ESTADO: Rio de Janeiro terá novo governador eleito apenas pelos 70 deputados
Mateus Gusmão
Os fluminenses vêm enfrentando, desde o primeiro dia de 2026, um calor intenso que castiga todo o estado. ‘40 graus à sombra’, brincam. Detalhe: a temperatura pode subir ainda mais até o mês de abril – especialmente nos gabinetes dos políticos da Assembleia Legislativa e nas mesas de negociação da Casa. Isso porque, até o início de abril, o Rio de Janeiro deverá passar por mudanças importantes nos postos de comando do Poder Executivo. Será um verdadeiro ‘esquenta’ para a eleição de outubro.
Reeleito em 2022, o governador Cláudio Castro (PL) já confidenciou a aliados que deve deixar o cargo até o dia 5 de abril, prazo final para a desincompatibilização exigida pela Justiça Eleitoral a quem pretende concorrer ao Senado Federal, como é o caso de Castro. Se isso se confirmar, o estado do Rio de Janeiro terá, a partir de abril, um novo governador. Importante: sem que ele tenha passado pelo crivo das urnas ou pelo voto direto da população.
O motivo é simples: o Rio de Janeiro não conta mais com um vice-governador. Thiago Pampolha, eleito vice em 2022, foi indicado no ano passado para ocupar uma cadeira no Tribunal de Contas do Estado (TCE). Com isso, a linha sucessória foi interrompida.
Nessas situações, a Constituição Estadual determina a realização de uma eleição indireta para o chamado “mandato tampão”, que cobre o período entre a saída do governador e o fim do mandato, em dezembro. Funciona assim: os partidos indicam seus candidatos, e a escolha é feita por votação secreta entre os 70 deputados estaduais. Traduzindo: caberá exclusivamente aos parlamentares decidir quem governará o estado até o fim de 2026.
Tem mais. Entre o período do afastamento do governador e a eleição indireta via Alerj, deverá comandar o estado – pelo prazo que durar o trâmite – o desembargador Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça do Rio. O próprio Cláudio Castro já teria avisado a Couto que se afastará para concorrer ao Senado. Segundo uma fonte, Ricardo Couto deverá ficar no cargo por dois meses até dar posse ao governador eleito de forma indireta.
Bacellar, carta fora do baralho
Quando Thiago Pampolha foi indicado para o TCE, o acordo costurado nos bastidores políticos previa um caminho aberto para Rodrigo Bacellar (UB), então presidente da Assembleia Legislativa, chegar ao Palácio Guanabara. A estratégia era simples: Cláudio Castro deixaria o cargo, e Bacellar seria eleito governador em uma eleição indireta para o “mandato tampão”. No comando do Estado, ele pretendia usar a máquina pública para se fortalecer e disputar a eleição de outubro com Eduardo Paes.
O plano, no entanto, foi interrompido de forma abrupta. Bacellar foi preso no início de dezembro e afastado da presidência da Alerj por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele é suspeito de ter vazado informações ao então deputado TH Joias (MDB), preso pela Polícia Federal sob suspeita de integrar o Comando Vermelho, atuando como elo político da facção criminosa.
Dias depois, Bacellar foi solto após decisão do plenário da Alerj, que, por maioria, votou pelo relaxamento da prisão. Mesmo em liberdade, Bacellar pediu afastamento do mandato e ainda não retornou aos trabalhos legislativos. Atualmente, quem comanda a Assembleia é o vice-presidente Guilherme Delaroli, que deve ser confirmado no cargo de forma definitiva.
Nicola é cotado para assumir
Pouquíssimos leitores do aQui – e a população em geral – devem ter ouvido falar de Nicola Miccione. Recém-filiado ao PL, partido de Cláudio Castro e da família Bolsonaro, Nicola é servidor de carreira do Banco do Nordeste, formado em Direito pela Universidade Federal do Ceará. Desde 2020, ocupa a Secretaria Estadual da Casa Civil.
Discreto e avesso aos holofotes, Nicola é um dos homens mais próximos do atual governador. Cabe a ele a articulação interna do governo, coordenando políticas públicas entre as secretarias. Nos bastidores, é tratado como o nome mais forte do governo, logo abaixo de Castro.
Agora, Nicola Miccione desponta como o principal cotado para assumir o governo do Estado a partir de abril, caso Cláudio Castro confirme sua saída para disputar o Senado. “Cláudio Castro quer alguém alinhado à sua política para concluir o mandato. Nicola é o principal nome. Já há relatos dentro da Alerj de que o governador e o secretário de Governo, André Moura, estão articulando sua eleição”, afirmou uma fonte do aQui com trânsito no Parlamento estadual. “Apesar de pouco conhecido pela população, com o apoio da máquina do governo, ele hoje aparece como favorito.”
Felipe Couri corre por fora
Nos corredores políticos, um novo nome surgiu nos últimos dias na corrida pelo “mandato tampão”. É o do secretário de Polícia Civil, Felipe Couri. Ele, que foi apadrinhado para o cargo pelo senador Flávio Bolsonaro, seria o indicado da família do ex-presidente para o cargo. Para isso, entretanto, seria necessário convencer o atual governador de que Couri seria o melhor nome para dar prosseguimento ao atual mandato.
Couri ficou famoso, e ganhou mais pontos ainda com a família Bolsonaro, ao comandar a Operação Contenção, em outubro, que deixou mais de 120 mortos no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro. Oficialmente, a operação visava conter o avanço do Comando Vermelho. “Ele é um nome próximo a Flávio Bolsonaro e, diferentemente de Nicola Miccione, seria candidato em outubro de 2026. Ele se sentaria na cadeira de governador já pensando na eleição”, disse uma fonte.
As próximas semanas deverão decidir quem irá se sentar na cadeira mais importante do estado do Rio. E, de certo, o futuro do Rio de Janeiro está nas mãos – e nos votos – de 70 deputados. Estão com a faca e o queijo na mão.



