Sem comida

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Roberto Marinho

Ele já foi o herói de muitas conquistas para Volta Redonda – conquistou títulos estaduais e nacionais, assim como o medalhista Tiago Pereira. Foi além. Cumpriu seu dever com muita competência e elegância. Competiu com os melhores e sempre se destacou. Fez mais. Mostrou que mesmo em uma cidade operária o hipismo, como esporte, poderia sobreviver e abrir um novo mundo, com novas possibilidades, entre elas o doce gosto da vitória.

 

Estamos falando de Gerânio, um mangalarga puro sangue que, diferentemente de Tiago – vivendo tranquilamente nos EUA -, vive triste, sozinho, sem amigos, e sem os flashes das câmeras e celulares. Pior. Passa fome, como centenas de ex-operários da CSN, desempregados e sem ter o que comer de manhã e à tarde. Está, inclusive, mais magro. Bem mais magro. Tudo por conta de uma dieta forçada a que teve que ser submetido.

 

Gerânio é um vitorioso cavalo da Escola de Hipismo de Volta Redonda, reconhecida pela Confederação Brasileira de Hipismo como a única escola pública do gênero no Brasil, mas que está fechada desde o início da era Samuca. Motivo: falta de verbas. Aliás, se o prefeito tiver coragem, poderá vender o ‘passe’ de Gerânio, que na bolsa dos craques de quatro patas está avaliado em R$ 120 mil, dinheiro suficiente para manter a escola por um bom tempo. 

 

Enquanto o dinheiro não sai e não chega, Gerânio vive em uma baia na Ilha São João – onde funcionava a sede do projeto – junto com os outros sete cavalos de propriedade da prefeitura de Volta Redonda que compõem o plantel da finada Escola de Hipismo. Triste, o animal sente falta dos alunos da escolinha, cerca de 150 crianças e adolescentes das escolas públicas da cidade do aço. Detalhe: que conquistaram sete campeonatos cariocas e três brasileiros, na categoria ‘Concurso de Escolas de Equitação – CEE’, competindo com representantes de escolas de maior tradição e muito mais recursos, como a do Jockey Clube do Rio de Janeiro, da Sociedade Hípica de São Paulo, além de colégios militares.

 

Com a escola fechada no início do ano, os cavalos companheiros de Gerânio ficaram meio perdidos no espaço-tempo da burocracia, já que parte deles pertence à Fundação Beatriz Gama (FBG) e parte à secretaria de Governo. Por conta da confusão – que no final das contas foi resolvida, com todos os cavalos sendo ‘lotados’ na FBG –, os animais foram ficando meio esquecidos. E se não fosse a boa vontade do tratador responsável, os bichos poderiam muito bem ter morrido de fome. Felizmente não morreram.

À base de capim

A situação dos animais chegou a ser crítica. “Se vocês não fizerem nada, os cavalos vão morrer. Eu não tenho mais condições de comprar comida para eles”, teria dito um dos responsáveis por Gerânio & Cia. Na época, segundo fontes, a crítica fez com que Samuca acabasse fazendo uma visita à famosa Escola de Hipismo de Volta Redonda, que estava fechada. E o prefeito garantiu que liberaria recursos para a compra de ração e feno para os animais. Isso foi feito. Mas, sabe-se lá porque, a ração só deu para duas semanas. Teria que durar um mês.

 

Os animais, que eram alimentados pelo menos três vezes ao dia, passaram a comer só pela manhã e à tarde. Ficaram sem o almoço. Pior. O feno sumiu e eles estariam sendo alimentados com capim, que provoca problemas no sistema digestivo dos cavalos. Alias, duas éguas do plantel, segundo fontes ouvidas pelo aQui, mais idosas, não suportaram bem a dieta forçada e emagreceram muito, a ponto de correrem risco de vida. Graças ao cuidado e dedicação dos tratadores, pouco a pouco estão se recuperando. Já estão se acostumando e não sentem tanto as intensas cólicas que a mudança na dieta provocou. Melhor para elas, já que não recebem a visita regular de um veterinário desde o início do ano.

A esperança é a última…

Apesar dos pesares, uma mudança já pode ser vista além da Ilha São João. É que existem boatos de que a Escola de Hipismo poderá voltar a funcionar já a partir de segunda, 18. A prefeitura teria, inclusive, contratado um novo treinador, que seria um veterinário, proprietário de uma fazenda em Dorândia, distrito de Piraí. Ele assumiria o posto que era do idealizador e coordenador do projeto, o técnico Rodrigo Boghossian, que se mudou com a família para a Califórnia, nos Estados Unidos.

 

Mas não é todo mundo que anda acreditando nessa história. “Acho muito difícil que isso aconteça”, disse uma fonte ouvida pelo jornal, que acrescentou: “Não há movimentação alguma na escola, acho que eles (prefeitura) não vão conseguir se mobilizar a tempo”, disparou.

Sem saber se será negociado para um clube estrangeiro ou se vai renovar contrato com a Escola de Hipismo de Volta Redonda, Gerânio segue triste da vida, dividindo espaço com os cavalos que integram o seu clube de coração, o Voltaço, das cores amarela, preta e branca. Passa o tempo a sonhar com dias melhores.

 

Prefeitura nega qualquer irregularidade

 

Procurada pelo aQui, a prefeitura de Volta Redonda nega qualquer irregularidade na alimentação dos cavalos da Escola de Hipismo e garante que já fez as licitações necessárias – devidamente publicadas no Diário Oficial – para efetuar a compra dos alimentos. Desmente que tenha “se servido de doações de terceiros”, e jura que os animais estão sendo acompanhados regularmente por veterinários.

 

Em relação à quantidade de ração e a dieta forçada que os animais estariam sendo submetidos, a prefeitura afirmou que a alimentação adequada é estabelecida pelo veterinário. E que é “consumida todos os dias do ano, inclusive aos sábados, domingos e feriados”.

 

Sobre a falta de feno, a nota da prefeitura explica que os contratos referentes à alimentação e “fornecimento de água” estão sendo rigorosamente cumpridos, “conforme atestam os fiscais dos contratos a que se destinam”. Em relação à troca do feno por capim, a resposta foi que os animais “seguem dieta alimentar dentro dos padrões estabelecidos pelos veterinários que os assistem diariamente”. A prefeitura também diz que o acompanhamento “diário” pelos veterinários é registrado em fichas de controle próprias “quando necessário”.

 

A má notícia é que – conforme previa a fonte ouvida pelo aQui – a Escola Municipal de Hipismo não retorna à atividade nesta segunda, 18. A boa notícia é que após o “breve recesso” – como diz a nota – de nove meses, a escolinha deve retomar as aulas no início do mês de outubro. A direção do projeto, segundo a nota, é realizada pela Fundação Beatriz Gama (FBG), em parceria com a secretaria de Educação e a secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Turismo.

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