‘Temos prefeito eleito?’

Juliana Carvalho, do Psol, contesta estratégia de Neto para vencer a eleição

Vinicius de Oliveira

EEm Volta Redonda, embora Neto (DEM) tenha se consagrado como vencedor no primeiro turno, a professora de História Juliana Carvalho, do Psol, também tem muito o que comemorar. A começar pelo fato de ter se consagrado como o principal nome da esquerda voltarredondense, deixando na lanterna figuras históricas do município, como a petista Cida Diogo, o comunista Alexandre Habibe – que é professor universitário – e ainda o ex-presidente da OAB local, Alex Martins, ligado à Igreja Católica. Além disso, a psolista, como faz questão de frisar, foi a mulher mais votada nas eleições de 15 de novembro.

Para Juliana, o crescimento do Psol na cidade do aço tem a ver com o histórico do próprio partido, cujos filiados militam em movimentos sociais, o que lhes garante conhecimento direto na fonte dos problemas enfrentados pelos voltarredondenses. “Bem, para analisar a projeção que o PSOL de Volta Redonda demonstrou nessas eleições, é preciso partir de como o PSOL atua na cidade. Independente de eleições, a inserção do partido em movimentos sociais permite tomar conhecimento das demandas e pensar soluções de forma coletiva”, analisou.

Outro ponto levantado pela socialista para explicar a votação que teve (3.588 votos) foi sua participação nos debates promovidos ao longo da campanha por emissoras de rádio e TV e entidades representativas da sociedade civil organizada. “Neste aspecto, foi muito importante o PSOL ter podido participar dos debates na televisão, a gente sabe das dificuldades das pessoas em terem acesso à informação e a TV ainda é o principal meio de se saber o que está acontecendo para grande parte da sociedade. Bastou que o PSOL tivesse a possibilidade de mostrar sua cara e a qualidade de seu programa para o crescimento acontecer naturalmente”, crê.

Vale lembrar que Juliana Carvalho protagonizou os momentos mais tensos dos debates que movimentaram as eleições. A começar com Granato, quando a jovem acusou o ainda vereador de corrupção por usar sua antiga instituição, na Rua São João, que oferecia, entre outros, serviços odontológicos gratuitos como uma “verdadeira usina de votos usando dinheiro da Câmara”. Granato, é claro, não gostou do ataque e partiu para o deboche, chamando Juliana de desinformada, ameaçando processá-la. Queria até que a Justiça quebrasse seu sigilo telefônico para descobrir quem era seu informante. Não conseguiu.

A psolista também teve rusgas com o bolsonarista Hermiton Moura. Ambos discutiram sobre governos de esquerda de outros países e Juliana deu uma verdadeira aula de História colocando seu adversário numa saia-justa intelectual. “Não é possível transferir governos de regiões e contextos diferentes”, pontuou a professora.

Ademar Esposti, vice de Dayse Penna, que queria ter dado tapas no bumbum de Samuca por ter, segundo ele, abandonado os idosos da cidade, acabou levando um puxão de orelha de Juliana, digno de causar vergonha alheia. A candidata do Psol, em um dos debates, fez questão de lembrar ao “cabeça branca” que sua candidata era a responsável pela secretaria que deveria cuidar dos idosos no atual governo.

Teve embate até com Samuca Silva, no finalzinho do último debate da Band. Juliana Carvalho, mostrando que não tem papas na língua e que gosta de incomodar, chamou o atual prefeito de genocida por ter demitido mais de 300 funcionárias da limpeza e da merenda escolar, em pleno auge da pandemia. Mesmo Samuca prometendo que elas voltariam a seus postos de trabalho, o estrago já estava feito.
O furacão Juliana conseguiu superar as expectativas do próprio partido. Nas últimas eleições, o então candidato do Psol, Danilo Caruso, conseguiu 2.133 votos, enquanto Juliana quase que dobrou esse número. Ela garantiu para a sigla do sol nada mais nada menos que 3.588 eleitores. “Isso significa um aumento de 70%, sendo que Danilo, na época, não concorreu com Neto e nem com outro candidato forte da esquerda”, ponderou um figurão do partido.

O futuro
Como a situação política da cidade do aço continua instável, já que o prefeito eleito não sabe ainda se poderá tomar em virtude de ser considerado pela justiça eleitoral inelegível, pois teve suas contas reprovadas pela Câmara, Juliana avisa que o clima eleitoral permanece até segunda ordem, dando a entender que poderá voltar à corrida caso Neto seja impedido de governar, o que anularia as eleições municipais. “Existe uma questão muito importante que precede esta pergunta: essas eleições acabaram? Temos um prefeito eleito? Enquanto não houver uma decisão final, não dá para considerar que as eleições acabaram”, pondera.

Para Juliana, Neto preparou uma armadilha para os eleitores voltarredondenses ao levá-los a acreditar que poderia tomar posse mesmo sendo inelegível. “Nessas eleições, as pessoas buscavam por segurança; o mandato do Samuca foi tão ruim, que as pessoas ficaram traumatizadas com novos nomes e caíram numa armadilha”, atacou, indo além. “Infelizmente Neto, que tenta relativizar sua ficha suja, usou da fragilidade emocional das pessoas causada pela pandemia para trair a memória do eleitor. As pessoas se esqueceram que no último mandato do Neto a cidade estava se deteriorando, era trabalhador autônomo apanhando da guarda por tentar trabalhar, Beira-Rio toda esburacada e o péssimo governo do Samuca ajudou Neto na sua lavagem cerebral”, disse.

“Assim, o nome Juliana Carvalho, por tudo que representa na cidade e pela potencialidade que mostrou nas eleições, é muito importante para o partido e será um instrumento para ecoar as decisões coletivas elaboradas pela voz das ruas que os poderosos insistem em calar”, prometeu a professora.

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