‘Simpatizantes demais’

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Até pouco tempo, baladas GLS só aconteciam em ambientes restritos. Com portas fechadas a sete chaves, o público homossexual extravasava tudo aquilo que não podia fazer em público por receio de ser hostilizado e agredido. A presença de heterossexuais, principalmente dos homens, era quase inimaginável, talvez por sentirem-se ameaçados ou pelo puro preconceito de por os pés em um local cujo normal era ver pessoas do mesmo sexo se beijando. Mas isso mudou radicalmente. Prova disso foram os dois blocos com temática LGBT de Volta Redonda. Puxados pelas duas boates que atendem o público gay, os dois eventos bateram recordes de foliões e quem passou por eles jura que dentre os gays, os héteros se destacaram.

 

Segundo dados da Polícia Militar, só no bloco ‘Tô no Brilho’, organizado pelo Auê no sábado, 3, cerca de 15 mil pessoas transitaram pela Amaral Peixoto. Já o bloco LGBT da The Garden atraiu mais de 5 mil foliões, que animaram as ruas do Aterrado no dia 28. É impossível dizer quantos, dentre toda essa multidão, eram homo e quantos eram heterossexuais. A única certeza é que os públicos se misturaram, tornando-se um só, provando que a alegria não conhece gênero e nem orientação sexual.

 

Vale lembrar que o trânsito de héteros em ambientes GLS não acontece só no carnaval. O fato tem se repetido dentro das casas noturnas. O que antes era coisa rara tornou-se mais comum do que se imagina. Seja pelo preço da entrada, pela oferta de Open Bar (bebida liberada) ou mesmo pela música diversificada, é mais fácil tropeçar em um heterossexual dentro de uma boate gay do que em um travesti. O problema é que parte da comunidade LGBT, que sempre defendeu a liberdade e pregou a importância de se ocupar os espaços dominados pelos héteros, tem visto com preocupação a nova tendência.

 

Segundo o coordenador do Volta Redonda Sem Homofobia, Natã Teixeira Amorim, a entrada descontrolada de heterossexuais em boates gays ou até mesmo a participação deste público nos blocos carnavalescos com temática GLS representam perigo para os homossexuais. “As boates LGBT são um espaço para que esse público possa se divertir sem medo de sofrer repressões dessa sociedade homo-fóbica e intolerante, porém esses espaços ultimamente têm sido muito frequentados por pessoas heterossexuais que muitas vezes chegam a ser mais do que o público LGBT. Para os empresários, é um benefício ter a casa cheia, pois representa lucros maiores, mas para a população LGBT muitas vezes é um incômodo”, reclamou Natã.

De acordo com o coordenador da ONG, quem mais sofre são as lésbicas. “Se não ficarem de olhos abertos, sofrem repressão a qualquer momento num local que poderiam chamar de seu. Falo em especial para o público de lésbicas, que levam puxões de braços e ouvem todo tipo de piadinhas”, denunciou Natã, afirmando que os abusos têm sido recorrentes. “Nos últimos meses estamos presenciando isso não só em boates e clubes, mas principalmente nos blocos de carnaval, onde a organização tem que ser cada vez mais rigorosa na hora de pensar na segurança”, avalia.

 

Natã acredita que os empresários deveriam se precaver mais e dar preferência para profissionais da área de segurança que entendam e respeitem o público LGBT. “Esses profissionais devem estar preparados para lidar com esse público, respeitando suas diferenças, afinal, não adianta ter um segurança intolerante. Em 2015 e 2016 registramos diversas queixas de LGBTs que sofreram repressão seja por separação de filas por sexo, assédios e falta de respeito por parte de segurança de estabelecimento. Temos em mente realizar um trabalho de conscientização com as casas noturnas sobre o respeito e a tolerância”, disse.

 

Natã diz que reconhece o fato de os empresários não poderem ‘barrar’ a entrada do público hétero nas boates gays, mas pede bom senso. “Acredito que essa aproximação desse público se dê por conta da música, preços mais acessíveis e principalmente entradas gratuitas com brindes durante a noite. Só que, infelizmente, algumas questões fogem do controle dos proprietários, que não podem impedir um hétero de frequentar o local, mas é preciso lembrar que esses espaços de entretenimento antigamente eram restritos ao público LGBT, mas hoje em dia é importante acolher qualquer pessoa independentemente de sua orientação sexual/identidade de gênero”, opinou.

 

Ao contrário de Natã, Fábio Fernandes, administrador do Auê, acredita que a presença massiva de héteros em ambiente antes exclusivo dos homossexuais representa mais do que lucro. É um avanço no que diz respeito à tolerância. “Fico feliz com essa fusão, não pelo lado financeiro, mas por uma questão de lógica mesmo. As pessoas precisam ser livres, se sentir bem em todos os lugares e não somente no lugar destinado para elas. Respeito é primordial em qualquer lugar”, defende.

 

 “Teremos um lindo futuro pela frente. As coisas não são mais como eram antes, graças a Deus. A evolução foi muito rápida, creio eu que se deu por conta da internet e da velocidade das informações. As pessoas estão mais informadas sobre seus direitos, sobre o preconceito; isso abriu muito a mente das pessoas. Acho que daqui a um tempo não vai mais existir essa separação de lugar hétero e lugar gay, até porque nunca existiu, né?! Não é porque estou em um clube hétero que não posso ser gay e vice-versa”, completou Fábio.

 

Para o empresário, ser contra a junção dos dois públicos num mesmo espaço vai contra os conceitos de liberdade e respeito. “Isso é um absurdo. Como eu disse: sou a favor da liberdade e do respeito ao próximo. O machismo ainda é muito presente em todos os lugares, o preconceito já é mais velado, porém quem sofre nunca passa despercebido. O Auê é um clube LGBT em funcionamento há 30 anos; de uns tempos para cá o público mudou muito, muitos jovens passaram a conhecer e frequentar. As casas precisam estar preparadas para receber e informar esse novo público. Nosso clube optou por uma placa logo na entrada do estabelecimento informando a todos que entram no local que o espaço é destinado ao público LGBT e não toleramos nenhum tipo de preconceito”, afirmou.

 

Ainda de acordo com Fábio, todos os funcionários que trabalham no clube entendem as especifi-cidades do público LGBT justamente para reprimirem possíveis abusos. “Nossos funcionários também são treinados para dar suporte a qualquer cliente que se sentir lesado diante de qualquer tipo de situação”, comentou, frisando que o estabelecimento utiliza a ‘Patrulha do Auê’ como forma de intensificar ações contra a homofobia. “Outra forma que nosso clube aderiu foi a criação da Patrulha do Rolê. As drag queens Stacy e Lilly Riuby são responsáveis pela patrulha, que toda noite faz sua ronda no clube, garantindo a diversão de todos”.

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