‘Sem conversa’

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“Colocar um horário mais elástico para o comércio é o que vai fazer vender mais? O povo está sem dinheiro”. Foi com essa frase, em tom de desabafo, que o presidente do Sindicato dos Empregados do Comércio de Volta Redonda, Roberto Galo, resumiu a lei – proposta pelo prefeito Samuca Silva – de flexibilizar o horário de funcionamento do comércio local. A mudança da legislação foi aprovada na terça, 2, em regime de urgência e preferência na Câmara de Volta Redonda. Com a aprovação do projeto de Lei, todas as lojas, não importa o tamanho – poderão abrir e qualquer horário – desde que respeitem as leis trabalhistas.

 

Poderão, por exemplo, abrir na tarde de sábado, aos domingos, feriados, por 24 horas até mesmo no Natal ou Carnaval. Poderão até fechar no horário do almoço para a tradicional ‘siesta’, comum em países europeus. O ‘x’ da questão é que a proposta de Samuca só agradou aos empresários. Não caiu nas graças dos funcionários do comércio. Pior. O assunto sequer foi debatido com quem devia: com o Sindicato dos Comerciários.

 

Em entrevista exclusiva ao aQui, Roberto Galo disse não entender porque a lei Samuca foi aprovada a toque de caixa. “Foi um Projeto de Lei que ninguém teve conhecimento, nem a imprensa. Foi votado na calada da noite. Até alguns vereadores não sabiam o teor da proposta. Ninguém procurou o sindicato, que é o representante do comerciário”, lamentou Galo.

 

Não satisfeito, o presidente do Sindicato protocolou um ofício na Câmara de Volta Redonda solicitando uma cópia do Projeto de Lei e a ata da votação, o que ainda não tinha ocorrido ate o final da tarde de ontem, sexta, 5. Questionado se entrará na Justiça contra a mudança no horário do comércio, Galo ressaltou que vai esperar receber a documentação pedida. “Ainda não sei o que pode ser feito, vamos analisar”, comentou Galo deixando uma pergunta. “Qual a necessidade de se votar esse projeto com urgência? Não entendi. O que é horário livre? O comércio tem que ter horário, tem que ter disciplina”, destacou.

 

Ele vai além. Lembra que também existe outro fator a ser levado em conta: o da (in) segurança pública. “A cidade é grande, tem muitos bairros, como vai ser feita a segurança? Temos que saber se a Guarda Municipal e a Polícia Militar estarão no comércio. E também precisamos saber quem irá fazer a fiscalização (dos empresários)”, disse. “Nós temos preocupação e respeito para com o comerciário, temos o problema da segurança. Tem muitas pessoas que estudam a noite, fazem faculdade. Como vai ser com o horário mais elástico?”, questionou.

 

De acordo com Galo, nem depois da polêmica lei ter sido aprovada a toque de caixa, ele chegou a ser procurado pelo prefeito Samuca ou por outra pessoa do governo. “Ele está se achando o todo poderoso. Mas está muito verde para se sentir maduro”, ironizou. Questionado se acredita que os empresários que fazem parte do governo verde possam ter influenciado o chefe do Executivo, Galo afirmou não ter dúvida. “Eu não acho isso, tenho certeza. Depois vamos dar os nomes aos bois”, disparou. “O que eu quero é que ele (prefeito) tenha a hombridade de explicar o porquê dessa lei, e baseado em qual estudo? Que diga se a GM e a PM estarão nas ruas. Ele tem que explicar. Só estou lutando pelo comerciário”, completou.

 

O presidente do Sindicato dos Comerciários aproveitou para dizer que é contra o comércio funcionar em horário livre. “Por mim pode funcionar 24 horas, mas tem que disciplinar, tem que dialogar com o comerciário”, ponderou, explicando que um evento que a prefeitura de Volta Redonda promoverá amanhã, domingo, 7, na Avenida Amaral Peixoto, já vai ocorrer em horário irregular. “Nossa convenção coletiva diz que o comércio pode funcionar domingo das 9 às 15 horas e, pelo o que parece, eles vão fazer isso até as 17 horas”, disparou. “O comerciário quer respeito. Quem são eles para mudar uma lei assim empurrando a goela abaixo? O que queremos é sentar e conversar e ver o que é melhor para todos”, concluiu.

 

Toque de caixa

Apesar de não ter debatido com o Sindicato dos Comerciários, o prefeito Samuca Silva comemorou a aprovação da Mensagem 007/2017. “Todos os vereadores entenderam a importância da alteração desta lei, que estava defasada há quase 40 anos. Vale lembrar que os empresários têm que respeitar a lei trabalhista, que diz que os comerciários devem ter carga de 44 horas semanais”, garantiu, deixando claro que espera que os direitos trabalhistas sejam mantidos. “A lei, além de gerar horas extras aos atuais funcionários, deve gerar novos postos de trabalho”, crê.

 

Como não poderia deixar de ser, quem também comemorou a aprovação da nova redação da lei foi o secretário de Desenvolvimento Econômico, empresário Joselito Magalhães que até bem pouco tempo tinha pelo menos duas lojas na cidade do aço. “Isso será bom para todos: a população terá mais opções de compra; os vendedores poderão receber horas extras ou gerar novos empregos e os empresários terão suas vendas aumentadas”, ressaltou o assessor de Samuca, que também é presidente da Aciap-VR.

O que eles não revelam é que o comércio amarga um senhor prejuízo. Um lojista da Amaral Peixoto, com várias filiais pela região, não esconde de ninguém que não espera por dias melhores. Nem com as ações do Palácio 17 de Julho. “Foi o pior trimestre da minha vida. Nossas lojas não venderam nada simplesmente porque os consumidores estão quebrados. Ninguém tem dinheiro”, avalia, dando razão, mesmo que de forma indireta, a Roberto Galo, presidente do Sindicato dos Comerciários de Volta Redonda.

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