sábado, fevereiro 24, 2024
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Número de mulheres que adotam o sobrenome do marido cai em 20 anos

O número de mulheres que adotam o sobrenome do marido caiu 24% em 20 anos, segundo dados da Associação Nacional dos Registros de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil). Em outro levantamento feito pelo Colégio Notarial do Brasil – CNB foram registrados 80.573 mil divórcios consensuais no ano de 2021, um recorde desde 2007.
O aumento do número de divórcios e a não adesão do sobrenome da família do marido colocam em pauta outra questão: a retomada da identidade da mulher ao ter – ou manter – seu nome de solteira. “A mulher assumir o sobrenome da família do marido é algo enraizado em nossa sociedade e tem origem em uma história patriarcal: para uns, trata-se apenas de uma tradição inofensiva, para outros, resultado do machismo.”, menciona a psicanalista e CEO do Ipefem, Ana Tomazelli.
“Quando me casei, em 2014, decidi acrescentar o sobrenome do meu ex-marido, mesmo sendo uma mulher com visão mais progressista e afastada do que é convencionado pela sociedade patriarcal. Ou seja, é tão enraizado que a gente às vezes nem percebe. Tive um trabalho imenso quando me separei, não faria isso novamente”, relata a relações públicas Daniella Pimenta.
Já Elisa, que discute o assunto dentro do mercado imobiliário e em seus canais sociais, também se identifica com a questão. Divorciada desde 2021, a empresária entende a importância que o resgate do nome de nascimento traz para as mulheres. “Quando a gente se casa não pensa em se divorciar, mas quando isso acontece e a mulher volta a assumir o nome de solteira, é uma sensação de liberdade imensa, porque a mulher recupera sua identidade pessoal”, destaca.
Independentemente do contexto em que esse ato está inserido, é fato que, ao se divorciar, a mulher que assumiu o nome do marido voltará a ter o nome de solteira e para muitas isso é um resgate da sua identidade. “Por muitos anos ficou fixado em nossa sociedade que a mulher, ao se casar, deveria assumir o sobrenome da família do marido e assim assumir a responsabilidade de ‘honrar’ esse sobrenome. Isso faz com que ela deixe de lado sua própria identidade e passe a assumir o peso do sobrenome da família. Então quando a mulher se divorcia ela resgata sua própria identidade e isso é transformador”, declara Elisa Rosenthal, idealizadora do Instituto Mulheres do Imobiliário e autora do livro Proprietárias.
Se durante muito tempo as mulheres seguiram a tradição de assumir o nome da família do marido, nos últimos anos esse movimento decaiu. Segundo dados levantados pela Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Estado de São Paulo (Arpen-SP), tem acontecido uma tendência de as mulheres rejeitarem o nome da família do parceiro. No último ano, o número de mulheres que optaram por não alterar seu nome atingiu o ápice: 18 mil mulheres não assumiram o sobrenome da família do marido. “Isso é algo muito significativo, não apenas porque ela não precisará se preocupar em trocar todos os documentos novamente ao se divorciar, mas principalmente porque, ao que tudo indica, a mulher está mais consciente da preservação da sua identidade, pois o nome de nascimento carrega toda a sua história”, ressalta Elisa.
Se olharmos para nosso passado, iremos constatar que a mulher, por longos anos, foi considerada como propriedade do homem, primeiro do pai, depois do marido. O pai era responsável por ‘arranjar’ um casamento para a filha, como se fosse uma transação comercial. Quando a mulher se casava, o marido e a família exigiam que ela fosse uma excelente dona de casa, boa ‘parideira’ e mãe, sendo-lhe negado conhecimento, educação, trabalho fora de casa e cultura, uma forma da mulher não contestar a condição de submissão exigida pelo marido.
Se por um lado as mulheres estão rejeitando o sobrenome da família do marido, a quantidade de homens que têm aderido ao sobrenome da esposa aumentou. Passada uma década da mudança no Código Civil Brasileiro, que permitiu ao homem adotar o sobrenome da mulher, em 2002, a prática vem se tornando comum. No estado de São Paulo, em média, 34% dos casamentos são celebrados no civil com o noivo ganhando um sobrenome.
Uma coisa é certa: cada vez mais as mulheres têm se unido em uma só voz em busca da igualdade de gênero, independência e liberdade, em todo o mundo. No Japão, por exemplo, as mulheres passaram a questionar as disparidades do mercado de trabalho, onde homens ocupam mais cargos de liderança, travando uma luta com mais intensidade nos últimos tempos, marcados pelas primaveras feministas.
Aliás, o Japão tem sido um dos países em que as mulheres têm lutado muito nos últimos anos, por novos padrões de vida e de comportamento que sejam menos opressores para as mulheres como, por exemplo, no documentário ‘Jiro Dreams of Sushi’, disponível na Netflix, em que levanta a discussão de que as mulheres não podem fazer sushi porque menstruam. A fala do herdeiro do restaurante Jiro Ono, Yoshikazu Ono, reflete a cultura machista do país. “Mulheres menstruam. Ser profissional significa oferecer um sabor estável no alimento servido. Mas, devido ao ciclo menstrual, mulheres têm um desequilíbrio no gosto e é por isso que mulheres não podem ser chefs de sushi”, declarou em entrevista ao jornal norte-americano The Wall Street Journal, mesmo não tendo nenhuma base científica para esse argumento.
Contudo, as mulheres japonesas seguem dando exemplo de luta por igualdade, independência e liberdade. Em 2010 foi inaugurado o primeiro restaurante liderado por mulheres, o Nadeshico Sushi, da sushiwoman Yuki Chiudi, na cidade de Tóquio. E compartilhando dessa conquista, em 2019, momento antes da pandemia, a empresária abriu a Nadeshico Sushi School para ensinar a outras mulheres não só a arte do sushi, mas também a lidar com questões de gênero no trabalho.
Além disso, de acordo com a ONG Single Mother Fórum, de Tóquio, as mulheres mudaram muito, desde as décadas de 1980 e 1990, muitas passaram a estudar e se profissionalizar, também se divorciaram ou preferiram não casar e nem ter filhos, às vezes escolheram sair do país. Em outras palavras, procuraram sair pela tangente.
Elisa Tawil é a idealizadora, co-fundadora e líder do Instituto Mulheres do Imobiliário. Mentora e consultora estratégica de negócios, foi a primeira certificada Shakti Leader em São Paulo. Também é membro da Tiara Resource Circle, conselheira da ONG Gaia + e voluntária pela FIESP e Na’amat Pioneiras SP. Em 2019, foi eleita LinkedIn Top Voices. Atualmente, é executiva na eXp Brasil. Além disso, é colunista da Revista HSM Management, do Imobi Report e Exame Invest e produz e apresenta o podcast Vieses Femininos.

Ana Tomazelli, psicanalista e idealizadora do IPEFEM (Instituto de Pesquisa de Estudos do Feminino e das Existências Múltiplas). Fundado em 2019, o Ipefem atua em três pilares, que podem acontecer coordenada ou individualmente: pesquisa, educação e terapia. Saiba mais: https://ipefem.org.br/

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