“Xeque”

Por Roberto Marinho 

ugh sao joao batista

Como em um jogo de xadrez, Samuca tem mexido suas peças para justificar a compra do Hospital Santa Margarida.  Diz, entre outras, que seria para fugir do aluguel do prédio do Hospital São João Batista; que paga à UHG (União Hospitalar Gratuita). Só que o prefeito parece ter encontrado um adversário à altura, que o colocou em xeque.  “A prefeitura não paga aluguel pelo prédio do Hospital São João Batista, o que o prefeito está falando não é verdade”, diz o presidente da UHG, Amaury Pereira da Fonseca. “Se ele paga algum aluguel, queria saber em que conta o dinheiro foi depositado, porque para a UHG é que não foi”, dispara. 

 

Em entrevista exclusiva ao aQui, Amaury afirma que Samuca insiste no erro ao repetir a informação até na TV, pois o governo teria sido avisado que o fato não seria verdadeiro. “Depois que o Samuca falou isso, nós entramos em contato com o governo diversas vezes para que essa informação fosse corrigida. Procuramos a secretaria de Saúde, e seus assessores e eles disseram que iam fazer um levantamento e corrigir a informação, mas nada aconteceu”, pondera Amaury, que tinha ao lado  o diretor tesoureiro da UHG, Josias José de Souza, o procurador da entidade, José Murilo Granato, além dos responsáveis pelos setores administrativo e contábil.

 

Amaury explica que o prédio onde funciona o HSJB – além de todos os equipamentos do hospital – foi cedido para a prefeitura de Volta Redonda em regime de comodato, de forma gratuita, em 10 de setembro de 1971. “Isso aconteceu porque o então prefeito Nelson dos Santos Gonçalves queria desapropriar o hospital. Por não concordar com isso, a direção da UHG na época, junto com os associados, propôs o comodato para a prefeitura – sem nenhum custo – desde que fosse garantida a assistência aos associados da UHG. E desde então vem sendo feito assim”, explica Amaury, frisando mais uma vez: “A prefeitura não paga aluguel pelo Hospital São João Batista”.   

 

Os diretores da UHG garantem que o comodato vinha sendo renovado de quatro em quatro anos, como prevê o acordo original de 1971, até que, por uma discordância judicial com a administração do ex-prefeito Neto, a UHG não renovou o contrato. “Que continua valendo nos termos anteriores, só que agora por prazo indeterminado”, esclarece.

 

Amaury lembra que a UHG possui dois prédios: um onde funciona o São João Batista e o outro (Edifício Vigilato Peixoto) onde funcionam a administração da UHG, o Banco de Olhos e o Banco de Sangue de Volta Redonda. No terceiro piso existe a enfermaria do HSJB, além de quatro quartos para atender aos associados da UHG – cerca de 700 pessoas. Neste prédio a prefeitura de Volta Redonda paga, sim, alguns aluguéis. Ou pelo menos deveria pagar.

 

No caso do Banco de Olhos, diz Amaury, o aluguel de R$ 2.794 foi estipulado por uma decisão judicial de 2010 (governo Neto) e vinha sendo depositado. Os diretores da UHG afirmam que quando Samuca assumiu, o prefeito teria pedido uma moratória de 90 dias. “E não de 15 dias como foi divulgado”, pontua. O aluguel está, portanto, atrasado há três meses. 

 

Quanto ao aluguel do Banco de Sangue, Amaury diz que o caso “está em negociação desde 2015”, sendo que nada teria sido pago desde essa época. Já o aluguel do terceiro piso – da enfermaria do HSJB –   não é pago desde que Samuca assumiu o governo, afirmam os diretores. “Sem nenhuma explicação”, pontua um deles.

 

Existe ainda um terceiro terreno da UHG, ao lado do hospital, onde funciona um estacionamento exclusivo para os médicos do HSJB, que foi alugado pela prefeitura há pelo menos 15 anos. E desde que Samuca assumiu – e de novo sem explicação, afirmam – o aluguel de R$ 6 mil não é pago. “Esse estacionamento foi criado por um prefeito, não me recordo qual, que estava preocupado com a segurança dos médicos que faziam plantão e deixavam os carros nas ruas próximas. Tem muito tempo isso, mas o aluguel sempre foi pago em dia”, afirma.

 

Como presidente da UHG, Amaury lamenta estar tendo dificuldades para falar com Samuca. “Nós só fomos recebidos pelo prefeito uma vez, no início do mandato. Desde então, tentamos várias vezes nos reunir com ele, mas nunca conseguimos. Até conseguíamos contato com o secretário de Administração, Carlos Baía, que falou conosco algumas vezes, mas agora nem isso”, relatou Amaury.

 

Segundo ele, a dificuldade para falar com alguém do Palácio 17 de Julho é tanta que agora nas ligações para a prefeitura a orientação é registrar o dia, a hora, quem atendeu o telefonema e qual o motivo alegado para o atendimento não seguir adiante.              

‘História’

Os diretores da UHG dizem que Samuca “desconhece a história” ao dizer que a prefeitura paga aluguel pelo São João Batista. E destacam que o hospital foi construído em forma de mutirão, com os associados (maçons, grifo nosso) da então recém criada UHG cedendo a mão de obra em dias de folga e fins de semana. “A UHG foi criada em 1952 por um grupo de voluntários (a maioria ligadas à Loja Maçônica Independência e Luz II), como alternativa para atender a população de Volta Redonda. O antigo Hospital da CSN – o único que existia – só atendia funcionários e seus dependentes. Um dia, um grupo estava na Vila, no antigo bar Mollica, quando uma pessoa passou mal  e morreu na frente deles, porque não havia socorro para quem não fosse funcionário da CSN. Foi então que eles decidiram criar a UHG”, conta o diretor Josias.

 

Na época, Volta Redonda era distrito de Barra Mansa e em 1954, quando da emancipação política, o terreno de 6 mil metros quadrados onde seria construído o São João Batista, e que pertencia à prefeitura da cidade vizinha, foi doado ao grupo que formava a UHG pelo então prefeito João Chiesse Filho. A partir daí nascia o hospital, literalmente construído pelos próprios associados da UHG.

“Foram cerca de dois anos de construção. O dinheiro saía dos associados e era descontado na folha de pagamento, após um acordo feito pela UHG com a CSN”, explica Josias.

Samuca justifica opção pelo Santa Margarida
Procurado pelo aQui, Samuca minimizou a polêmica e disse que quando se referia ao pagamento de aluguel, estava falando das despesas com o estacionamento e outras áreas da UHG, e não especificamente do prédio do hospital. “Eu sei da questão do comodato, mas quando eu falo de aluguéis, estou falando do estacionamento, das outras áreas (enfermaria, 3° piso, bancos de olhos e sangue, grifo nosso). Sei do mutirão, mas é um hospital que, pelo seu espaço físico, não podemos fazer qualquer tipo de investimento. E o comodato é um instrumento jurídico que tem algumas restrições”, explica o prefeito para justificar a comparação feita entre investir no São João Batista e adquirir o Santa Margarida.

Samuca lamentou profundamente não ter tido a oportunidade de dialogar com a diretoria da UHG. “Eu não tenho conhecimento que ninguém tenha me procurado, porque eu poderia corrigir isso. Se eles (direção da UHG) se sentiram pressionados ou chateados de alguma forma, eu peço desculpas. Temos um bom relacionamento, mas realmente minha assessoria não me passou que alguém tenha me procurado para tratar sobre isso. Se eu tivesse conhecimento, eu os atenderia para corrigir essa falha”, afirma.

O prefeito também diz concordar que qualquer expansão no HSJB teria que gerar um aluguel e aponta a dificuldade de fazer investimentos na unidade por conta da falta de espaço.  “O investimento de R$ 6 milhões (para adquirir) no Hospital Santa Margarida, um hospital totalmente equipado, faz com que ele seja uma boa alternativa para a cidade no futuro”, aponta. “E muita gente não sabe que tudo que for feito no prédio da UGH passa a ser da instituição. Isto está no contrato”, explicou, reforçando a tese de que comprar o Santa Margarida foi um bom negócio.

Em relação aos aluguéis que estariam atrasados, a pedido de Samuca, a prefeitura mandou uma lista com as justificativas de cada contrato: no caso do estacionamento, informa que no ano passado não foi feito o reajuste pelo IGP-M, e o último pagamento teria sido feito em fevereiro de 2018, sendo que o processo se encontra na secretaria de Fazenda para pagamento. Sobre a enfermaria, o contrato estaria sendo formalizado, com o valor acordado entre as partes, de R$ 7,1 mil. Alguns documentos, afirma, estão pendentes.

Já em relação ao Banco de Sangue, a prefeitura diz que houve discordância no valor pedido pela UHG – de R$ 8.316,65 – e a avaliação feita pelo IPPU-VR, de R$ 4,7 mil. E garante que foi feita uma nova avaliação pelo IPPU-VR, que manteve o valor anterior. Assim, a Procuradoria Geral do Município orientou que não fosse feito o contrato. E no caso do Banco de Olhos, a prefeitura alega que o pagamento esta, sendo feito via judicial, e que o processo foi remetido em 9 de julho deste ano ao contador judicial para análise.

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