Por Melissa Artioli*
Em ano eleitoral, discutimos candidatos, partidos, governos e projetos para o país. Mas a política não revela apenas quem queremos no poder. Escolher em quem votar fala também sobre quem somos quando nossos interesses entram em jogo.
A campanha eleitoral de 2026 acontece em um cenário novo. Muito além da disputa por votos, a disputa pela atenção do eleitor está cada vez mais sofisticada. Inteligência artificial, conteúdos manipulados e deepfakes já exigiram regras específicas por parte da Justiça Eleitoral.
Nunca foi tão fácil alcançar milhões de pessoas e influenciar percepções. Medo, indignação e sensação de pertencimento podem ser ativados em segundos. As ferramentas tecnológicas são poderosas, mas é a intenção de quem as utiliza que pode vir a se tornar um problema.
Afinal, inteligência sem consciência não garante evolução. O conhecimento também pode apenas ampliar impulsos antigos, como egoísmo, vaidade, desejo de poder e dificuldade de enxergar além dos próprios interesses.
A política torna tudo isso visível. É por meio dela que vemos como reagimos quando valores, interesses e identidades entram em conflito, e até onde conseguimos reconhecer quem está fora do nosso “grupo”.
Um artigo publicado este ano na Nature Reviews Psychology ilustra essa tensão: cooperamos com facilidade entre indivíduos, mas essa disposição enfraquece quando a identidade de grupo entra em cena. Reciprocidade, empatia e segurança constroem pontes; da mesma forma, a lógica do “nós contra eles” ergue muros.
No debate político, esse mecanismo fica mais evidente. Quando a identidade do grupo pesa mais do que os fatos, deixamos de avaliar argumentos e passamos a defender posições. O erro dos nossos ganha justificativa, enquanto o mesmo erro, quando vem do outro lado, vira motivo de condenação.
Isso não nasce das ideologias de direita, esquerda ou centro. A política apenas revela, com mais nitidez, algo que já existe em todos nós.
E é justamente aí que a consciência se torna incômoda. Não basta identificar o viés do outro, é preciso reconhecer o próprio. É fácil exigir ética quando a falta dela favorece o adversário, mas muito mais difícil sustentá-la quando o limite precisa ser imposto ao nosso lado.
Nesse ponto, a fraternidade sai da abstração e passa a ter peso político, não como ingenuidade ou apelo moral, mas como princípio de convivência entre pessoas que não pensam, não vivem e não desejam as mesmas coisas.
É essa diferença que a fraternidade exige reconhecer: individualidade é afirmar o próprio lugar no mundo sem apagar o espaço do outro, enquanto o individualismo faz dos próprios interesses a medida de tudo.
Viver em sociedade exige esse deslocamento entre compreender que a criança que não é minha também precisa de educação, que o idoso que não pertence à minha família merece dignidade, que o trabalhador que nunca conhecerei precisa de condições dignas para viver e que até quem pensa de forma oposta continua fazendo parte da mesma sociedade.
Fraternidade, portanto, não exige concordância, mas a capacidade de reconhecer que o destino do outro também atravessa o nosso.
Em uma eleição marcada pelo avanço da inteligência artificial, essa responsabilidade se torna ainda mais concreta, porque nenhuma regra será capaz de substituir por completo o discernimento individual. Antes de compartilhar, atacar ou reagir, cabe a cada um verificar, pensar, distinguir fato de opinião e, é claro, reconhecer quando está defendendo um princípio ou apenas protegendo a própria identidade.
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*Melissa Artioli é coach de Desenvolvimento Humano, palestrante, executiva com mais de 20 anos de experiência e empreendedora. É autora de “Solte, Entregue, Confie – Uma jornada para sua melhor versão”, publicado pela DVS Editora.
A prova digital na Justiça do Trabalho: O print de WhatsApp como o novo “cartão de ponto”
Lucas Vinicius Salomé*

O tradicional relógio de ponto de parede e a ficha de papel emoldurada na entrada da fábrica há muito deixaram de ser os únicos bastiões da jornada de trabalho. Na era da comunicação instantânea, o controle de horário migrou para a palma da mão e uma das provas mais frequentes e relevantes em Reclamações Trabalhistas não é mais a folha assinada ao final do mês, mas a captura de tela gravada no celular do colaborador. O aplicativo de mensagens, os e-mails enviados na madrugada, os metadados de acesso ao sistema corporativo e até os emojis trocados em grupos da equipe tornaram-se o novo “cartão de ponto” digital – um acervo probatório robusto que muitos empresários só percebem ao receber a citação judicial.
A Justiça do Trabalho brasileira passa por uma transformação metodológica profunda no que tange à instrução probatória. Com o avanço das ferramentas de perícia digital e a consolidação de diretrizes de governança de dados, os tribunais têm conferido relevante valor probatório a prints de mensagens, áudios e registros de envio fora do horário contratual. A ilusão de que uma conversa no WhatsApp possui caráter estritamente informal ou “amigável” ruiu: quando uma liderança envia uma demanda às 22h ou no domingo de manhã, o carimbo de data e hora registrado no servidor, a depender do contexto e da efetiva prestação de serviço ou disponibilidade, pode evidenciar trabalho extraordinário (constitui prova cabal de tempo à disposição), regime de sobreaviso ou quebra da rotina de descanso.
O maior risco para a saúde financeira da empresa reside na assimetria de controle e na falta de governança sobre esses canais de comunicação. Na ausência de políticas claras e de ferramentas de auditabilidade, a empresa fica refém da narrativa digital construída unilateralmente. Um único histórico de conversas exportado pode afastar a força probatória dos cartões de ponto formais apresentados pela defesa quando houver elementos consistentes nesse sentido, expondo a organização a condenações por horas extras, adicionais noturnos e até indenizações por danos morais. O prejuízo, portanto, deixa de ser uma discussão pontual sobre minutos excedentes e passa a impactar diretamente o fluxo de caixa com passivos acumulados ao longo de anos.
Diante dessa realidade, prevenir o passivo trabalhista digital exige a adoção de um protocolo rigoroso de compliance probatório e de conduta eletrônica. As organizações precisam entender que a tecnologia deve ser parametrizada juridicamente: o uso de agendamento de mensagens para o horário comercial, a vedação explícita de grupos de trabalho sem mediação e a criação de manuais de etiqueta corporativa digital não são meros entraves burocráticos, mas mecanismos vitais de proteção de marca e do fluxo de caixa. No ambiente corporativo atual, saber gerir a pegada digital das relações de trabalho é tão indispensável para a sobrevivência do negócio quanto a exatidão no recolhimento dos tributos.
*Lucas Vinicius Salomé é graduado e pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho pela Universidade Mackenzie, possui também pós-graduação em Direito Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas. É sócio fundador do escritório Raposo Soares e Salomé Advogados.

