Prioridade de quem?

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O nome da nova polêmica em Volta Redonda é Prioridade. É que a prefeitura tem sido questionada por causa da parceria que a secretaria de Ação Social firmou com o ‘VR Sem Homofobia’ e com a Defensoria Pública para a realização de um mutirão para alteração de nome e gênero nos documentos civis de travestis e transexuais da cidade do aço. Conforme publicado na edição passada, o mutirão aconteceu de 1 a 11 de agosto, em todos os Centros de Referência em Assistência Social (Cras).

 

O secretário de Ação Comunitária, Maycon Abrantes (foto), defende a importância do mutirão. “A retificação de nome trata-se de alterar o nome e o sexo de documentos oficiais, registrados pelo gênero definido biologicamente, pelo gênero e nome escolhidos, o que contribui para a cidadania de travestis, homens e mulheres transexuais”, explicou Maycon, acrescentando que também trabalham a sensibilização aos familiares e humanização dos atendimentos referentes à assistência social, potencializando os momentos de interação com travestis e transexuais que estão fazendo a retificação civil.

 

Apesar da boa intenção, ao longo da semana muita gente questionou o foco das ações da secretaria de Ação Social. E o ponto principal foi a ‘Prioridade’. Alguns entendem que existem outras necessidades mais importantes para serem atendidas, especialmente em um momento de crise, no qual todos os recursos, sejam financeiros ou de pessoal, devem ser otimizados.

 

A Pastoral da Criança, por exemplo, questiona a situação da farinha multimistura, importante para crianças desnutridas. A farinha, fabricada pela cooperativa Coop Proalt, parou de ser adquirida pelo Palácio 17 de Julho e, óbvio, deixou de ser repassada para a Pastoral. Com a dificuldade, a cooperativa pode fechar as portas. “Este ano a prefeitura está segurando o pagamento. Passa por todas as comissões, mas não resolvem a situação. Nós estamos paralisados. Sem dinheiro para pagar os impostos, sem poder tirar certidão negativa de débito. Isso paralisou toda a produção”, desabafa a presidente da cooperativa, Luzinete de Jesus.

 

Na Ótica da Cidadania as reclamações se amontoam. Taiane Silva, por exemplo, diz que só conseguiu óculos para o filho com a ajuda de terceiros. “Meu filho usa óculos há mais de seis anos. Ele consultou em fevereiro e desde então está muito difícil para conseguir os óculos. Ele tem um grau de miopia muito forte e todas as vezes que ia na ótica nunca tinha o material. Nunca aconteceu isso, foi a primeira vez. Consegui os óculos com ajuda de terceiros”, revela.

 

Responsável pela Casa de Recuperação Desafio Jovem, que presta ajuda e suporte para dependentes químicos, o pastor Michael Costa de Menezes também diz que não recebe mais apoio do poder público para manter o atendimento aos 35 acolhidos. “Nós temos 35 internos, entre moradores de rua e dependentes químicos. A gente tem passado por dificuldades para manter essa casa aberta. A gente serve quatro refeições a cada interno por dia, totalizando 140 refeições por dia. Por mês são 4.340 refeições. A gente tem mantido o projeto com a ajuda de várias pessoas, mas não temos ajuda de qualquer órgão público. Pelo contrário, nunca nos ajudaram em nada”, declarou o pastor.

 

No Portal Transparência da prefeitura de Volta Redonda, o relatório de despesas mostra que para o Fundo Municipal de Assistência Social foi empenhado – para 2017 – o valor exato de R$10.652.338,85. Só que R$5.034.421,06 foram anulados. O curioso é que o relatório mostra o pagamento de R$3.293.127,52, mas não detalha as despesas.

 

O programa Bom Dia 88, da Rádio 88FM, debateu o assunto ontem, sexta, 11. Para o pastor Kennedy Fábio, as prioridades estão invertidas. “Se perguntar à população, a maioria vai dizer que esta não é a prioridade. Infelizmente a minoria está prevalecendo sobre a maioria”, declarou.

 

A advogada Andréia Mendes também questiona a prioridade adotada pela gestão Samuca. “A gente fala em prioridade. Mas prioridade de quem? Quando elegemos um mandatário precisamos ver quais são suas bandeiras, quais são suas alianças. Entendemos então que prioridade do município é a prioridade do prefeito, e não da população. Isso está certo? Todo ano a Defensoria Pública e o VR Sem Homofobia fazem esse mutirão. Mas somente esse ano é que a prefeitura resolveu fazer esta parceria. Então, apesar de existirem outros serviços essenciais, percebemos que essa é a prioridade dele (Samuca, grifo nosso)”, conclui.

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