Só Deus…

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Vinícius de Oliveira

Coisas inimagináveis podem acontecer em 140 dias. Vão de massacres sangrentos nos EUA; guerra na Síria; sumiço de submarinos; ditaduras ruindo, menos a da Venezuela; um vulcão entrando em erupção depois de três milênios adormecido; a primeira Barbie mulçumana aparecer; e até a morte de Stephen Hawking, um fenômeno. Também pode acontecer de um ex-presidente ir para a prisão. Só uma coisa não acontece: uma mercadoria (ou uma conta) ser entregue pelos Correios no prazo certo. Segundo a voltarredondense Thaismara Moreira, todos os fatos históricos relatados aconteceram enquanto ela aguardava uma simples encomenda (uma camisa do Patriots, time americano) chegar em sua casa.

 

A jovem conta que foram 148 dias corridos, de agonia, vendo o mundo dar cambalhotas na história enquanto sua mercadoria, que não pesa nem um quilo, permaneceu à deriva no imenso oceano de incompetência que inunda e paralisa os Correios do Brasil. “Eu encomendei a camisa de um site na China no dia 23 de novembro de 2017, com prazo de entrega de até 40 dias úteis. Eu queria a camisa para assistir à final do campeonato, que foi em meados de fevereiro deste ano. Tecnicamente falando, o prazo era suficiente pra isso. Mas foi uma novela”, reclamou Thaismara, lembrando-se da ansiedade que a tomou. “Eu comprei através de um intermediário, logo, quando precisei cobrar, entrei em contato com ele e ele correu atrás dos Correios (ou pelo menos foi o que me disse). Explicou que a demora era por conta da época do Natal e, com muitos pedidos, atolou tudo na alfândega. Cheguei a pensar na hipótese de desistir da compra duas vezes”, contou.

 

Thaismara não está sozinha. Não é de hoje que os consumidores se queixam do atraso na entrega de encomendas e correspondências pelos Correios, mas o problema vem se agravando ao longo do tempo. Para se ter uma ideia, no Reclame Aqui, site brasileiro de reclamações sobre atendimento, compra, venda, produtos e serviços, a empresa brasileira é classificada como “não recomendada” – a pior recomendação dentre as disponíveis na plataforma. Em um ano, mais de 55 mil pessoas reclamaram dos serviços prestados pelos Correios. Detalhe, nenhuma das reclamações foi respondida até o fechamento desta edição.

 

Quem faz compras em sites de outros países, como foi o caso de Thaismara, sofre ainda mais com o atraso na entrega. E quando algo do tipo acontece, não adianta utilizar os canais de reclamação disponíveis no seu site oficial ‘Fale com os Correios’. Quem tenta, se depara com uma série de formalidades e burocracias capazes de acabar com as esperanças e a paciência de qualquer um. O formulário para registro dos pedidos de informações é extremamente extenso e confuso. Outro ponto angustiante é que normalmente a resposta aos pedidos de informações é fruto de textos prontos, sem informações relevantes sobre o problema específico e o recebimento pode demorar a partir de cinco dias úteis.

 

Uma das explicações mais óbvias para os problemas dos Correios é a ‘alegada falta de funcionários’. A empresa, que detém o monopólio postal no Brasil, não realizou nenhum concurso para contratação de funcionários desde 2011. Soma-se a isso o fato de os Correios terem aberto diversos programas de demissão voluntária no ano passado, numa tentativa de reduzir custos. O resultado é que a empresa, que um dia foi uma das mais eficientes do país, hoje não passa de uma porca leiteira obesa. Mas qual seria a solução?

 

Para o deputado federal Deley de Oliveira, a solução está na abertura do mercado. “Um caso para ser levado em conta é abrir o setor de correspondências ao setor privado. É certo que haverá interesse nos grandes centros e, por outro lado, pequenos municípios deixarão de ser atendidos. O mercado privado, em regra, visa exclusivamente o lucro e, portanto, não haverá interesse no fornecimento de serviço postal naquele município em que haja apenas 10 pedidos por mês, e cujo frete para ser entregue será mais caro do que o próprio pedido. Nesse nicho, os Correios permaneceriam”, sugeriu Deley.

 

Questionado se já havia pensado em elaborar um Projeto de Lei emendando a Constituição justamente para acabar com o monopólio dos Correios, Deley disse que não, pois teme que a empresa brasileira caia nas mãos de multinacionais que não se preocupam com o desenvolvimento do país nem com os consumidores locais. “Não pensei. E mesmo sem focar nesta pauta de forma intensa, certamente esse mercado cairá na mão de grandes empresas internacionais que não estão preocupadas se o João do pequeno vilarejo recebeu seu remédio, mas, tão somente quantos milhões estarão lucrando com essa atividade. Os Correios também possuem fundamental papel social, pois estão presentes em todas as cidades brasileiras. Também, porque são verdadeiros parceiros nos projetos desenvolvidos por prefeituras, com divulgação de eventos sociais, entre outros”, justificou, frisando que não é totalmente contra uma possível privatização dos Correios. “Sou a favor de discutir”, pontua.

 

Para conseguir sobreviver à morosidade dos Correios, empresários estão buscando alternativas como contratar os serviços de transportadoras a fim de evitar prejuízos. É o caso de Elizabeth Vianna, da Aqui entre Nós, que usava os serviços dos Correios para enviar mercadorias para toda parte do Brasil. “Os valores de frete dos Correios estão altíssimos e o serviço é péssimo. Muitas caixas são extraviadas, além de sempre atrasarem as entregas. O prazo contratado raramente é cumprido”, explicou, afirmando que já conseguiu enviar suas mercadorias por preços abaixo dos cobrados pela empresa brasileira. “Tem saído mais barato em muitos casos, pois tenho usado o ‘Melhor Envio’, que é um serviço que cota valores de diferentes transportadoras e que oferece descontos na maioria das vezes”.

 

Elizabeth conta que já passou por maus bocados por conta do péssimo serviço oferecido pelos Correios. “O mais recente foi um pedido que uma cliente fez em janeiro, já se adiantando por saber dos atrasos dos Correios, para a Páscoa. A encomenda não chegou até hoje (abril). Tive que enviar outra caixa, por Sedex, por minha conta, para que ela não ficasse insatisfeita. Até hoje não obtive retorno dos Correios nem fui indenizada”, reclamou.

 

Mas mercadorias não são as únicas coisas que se perdem nos escaninhos das entregas que só os Correios entendem. Contas e boletos de toda ordem, graças ao péssimo serviço que a empresa brasileira tem prestado ultimamente, andam sendo entregues na casa do consumidor com até semanas – ou meses – de atraso, acarretando juros e multas. Para falar sobre isso, o aQui procurou o Procon em Volta Redonda que foi taxativo: nada pode fazer a respeito dos atrasos.

 

De acordo com um dos coordenadores do órgão, Alexandre de Deus, embora o consumidor não tenha culpa de receber as contas com atraso, ele não pode se eximir de sua responsabilidade enquanto pagador. “Mesmo que a conta tenha chegado muito tempo depois do dia do seu vencimento, o consumidor sabe que teria de ter efetuado esse pagamento. Sendo assim, não podemos responsabilizar os Correios nem mesmo pedir reembolso para a prestadora de serviço cobradora”, explicou.

 

Alexandre garante que já está ficando comum as pessoas procurarem o Procon com reclamações contra os Correios. “Não temos dados específicos que ilustram quantas pessoas nos procuram, mas são muitas. E o que sempre explicamos quando chegam aqui é que os Correios não têm um canal específico para nos atender. Eles são intocáveis neste ponto. Em caso de extravio, por exemplo, a principal responsável é a empresa que efetuou a venda. Ela, se preciso for, será alvo de processo e não os Correios”, esclareceu o coordenador, frisando que quem pode abrir um processo contra os Correios seria a própria empresa fornecedora da mercadoria. “Ela (a empresa) escolhe de que forma enviará a mercadoria para seu consumidor, por isso ela é corresponsável em caso de extravio”, destaca.

 

Mas vale lembrar que, em caso de extravio, os Correios possuem uma tabela de indenização automática, com diferentes valores para cada modalidade de entrega, para o caso do objeto se extraviar durante seu envio. Se o valor do objeto for superior aos definidos na tabela, o remetente deve preencher uma declaração de valor antes de enviá-lo pelos Correios e pagar uma taxa. O serviço serve como um seguro da mercadoria.

 

Quanto à entrega dos boletos atrasados, fica o registro: As empresas que contratam os Correios podem estar se beneficiando do péssimo serviço dos carteiros. É que elas querem que os consumidores passem a receber as contas por e-mail para não serem punidas com juros e multas. Nesse caso, elas, as empresas, economizam a taxa de entrega dos Correios, e ainda o papel e a tinta que usam na impressão dos boletos. E não dão nenhum desconto para compensar a redução de custos que passam a ter toda vez que o consumidor aceita o envio via internet. 

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