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Nippon Steel pode ser sócia da CSN, que estaria disposta a vender até alguns ativos de infraestrutura

Há pouco mais de três anos, Benjamin Steinbruch apresentou ao mercado as estratégias para o crescimento da CSN a médio prazo. Na época, a verticalização dos ativos e a abertura de novos negócios dentro dos que já existiam seriam primordiais para a CSN, para transformá-la em uma empresa mais moderna e muito mais competitiva. Hoje, o foco é outro. É bem diferente do que foi apresentado três anos atrás. A curto prazo, Steinbruch só pensa em uma coisa: reduzir o endividamento do grupo, e, para isso, vai vender participações em ativos. Admite, vejam só, atrair um sócio para a área de siderurgia, envolvendo a Usina Presidente Vargas.

As novidades foram reveladas no último ‘CSN Day’ evento que a empresa realiza há alguns anos para divulgar suas estratégias a curto e médio prazo. O encontro foi em São Paulo, no dia 15 de janeiro, e Steinbruch anunciou que vai vender uma fatia do ativo de cimentos e dos negócios de infraestrutura. A ideia é arrecadar até R$ 18 bilhões (valor líquido, sem os impostos) para quitar metade da dívida da CSN. Espera, inclusive, chegar a arrecadar R$ 20 bilhões, segundo uma fonte ouvida pelo aQui

Vale lembrar que, no ano passado, Steinbruch vendeu pouco mais que 10% da mineração por R$ 4,4 bilhões e recentemente se desfez de um quinhão da MRS Logística, arrecadando mais R$ 3,3 bilhões. No entanto, os valores significaram apenas uma pequena parcela da dívida total, estimada em R$ 36 bilhões. Ou seja, ainda faltam alguns bons bilhões, e não será surpresa se a CSN também passar a se desfazer de ativos de infraestrutura. Seria o caso de negociar casas, hotéis da Rua 33, terrenos e até o Escritório Central (ver foto), localizado no coração da Vila Santa Cecília, entre outros imóveis em Volta Redonda.    

As novidades anunciadas por Benjamin Steinbruch soaram diferentes para um mercado completamente cético quando o assunto é redução da dívida. Porém, o homem de aço transmitiu confiança. “Nós estamos no momento mais importante da CSN, porque nos é prioritário resolver essa questão de alavancagem e estrutura de capital”, iniciou. “Resolvemos tomar essa decisão para desalavancar por volta de R$ 18 bilhões, equivalente à metade da nossa dívida. Já iniciamos com a venda da MRS (Logística), por R$ 3,350 bilhões, que vão ser complementados com a desmobilização de outros ativos”, avisou. 

Entre esses ativos, Benjamin Steinbruch anunciou que pretende vender o controle da CSN para um grupo asiático. Segundo apurado pelo aQui, as negociações teriam sido iniciadas com a japonesa Nippon Steel – que já fez um acordo comercial e societário com a CSN no passado. Em 2008, por exemplo, o grupo japonês integrou um consórcio internacional, junto com a Itochu e a JFE Steel, para negociar a aquisição de 40% da Namisa. Mais recentemente, a CSN Mineração e a Nippon se alinharam em cooperação para a descarbonização da siderurgia e o fornecimento estável de pelotas de minério para o Japão. Sem contar que a CSN foi acionista da Usiminas – empresa controlada historicamente pela Nippon. 

O nome da Nippon Steel – como grupo que está negociando com a CSN a participação na cimenteira – não foi falado abertamente por Benjamin Steinbruch durante o ‘CSN Day’. Ele, inclusive, disfarçou ao dizer que busca um parceiro internacional para o ativo, que pode ser um “asiático”, mas, logo em seguida – numa tentativa clara de despistar –, disse que também pode ser um grupo “europeu”. Mas a fonte do aQui afirmou que “a prioridade nas negociações será para os japoneses da Nippon”. 

Tem mais. Steinbruch também anunciou a intenção de negociar a participação da CSN na CSN Cimentos, hoje a segunda maior fabricante do país, atrás da Votorantim, com capacidade instalada de 17 milhões de toneladas por ano e um Ebitda (anual) de R$ 1,3 bilhão. 

Segundo o presidente da CSN, somente a venda do ativo ‘cimentos’ será suficiente para que a CSN ganhe fôlego. “Na minha opinião, o cimento resolve sozinho o problema do endividamento nosso”, disparou o executivo. “Mas vamos vender outras participações para termos uma sobra”, emendou rapidamente.

Além da cimenteira, Steinbruch espera vender participações em duas holdings de infraestrutura (uma no Nordeste e outra no Sudeste), e ainda encontrar um sócio estratégico para modernizar a UPV. Nesse quesito, a busca por um sócio asiático mantém a estratégia de buscar tecnologia para modernizar a Usina Presidente Vargas. O próprio Steinbruch admitiu que a planta de Volta Redonda é antiga e precisa de reestruturação tecnológica. “A siderúrgica do Sudeste precisa de investimentos em tecnologia, porque foi construída no século passado, então precisa ser modernizada. Vamos buscar uma forma de fazer isso fora do Brasil, com os asiáticos e os europeus. Vamos trazer modernização de uma maneira compatível com a sobrevivência do negócio”, prometeu. 

Quem ouviu Benjamin Steinbruch falar sobre a venda de ativos e participações, com vistas à desalavancagem financeira, surpreendeu-se. É que o presidente da CSN nunca gostou de se desfazer de suas empresas, tanto que, desde o anúncio da verticalização de ativos e a criação de novos negócios dentro dos que já existem (há três anos), ele fez diversas aquisições. Agora, com a meta de desacelerar a dívida e acelerar a execução do novo plano estratégico, Steinbruch está bem mais reticente. Suas declarações provam isso:

“Com o que estamos alavancando, vamos ter sobras de valor e condições de gerar recursos para continuar a crescer. Essa pequena parte que nós estamos desalavancando vai nos trazer um ganho de perdas de valor muito expressivo e uma queda de custos nos investimentos que são prioritários. A partir daí, vamos continuar investindo em longo prazo sem que tenhamos que usar desses juros distorcidos que estão sendo cobrados hoje no mercado financeiro. Nosso compromisso vai ser cumprido. Nunca antes nos comprometemos de uma forma tão transparente e pragmática para que a coisa ocorresse. Graças a Deus temos um enorme portfólio de ativos para continuarmos crescendo”, declarou Steinbruch. 

O homem de aço foi além. “Dentro de um trabalho feito há 32 anos, nós acumulamos excelentes ativos, aumentamos o que tínhamos de origem e diversificamos. Aproveitamos a verticalização que tínhamos dentro do grupo. Não temos empresas ruins, mas estamos vivendo um momento de juros estratosféricos e de competição de produtos importados de forma desorganizada e desnecessária, que compromete o crescimento e o investimento de empresas que são empreendedoras (…) nós vamos nos adequar à realidade necessária que permita fazer com que os empreendedores que ainda existem no Brasil possam continuar trabalhando de forma menos arriscada e mais confortável, para que tenha o retorno desses investimentos que são tão necessários para o Brasil”, concluiu.

Desalavancagem

O ‘CSN Day’ contou com a participação do diretor executivo de Finanças e RI, Marco Rabello. Ele apresentou o plano estratégico da CSN, disse que o Conselho Fiscal aprovou o início dos movimentos estratégicos necessários para os ajustes voltados à redução do endividamento e falou da alienação de ativos. Marco explicou que a meta é dobrar o Ebitda da CSN em oito anos com a desalavancagem, e garantiu que todas as mudanças serão feitas ainda em 2026. 

É bom lembrar que, para Volta Redonda, a venda na participação da cimenteira e a possível entrada de um sócio na siderurgia não mudam em absolutamente nada. As decisões são estratégicas, tomadas no mais alto nível da empresa. Em termos operacionais – ou seja, no chão de fábrica –, isso não afeta em quase nada, mas quem sabe vai ajudar a modernizar a UPV?