Parou a máquina

Na manhã de quinta, 5, o prefeito Samuca Silva esteve no programa Dário de Paula e não podia imaginar que um novo raio o atingiria ao final da tarde do mesmo dia. “O chamamento está confirmado para amanhã (sexta, 6). Foi autorizado pelo Tribunal de Contas”, disse ao iniciar a entrevista, referindo-se à abertura dos envelopes contendo – ou não – as propostas das empresas de ônibus pelas linhas ainda operadas pela Sul Fluminense.


Foi tudo por água abaixo. Às 17 horas, o Jurídico de Samuca recebeu um comunicado, expedido pelo juiz da 4ª Vara Cível, Roberto Henrique dos Reis, suspendendo o chamamento público. “Vamos recorrer”, disparou o prefeito. “Quem anda de ônibus em Volta Redonda sabe da má qualidade do serviço prestado. Estou do lado da população que mais precisa. Vemos todos dias pessoas perdendo horário no trabalho, consultas ou em veículos superlotados e com má qualidade. É isso que queremos mudar”, comentou.
A liminar foi pedida pela Viação Santa Edwiges, de Barra do Piraí. A empresa é a mesma que entrou na Justiça, também na 4ª Vara, para impedir a licitação inicialmente marcada para 17 de setembro, e que hoje está parada nos corredores do TCE. “O Edital da licitação definitiva segue em análise no TCE, que fez algumas recomendações. Estamos realizando essas mudanças para fazer a primeira licitação de transporte coletivo da cidade. Um marco para Volta Redonda. Enquanto isso não acontece, estamos buscando realizar um contrato emergencial para que a população não sofra mais”, pontuou Samuca.


A decisão judicial atrapalhou a vida de Samuca. É que ele tinha convidado todos os empresários do setor para uma reunião no Palácio 17 de Julho, marcada exatamente para acontecer às 9 horas, quando deveriam ser abertos os envelopes do chamamento. Isso se algum fosse entregue, é claro. Com a liminar, Samuca cancelou a reunião com os empresários, entre eles o presidente do Sindpass, Paulo Afonso de Paiva Arantes. Segundo uma fonte, a pauta do encontro – pedido por Samuca – teria a ver com um novo pedido da Sul Fluminense, que está sob intervenção judicial. De continuar operando as linhas municipais em um sistema compartilhado com as demais. “Quer formar um consórcio”, contou a fonte, pedindo para não ser identificada.


Ela vai além. Entende que o que a Sul Fluminense quer é ganhar tempo. “A empresa já demitiu cerca de 500 rodoviários – 280 só nos últimos dias”, revelou. “Vai dispensar mais gente até ficar enxuta. Deve, inclusive, pedir uma nova recuperação judicial. E, se conseguir sobrevida para continuar operando as linhas, mesmo em consórcio, a empresa pode se recuperar para ser vendida dentro de mais alguns meses”, comentou. “Vai depender do prefeito, do Sindpass e dos concorrentes”, disparou.


Chamamento público
Na entrevista a Dário de Paula, o prefeito Samuca Silva chegou a contar que o edital do chamamento teria sido solicitado por 17 empresas. “Não sabemos se retiraram para entrar com recurso junto ao Tribunal (contra a prefeitura) ou para realmente participar do certame”, comparou, acrescentando um detalhe importante, que serve para mostrar que o interesse no edital não seria no serviço em si. “Só es-tamos oferecendo uma substituição temporária nas linhas da Sul Flumi-nense, até que a licitação seja efetuada. Durante seis meses (prorrogáveis, grifo nosso) ou até que a licitação (sob exigências do TCE) ocorra”, disse.


Samuca foi além. Explicou a divisão das linhas operadas pela Sul Fluminense em lotes. “Foi para evitar o ‘ah, mas eu vou comprar ônibus para 6 meses?’. Então, nós dividimos em lotes para facilitar a vida da empresa que tem ônibus sobrando no pátio”, crê, confirmando também que contratou uma empresa de consultoria (de Juiz de Fora), especializada em contratos de licitação, para corrigir as chamadas “falhas do edital”, apontadas pelo TCE. Valor do contrato, segundo o aQui apurou: R$ 100 mil.

EDITORIAL

Questão de bom senso

Por Luiz Vieira

O prefeito Samuca Silva já provou que sonha em mudar o sistema de transporte de passageiros em Volta Redonda. Ele está coberto de razão. É flagrante, por exemplo, a falta de respeito das empresas do setor para com a população, principalmente por parte da Sul Fluminense, responsável por quase 70% das linhas municipais. Ônibus sucateados, falta de manutenção e peças são comuns no dia a dia, sem contar o pior dos problemas: ninguém nunca sabe se o ônibus vai passar no horário certo.


Para mudar tal quadro, Samuca lançou dois editais. O primeiro foi o da concorrência para as linhas operadas pela Sul Fluminense. Seriam 29, 31 ou 33, conforme números usados em entrevistas diversas. Só que, como o aQui previu, o certame foi parar na Justiça e atualmente está parado no TCE (Tribunal de Contas do Estado), que fez uma série de exigências para aprová-lo. O que não deve ocorrer este ano. Pode ser que ocorra em 2020, ano de eleições para prefeito.


O segundo edital foi o do chamamento público para a contratação de uma ou mais empresas para substituir a Sul Fluminense. A abertura dos envelopes estava marcada para ontem, sexta, 6, às 9 horas. Não aconteceu por um simples motivo: também foi brecada pela Justiça.


Samuca promete recorrer e marcar uma nova data. Não deveria. É que, até prova em contrário, o chamamento não atraiu nenhum empresário. Por várias razões, financeiras inclusive. A principal delas diz respeito ao prazo do contrato emergencial, que é de 180 dias, prorrogáveis por outros 180. Terminaria em dezembro de 2020, às vésperas da posse do novo prefeito eleito. Que pode ser Samuca, caso este se reeleja. Ou não. Pode ser um adversário que não concorde com a mudança do sistema de transporte de passageiros em Volta Redonda. E, como tal, poderia cancelar todas as mudanças porventura feitas antes de sua posse.


Considerando a possiblidade, a melhor alternativa para a população seria que Samuca tomasse as seguintes medidas. A primeira, cancelar o chamamento público. A segunda, atender às exigências do TCE e, caso a licitação seja aprovada, esperar o resultado das eleições. Caso seja reeleito, poderá, finalmente, anunciar aos quatro cantos que vai mudar a história do transporte de passageiros em Volta Redonda. Se for reeleito, é claro.


Para amenizar a sua revolta diante da Sul Fluminense, Samuca poderia, por exemplo, entregar as linhas mais problemáticas – as campeãs em reclamações – às empresas concorrentes (Elite, Agulhas Negras e Cidade do Aço), pelo prazo que julgar necessário. Pode ser até dezembro de 2020. Isso ajudaria, inclusive, a própria Sul Fluminense, que poderia utilizar os veículos retirados das linhas entregues aos concorrentes em outras rotas – que não apresentam tantas reclamações –, aumentando a eficiência das mesmas. Poderia até evitar novas demissões.

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