‘Quem tem amigos não morre pagão’

Por Vinicius de Oliveira

Há quase duas semanas, a população do Sul Fluminense teve que eleger os integrantes dos Conselhos Tutelares de cada município. Em Barra Mansa e Volta Redonda, o que chamou a atenção foi o grande número de abstenções. Coisa de doido. Nem um terço dos eleitores votou. Na cidade do aço, por exemplo, município com mais de 200 mil pessoas aptas a votar, apenas pouco mais de seis mil exerceram esse direito. Cientes de que voltarredondenses e barramansenses não têm o hábito de eleger conselheiros, os candidatos foram às ruas pedir votos protegidos e indicados por ‘famosos padrinhos’. Com isso, só saíram vitoriosos aqueles que tinham ‘amigos’ bem relacionados na política ou nas igrejas.
Em Barra Mansa, Paolla Sapede foi a campeã dos votos entre 17 candidatos. Obteve, olhem só, 533 votos, graças, ao que tudo indica, à influência do marido, o vereador Renatinho. Segundo uma fonte, que pediu para não ser identificada, o parlamentar teria fretado uma van para transportar eleitores até as urnas, com a promessa de levá-los de volta às suas casas. “Renatinho presta serviços de segurança para a empresa, dona da van”, acusou a fonte com base em fotos que chegaram a circular nas redes sociais. Para ela, Paolla Sapede deve a eleição à articulação do esposo. “Ela não é conhecida por lutar e defender os direitos das crianças e dos adolescentes”, garante a fonte.
Justiça seja feita. Sapede até tentou se desvincular da imagem do maridão político usando como mote de campanha o nome ‘Paola da Pizzaria’. “Não foi o fato de ser da pizzaria que a fez vencer, mas, sim, às articulações políticas de seu marido. Graças a ele, ela teve o apoio até do Ademir Melo (foto)”, continuou a fonte. Ela foi além. “Eram várias Kombis. Na Vila Ursulino e Siderlândia as pessoas batiam na porta, oferecendo R$ 10 para o eleitor ir e voltar. ‘Você já garante o seu litrão (de cerveja, grifo nosso)”, diziam. Infelizmente ainda não podemos provar, mas várias denúncias a esse respeito estão no Conselho Municipal da Criança e do Adolescente”, jura a fonte.
O vereador Renatinho foi procurado e, claro, desmentiu toda a história. Garantiu, de forma categórica, que nem ele nem sua esposa compraram qualquer voto. “Eu desconheço essa história. Somos pessoas honradas e isso é um absurdo”, vociferou, mandando um recado para aqueles que espalharam os boatos. “Se essas pessoas tivessem visto algo do tipo, deveriam procurar o Ministério Público e fazer as devidas denúncias e não espalhar histórias”, disse.
Renatinho explicou até que não presta serviço para a empresa, a TNB Transporte, proprietária da van fotografada. “Eu conheço pessoas de lá, mas não presto serviço para eles”, garantiu o vereador, afirmando ainda que sua mulher foi eleita por méritos próprios. “Ela é bastante conhecida na cidade e trabalhou muito pelos votos. Não foi o fato de ser casada comigo que a elegeu. Inclusive, nem acho que deva se misturar política partidária com Conselho Tutelar”, emendou, confirmando, entretanto, que poderia apoiar a esposa caso ela resolvesse se candidatar a algum cargo de cunho político que não fosse o seu. “O vereador sou eu. Mas se fosse vontade dela, poderia, sim, apoiar uma candidatura dela pra prefeita ou deputada. Mas isso é algo que não conversamos e nem pensamos”, afirmou.
O aQui também procurou fazer contato com a TNB Transporte e a funcionária que atendeu a equipe de reportagem garantiu que a van que aparece na foto não estaria prestando serviços para Paolla Sapede, nem para Renatinho, no dia da eleição. Disse que tudo não passou de uma infeliz coincidência. “Se pegar a câmera da Polícia Civil, ali da área, você vai ver que o ônibus estava parado lá o tempo todo. O funcionário que faz o transporte dos outros funcionários da empresa chegou tarde (em casa). Ele foi para casa com o ônibus e parou ali. Inclusive, no domingo, ligaram para ele para saber se estava circulando com o ônibus para fins particulares e ele nem em casa estava”, relatou, completando. “Usaram de má fé a foto para prejudicar alguém, que não sei quem”, pontuou.
Em Volta Redonda, a eleição dos conselheiros foi mais tranquila, mas não significa que não teve o dedo – nem que fosse o mindinho – de padrinhos importantes que podem ter influenciado o resultado. Segundo outra fonte, que também exigiu anonimato, praticamente todos os dez eleitos contaram com o apoio de políticos voltarredondenses. Márcia Assistente Social, a mais votada com 605 votos, teria sido apadrinhada por três secretários do Palácio 17 de Julho. “Quem ‘comemorou’ a vitória dela foi o Marcão (Marcus Vinícius Convençal de Oliveira) e o Ailton (da Silva Carvalho), além da América Tereza que posou em santinhos pedindo voto para ela”, garantiu a fonte, emendando: “Denise Vieira, a segunda colocada (574 votos) teve apoio direto do gabinete do Jari e do Zé Augusto”, disse, referindo-se aos vereadores voltarredondenses.
A fonte revelou ainda que Bruninho Nicolau, que ficou em terceiro lugar com 566 votos, contou com a influência política do vereador Buchecha e de ninguém menos que o deputado estadual Gustavo Tutuca, que sonha em ser prefeito de Volta Redonda. A lista não pára. Juliana Ariella, eleita com 526 votos, seria aliada do vereador Pastor Washington, da Igreja Universal. “Temos relatos de que o pastor (Washington) teria dito que quem não votasse nela estaria envolvido com o diabo”, garantiu a fonte, afirmando também que Geraldinho do Gelo e o ex-vereador Luiz Soró teriam ajudado Ligia Penha a obter 441 votos, elegendo-a em quinto lugar.
Já o historiador Douglas Pereira teria sido apoiado, principalmente, pela esquerda de Volta Redonda. “Ele conseguiu 421 votos com a ajuda do PT e do PSOL”, revelou a fonte, afirmando que Maria das Dores Mota, a Dodora, teria sido uma de suas principais apoiadoras. “A Alessandra Oliveira só teve 374 votos porque o gabinete da vereadora Rosana Bergoni se dedicou em peso para elegê-la”, completou.

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