Pouco mudou

Por Roberto Marinho

O novo e badalado estacionamento rotativo de Volta Redonda, batizado de ‘VR Parking’, está funcionando há cerca de dois meses, e muitos motoristas notaram a diferença: realmente está mais fácil encontrar vagas na Vila Santa Cecília e na Avenida Amaral Peixoto, únicos locais que até agora foram aquinhoados com a novidade de ‘primeiro mundo’, como Samuca gostaria que fosse. E que desse certo, é claro.
Mas a modernidade de usar um APP (aplicativo) para reservar e pagar pelas vagas, por pôr fim “ao uso das moedinhas”, ainda não vingou. Se vai vingar ou não, são outras histórias. Não por culpa do governo Samuca, mas, até prova em contrário, da própria empresa que venceu a milionária concorrência para explorar um total de 5393 vagas de estacionamento na cidade do aço.
Graças ao Consórcio VR Digital, o que se viu até agora foi muita desinforma-ção, descaso para com os motoristas e, pior, aumento do valor da hora cobrada. Sem dizer que idosos e deficientes foram prejudicados com a implantação do novo sistema. Até o fim do ano passado, eles podiam, por exemplo, estacionar onde encontrassem vaga livre; hoje só podem parar nas vagas demar-cadas para eles. Se deixarem seus carros estacionados nas vagas comuns, sem pagar, serão multados.
Tem mais. Entre as principais reclamações dos usuários está a pouca quantidade de operadores – apelidados de ‘amarelinhos’, por conta da cor do uniforme que usam; o funcionamento confuso do aplicativo Digipare, obrigatório para quem quer fazer os pagamentos por conta própria; problemas no aplicativo para pagamento com cartão de débito; e ainda, a falta de várias facilidades anunciadas pelo VR Digital, como a reserva de vagas pelo aplicativo, painéis indica-tivos de vagas, etc. Os motoristas também cobram a ampliação do sistema para bairros como Centro, Retiro, e ruas próximas aos centros comerciais. Obviamente, reclamam do preço de R$ 2,50 a hora, considerado abusivo pela maioria dos motoristas.
O “único e mais moderno sistema de estacionamento do Brasil”, inclusive, não é uma grande novidade. A Areatec, uma das empresas que compõem o Consórcio VR Digital, atende mais de 50 cidades em todo o país com o Digipare., aplicativo que virou dor de cabeça para os usuários, pelo menos em Volta Redonda. Tanto que o governo Samuca foi obrigado a adiar o fim dos testes, marcado inicialmente para 20 de janeiro, depois para 27 do mesmo mês e até hoje ainda em fase experimental, sem multas aos infratores.

Sem respostas
Bem que o aQui tentou obter as informações necessárias para esclarecer o público, mas sem sucesso. Há quase um mês, o jornal enviou 10 perguntas para a secretaria de Comunicação (Secom) do governo Samuca, mas só três foram respondidas, e de forma telegráfica. Uma delas era se os motoristas que não estariam pagando já estariam sendo multados. “Não há multas, a Guarda Municipal não está multando”, respondeu a assessoria do prefeito.
Sobre o caso das vagas de idosos e deficientes – já que houve reclamações dos usuários nesse sentido -, a prefeitura de Volta Redonda respondeu, por meio da Secom, que “o número de vagas para idosos aumentou”. Segundo a assessoria, enquanto o Estatuto do Idoso prevê que 5% de vagas sejam destinadas a esse público, em Volta Redonda, 10% das vagas seriam para os idosos. “E gratuitas, situação que não acontece em grandes capitais”, responderam, esquecendo que, até o novo rotativo entrar em vigor, idosos e deficientes podiam parar em qualquer uma das 5393 vagas. Ou seja, podiam estacionar em 100% das vagas, e não apenas em 10%.
Mesmo questionada sobre a precariedade das informações enviadas ao jornal, a Secom não retomou o contato. Assim, o repórter buscou informações junto às empresas que formam o consórcio VR Digital – a Sinal Vida, de Recife (PE) e a Areatec, de Araras (SP) – no dia 11 de fevereiro. Depois de um contato com a empresa paulista, em menos de 20 minutos o repórter recebeu uma mensagem do gerente operacional do VR Parking, Hoffman Barbosa, que fica baseado em Volta Redonda.
Informado sobre o conteúdo da reportagem, Hoffman se mostrou disposto a responder. E por estar entrando em uma reunião, “em cinco minutos” retornaria ao chamado. Desde então, Hoffman sumiu.

Cobras e lagartos
Não foi só o aQui que teve dificuldades para obter informações sobre o VR Parking. Depois de receber uma série de reclamações dos seus ouvintes, o radialista Dário de Paula “desceu a lenha” no novo rotativo de Volta Redonda durante o programa de sexta, 14. “Nós mandamos mensagem para o supervisor geral do VR Parking depois que recebemos mensagem via Whats-App reclamando. Até agora, nada de resposta, nada. O detalhe é o seguinte: modernizar o sistema de estacionamento rotativo era um desejo antigo da população de Volta Redonda. Porém, os cidadãos não esperavam que a modernidade viria com um aumento de 150% no valor pago”, disse Dário, referindo-se ao preço de R$ 2,50 por hora cobrado atualmente. No sistema que vigorou até dezembro do ano passado, o valor era de R$ 1 por hora.
Outro ponto levantado pelos participantes do programa foi em relação às multas: os carros que estariam estacionados além do tempo permitido estariam tendo as placas anotadas pelos ‘amarelinhos’ (operadores), que supostamente estariam chamando os Guardas Municipais para autuarem os infratores. Vale lembrar que os fiscais do VR Parking não têm autoridade – nem autorização – para multar ninguém.
O aQui consultou um advogado que, sob a condição de anonimato, confirmou que os ‘amarelinhos’ não podem multar. “Acho que as pessoas contratadas pela empresa que opera o serviço não podem multar. Autos de infração que geram penalidades, como as multas pecuniárias, só podem ser lavrados pelos fiscais das áreas fiscalizadas, e têm que ser servidores públicos”, justificou.
Outro ponto levantado pelo advogado foi a possibilidade de surgirem ações judiciais envolvendo as multas do VR Parking, por motoristas que se sentirem lesados. “Penso que podem, sim, haver ações judiciais. Mas a questão é se um cidadão vai querer bancar um processo judicial para questionar uma multa de R$ 100, R$ 200”, pontuou. Ou seja, quem se sentir lesado por uma multa que julgar injusta ou irregular vai acabar assumindo o prejuízo.

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