Febre das figurinhas

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COPA DO MUNDO: “Loucos por futebol” aquecem venda de figurinhas nas cidades da região

Walter Barros

Em uma noite fria e chuvosa da semana, João Pedro Martins e Davi Teixeira entraram em campo para trocar figurinhas do álbum da Copa do Mundo 2026. Frequentadores do posto de troca criado por uma papelaria de um shopping em Resende, os jovens estão entre os “loucos por futebol” do Sul Fluminense que aquecem as vendas dos colecionáveis ligados ao torneio da Fifa. Uma febre que pode custar de R$ 1 mil a R$ 7 mil para completar a coleção, mas que pode render lucros significativos aos mais sortudos que encontram cromos raros. Nada comparável ao valor sentimental da paixão, que não pode ser mensurada pelo dinheiro.

João justifica a determinação em reunir os 980 cartões do “Álbum da Copa” dizendo que nunca completou um deles desde 2006, uma tradição herdada do pai. “Desde pequenininho, colecionava. Hoje, estou em busca de completar meu primeiro álbum”, explica. Além de comprar o álbum “mais barato”, o de capa flexível, vendido a R$ 25, o assistente de logística, de 27 anos, revela que já desembolsou uns R$ 500 em pacotinhos de figurinhas, que custam R$ 7 e possuem sete colecionáveis cada um. “Estou na metade do álbum, ainda falta gastar mais”, acrescenta.

No campo das figurinhas, Davi não é um adversário. Muito pelo contrário. É um aliado de João na troca das repetidas. O recepcionista, de 23 anos, lembra que foi contagiado pela febre dos álbuns graças a um tio. “Completei o de 2010, de 2014 e foi indo”, diz o rapaz, acrescentando que já gastou R$ 600 em figurinhas. “Essa tradição não pode morrer, é muito maneiro trocar figurinhas e completar o álbum”, pontua. 

Os dois jovens fazem parte de um dos cenários elencados pelo professor Moacyr Silva, da Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getúlio Vargas, voltados a estimativas de custo no preenchimento de um álbum. A primeira delas, quase impossível, é a compra de pacotinhos em que os colecionadores não tirem figurinhas repetidas. Nessa hipótese, o gasto seria de R$ 980 para completar a coleção, fora o preço do álbum. No caso de troca de figurinhas somente entre duas pessoas, o matemático estima que o gasto chegue a R$ 4.614 e, na hipótese de troca envolvendo um grupo de 10 pessoas, na casa dos R$ 2.430. Já a possibilidade mais onerosa é a da compra sem troca, que pode levar os colecionadores a gastar até R$ 7.338 para completar o álbum.

Entre os que tentam driblar os cenários do matemático da FGV está João Rafael, 11 anos, que vai ao posto de troca em busca das 80 figurinhas que faltam para que ele complete o ‘álbum da Copa’, cujo aporte dos pais beira R$ 1 mil, além dos mimos em forma de pacotinhos doados pelas avós. O garoto lembra com orgulho que completou o álbum da Copa de 2022, quando começou a treinar “bafo” para rapelar figurinhas repetidas dos colegas. A brincadeira consiste em premiar aqueles que conseguem desvirar, com golpes de ar através da palma da mão, figurinhas depositadas em pilhas sobre uma superfície. 

João Rafael garante que já faturou algumas figurinhas através do bafo, mas seus olhos brilham por outra descoberta da Copa passada: as figurinhas Legends. Tratam-se de cromos extras divididos em quatro subgrupos (roxo, bronze, prata e ouro), cujas probabilidades de serem encontrados variam de 1 a cada 190 pacotinhos (Legends roxos) a 1 a cada 1.900 pacotinhos (Legends ouro). “Eu consegui essas Legends [roxas] do Modri? [jogador da Croácia] em troca de 45 figurinhas, e essa do Heung-min [jogador da Coreia do Sul] por R$ 45”, diz todo orgulhoso. 

À mesa com João Rafael está Walter Lauro, 59, que não tem a mesma sorte na busca pela figurinha que lhe falta para completar o álbum. “Não estou preocupado, porque é uma figurinha fácil. Hoje eu quase consegui, mas a menina já tinha trocado”, minimiza, revelando que adotou uma estratégia diversa dos cenários do matemático Moacyr, o que agilizou o preenchimento do álbum, incumbência deixada pelo genro peruano, que se encontra a trabalho na Amazônia. 

Comprou R$ 700 em figurinhas, trocou as repetidas e foi duas vezes a uma loja de Volta Redonda, onde desembolsou pouco mais de R$ 400 na compra das unidades que faltavam. Pagou R$ 1,50 por figurinha. “O pessoal da loja abre uns 300 envelopes por dia, separa por seleção e vende a R$ 1,50 cada”, detalha. “Quem quiser ter 50% de lucro, é só fazer isso”, dispara.

A direção tomada por Walter, no entanto, não é a mesma de Marino Sampaio, 52, já que o dono da papelaria de Resende defende a interação entre as pessoas para que completar o álbum não se torne mais oneroso e promova o encontro das pessoas. “A criançada tá querendo, os pais também. Nós tivemos a felicidade de ter esse espaço vazio aqui do lado da nossa loja, então conversamos com o shopping e fizemos um ponto de troca. Tivemos a ideia de criar um grupo [no WhatsApp] para as pessoas interagirem e o pessoal combina de vir trocar aqui. Isso é bom, porque as pessoas interagem. As crianças acabam ficando mais tempo com os pais, fazendo isso juntos, melhorando a convivência. A ideia é construir essa memória em torno de uma competição esportiva que talvez seja a maior do mundo”, argumenta.

Marino se queixa de faturar muito pouco em cima de cada pacotinho de figurinha, cujo preço de custo é de R$ 5,60, fora os impostos, taxa das maquininhas e encargos operacionais, além de descontos dados aos que pagam em dinheiro. “A margem de lucro é bem pequena, mas ajuda, porque o cliente vem na loja, compra figurinha e acaba comprando outra coisa. Muitas pessoas que vieram não tinham entrado na nossa loja ainda e chegaram por causa da figurinha”, explica, contando que comprou 14 caixas de mil envelopes cada uma, das quais já vendeu 10 caixas, além de um total de 150 álbuns de capa flexível. 

Ele não esconde a cautela com a Seleção Brasileira ao justificar por que pausou a compra das caixas, vendendo os 20 álbuns de capa dura restantes abaixo do preço de custo: “Se o Brasil se classificar na primeira fase, como a gente espera, e tiver mais jogos, fica mais animado. Se o Brasil não se classificar, praticamente zera tudo”, pontua. Sobre o grupo de WhatsApp, com 550 membros, ele explica que a loja não se envolve na troca de figurinhas, mas já precisou interferir em ocasiões de anúncios de venda de Legends ouro de craques como Lionel Messi e Cristiano Ronaldo por até R$ 600 cada uma. Segundo ele, a proposta é promover a interação, e não transformar o grupo em um balcão de negócios.

A postura de Marino é confirmada pelas vendedoras Ana Laura, 22, e Ana Clara, 34. Elas contam que já viram um colecionador “desesperado” tentando vender um Legend ouro de Messi por R$ 5 mil e outro “louco por figurinha” entrando na loja com uma balança de precisão, a fim de comprar envelopes mais pesados para aumentar a chance de encontrar Legends, já que os cromos têm peso maior em relação às figurinhas comuns, de papel. “Elas [Legends] são mesmo para colecionadores, o desespero de achar e vender. Imagina você pagar R$ 7 no pacotinho e achar uma figurinha que vale R$ 5 mil”, compara Ana Clara, acrescentando que a loja não permite a artimanha das balanças de precisão.

Douglas Matos, 39, dono da loja de Volta Redonda que atendeu Walter, diz que atualmente são abertos cerca de 150 pacotinhos de figurinhas diariamente, separadas para vendas avulsas no estabelecimento temporário (pop-up), aberto na Vila só para a Copa. “A gente foca num ponto de troca de venda de figurinhas, de segunda a segunda, e tem um fluxo de gente muito grande”, diz, acrescentando que, depois da Copa, o atendimento continuará através das redes sociais. 

O que não vai terminar após a decisão da Copa é a paixão de colecionadores como Douglas, cuja história começou em 1997 pela compra de cards da Copa das Confederações e, depois de algum tempo, pela aquisição dos álbuns das Copas de 90 e 94, que ele achou na internet. “O álbum não tem preço, ele tem valor, é uma nostalgia, um hobby, que a gente espera, a cada quatro anos, para começar isso tudo de novo”, finaliza.