funcionamento da máquina pública. O cidadão, por sua vez, vai sendo distraído por festas e, depois, por fotografias. Muitos se sentem mais lisonjeados ao aparecer ao lado de autoridades do que em exigir um equipamento de diagnóstico em um hospital municipal.

Convém reforçar o óbvio: o cachê estratosférico do artista é pago com o dinheiro do contribuinte. Não existe serviço público gratuito. O cidadão paga antecipadamente por tudo o que é executado e, não raro, recebe serviços superfaturados ou contaminados pela corrupção.

Com a aproximação das eleições, instala-se mais uma “guerra de torcida” por políticos de estimação, em vez da cobrança por projetos relevantes, mensuráveis e verificáveis. E o voto segue obrigatório, o cidadão permanece no papel de “ingênuo útil” do sistema político — e a indústria das fotos segue a pleno vapor.

Pedro Cardoso da Costa

 

Brasil, salve as mulheres

*Marcos Espínola
Ao final de cada ano é sempre importante fazermos um balanço. No que diz respeito a segurança pública não há o que comemorar, especialmente na crescente onda de feminicídios. É preciso medidas urgentes e ainda mais severas na punição e ressocialização desses criminosos que acreditam na impunidade. Para que estes aprendam a conviver com os outros gêneros. Precisamos de políticas públicas mais eficazes e que protejam a mulher, ser humano escolhido por Deus para gerar a vida.

Os números preliminares indicam um cenário alarmante em 2025 no Brasil. Segundo o Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem) mais de 5 mil casos consumados e tentados foram reportados entre janeiro e outubro. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública indicam que de janeiro a setembro, quase 3 mil mulheres sofreram esse tipo de crime e outras 1.075 morreram.

Há um recorde de casos. Para se ter ideia, em 2023, foram 1.463 casos, 1,6% em relação a 2022. Em 2024, o Brasil registrou o maior número de feminicídios, totalizando 1.492 vítimas, uma média de quatro mortes por dia. Agora em 2025, os dados preliminares sinalizam a continuidade dessa tendência de alta.

São casos aterrorizantes que se acumulam, como a Juliana dos Santos, agredida com mais de 60 socos pelo namorado dentro do elevador do prédio onde morava. A agressão resultou em múltiplas fraturas em sua face, precisando passar por cirurgia de reconstrução. Também em um elevador, o americano, Eric Diaz, agrediu a namorada, que também sofreu ferimentos graves no rosto. Tainara Santos teve as pernas amputadas depois de ser atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro por um agressor.

Elas simbolizam a tamanha violência que assola as mulheres. O descumprimento de medidas protetivas ainda é um problema grave, com mais de 100 mil registros no Brasil, evidenciando desafios na eficácia da rede de proteção às mulheres e isso é um dos pontos a ser revisto. Precisamos chamar a atenção para a urgência de mudanças na legislação, tornando ainda mais rigorosa a punição para esses casos. São necessárias políticas públicas que oriente e preserve o respeito e a integridade física e psicológica das mulheres. E isso deve acontecer desde a educação de base.

Que a chegada de um novo ano nos traga novos ares e, efetivamente, medidas eficazes para mudarmos esse cenário, pois feminicídio é crime.

*Advogado criminalista e especialista em segurança pública