O bloco tá na rua

Por Vinicius de Oliveira

Nas pequenas cidades do interior, quando se fala em Carnaval, ninguém pensa em desfiles de escolas de samba. A maioria pensa é nos feriados de segunda, terça e da meia folga de quarta de cinzas (feriado mesmo só na terça, 25). Os jovens, entretanto, provocados pelas redes sociais, já convivem com a expectativa em torno dos blocos de rua. Em Volta Redonda, por exemplo, eventos desse tipo estão se transformando em referência para o Sul Fluminense, e andam arrastando, ano após ano, verdadeiras multidões. Pela proporção que atingiram, os blocos locais viraram motivo de controvérsia: enquanto muitos aguardam por eles, outros tantos arrepiam só com a ideia de que milhares de foliões embriagados, drogados e felizes vão passar diante de suas casas.


O primeiro bloco a pedir passagem no Carnaval de Volta Redonda em 2020 foi o organizado pela ONG Volta Redonda Sem Homofobia. Alegando que a comunidade LGBT vivencia momentos absurdos de discriminação durante o carnaval, o coordenador e cofundador do VRSH, Natã Teixeira Amorim, explicou que o bloco em questão foi criado como alternativa para essa parcela da população. “Durante o carnaval, sempre recebemos diversas denúncias de discriminação contra o público LGBTI. Diante disso, criamos o Bloco LGBT Folia com a ideia de fazer um carnaval diversificado e inclusivo, onde as famílias e LGBTIs se sintam à vontade para curtir a festa mais tradicional do Brasil”, justificou.


O que Natã não esperava era que seu bloco, considerado o primeiro dessa temática no Sul Fluminense, atrairia tanta gente. Segundo o coordenador da ONG, cerca de 40 mil pessoas saíram atrás do trio elétrico no domingo, 9, mais do que o dobro de 2019, quando o bloco reuniu cerca de 15 mil foliões nas proximidades da boate The Garden. Neste ano, gays, lésbicas, travestis e seus amigos e familiares escancararam, devidamente autorizados pelas autoridades locais, a bandeira LGBT pelo Aterrado.


Os foliões se encontraram, nas primeiras horas da tarde, no entorno do emblemático Edifício Redondo. Vídeos publicados nas redes sociais deram conta da grandiosidade do evento, que ganhou reportagem até da TV Rio Sul. A multidão cantava, a uma só voz, músicas consagradas entre o público LGBT, além de funk, axé e batidas eletrônicas. “Mas correu tudo bem”, disparou Natã. “O evento foi muito grande e não teve registros, graças a Deus, só coisa boba que teve”, garantiu, esquecendo-se que à noite, nas proximidades da boate The Garden, houve de tudo, menos Carnaval.
O comando do 28º Batalhão da Polícia Militar de Volta Redonda, através da tenente-coronel Andréia Ferreira da Silva Campos, garantiu que o Bloco LGBT Folia foi um sucesso. “O bloco foi autorizado pela prefeitura e pela Polícia Militar. Não houve ocorrência de vulto”, afirmou a comandante, salientando que a PM não fez o levantamento oficial do número de foliões que participaram do evento (que deveria ser vespertino, grifo nosso).
Natã fez questão de afirmar que o único problema enfrentado pelo bloco foi causado pela prefeitura de Volta Redonda. “Foi combinado uma coisa e [a prefeitura] fez outra com o trânsito. Também não foi coibida a presença dos ambulantes como acordado com o batalhão (da PM). Fiscais não retiraram ninguém, apenas pediam para sair e eles voltavam”, reclamou Natã, sem dar detalhes do acordo firmado entre ele, a prefeitura e as forças de Segurança.


Um acordo que previa que o bloco LGBT Folia fosse fazer a festa na Radial Leste, local que vive abandonado aos domingos. Mas, de última hora, os organizadores concentraram o público na Avenida Paulo de Frontin. O que, em tese, significa uma alternativa melhor. Mas o problema estaria nas condições determinadas pela prefeitura. “A duas horas de começar o evento, a prefeitura pediu que adequássemos o trajeto, mas não fecharam as ruas com eficiência, não repeliram os ambulantes e o trânsito ficou complicado’, argumentou Natã. Provocada a respeito das afirmações do coordenador da ONG, a prefeitura, até o fechamento dessa edição, não havia respondido as perguntas do aQui.


Ao ser questionado se houve denúncias de ataques homofóbicos durante o evento, Natã afirmou que não tomou conhecimento. “Não nos foi relatada nenhuma ocorrência desse tipo”, comemorou o militante, com razão, já que no ano passado, conforme dados apresentados por ele mesmo à imprensa, 12 denúncias do tipo foram notificadas aos órgãos competentes.


Ao que parece, as manifestações mais agressivas a respeito do bloco LGBT ficaram por conta, realmente, das redes sociais. Em meio a elogios, muitos internautas criticaram o evento, alegando que tinha muita baderna regada, principalmente, a bebida alcoólica. Um fato típico dos antigos ‘isoporzinhos’, uma espécie de bloco clandestino reprimido pela prefeitura desde o início da gestão Samuca Silva. “Que merda”, exclamou um internauta. “Ir para uma igreja ninguém quer”, emendou outra. “Só putaria e com certeza muita droga e as mulequeiras enchendo a cara, a maioria de menor, os pais são os grandes culpados (sic)”, aproveitou mais uma.


Os internautas também denunciaram que não foi só glitter e purpurina que os foliões deixaram para trás no último domingo. Teve gente escandalizada com a sujeira e com preservativos usados largados na rua. “Rua onde eu trabalho fedendo a mijo e cheio de camisinhas…”, reclamou um internauta. Logo em seguida outro chamou a atenção para o tipo de música. “Carnaval não é mais marchinhas etc!? Não sabia que funk tem origem carnavalesca, pô prefeito, vê se toma tendência (sic)”, postou.


Também choveram comentários favoráveis ao bloco da diversidade. “Adoro ler os comentários dos falsos moralistas, daqueles que nunca beberam , nunca usaram drogas, nunca mentiram pros pais que iam na casa de amigos mas na verdade iam pra outro lugar, aqueles que tem amantes, mas fingem ser de família tradicional kkkkk hipócritas…Deixem o povo se divertir, vai destilar seu veneno em outro lugar, povo hipócrita…Festa linda dessas pessoal vem destilar o veneno da vidinha frustrada que eles levam…”, disparou uma moça, revoltada com os comentários agressivos.


“As pessoas precisam entender que o carnaval de hoje não é mais o mesmo de antigamente. Quem quiser marchinhas, confetes e serpentinas, que procurem blocos específicos”, argumentou outro internauta. “Fico impressionado com as pessoas reclamando de camisinhas no chão. Prefeririam que não usassem preservativo e transmitissem doenças? Sujeira na rua e mijo é um fator negativo, mas que acontece em qualquer evento de grande porte e deve ser resolvido pela prefeitura”, comentou mais um internauta sobre o evento.


Depois deste domingo, a expectativa dos voltarredondenses só aumenta, para o bem e para o mal, já que o carnaval na cidade do aço apenas começou. De acordo com informações da secretaria de Cultura, 20 blocos tomarão as ruas de Volta Redonda durante as comemorações da festa do Momo. Em nota, a prefeitura garantiu que todos os cuidados essenciais estão sendo tomados para a segurança da população e dos próprios foliões. “O Carnaval de Volta Redonda, assim como em todos os anos, é visto com muita responsabilidade e cuidado com as pessoas que buscam a diversão no município. Para 2019, todos os blocos respeitaram o processo definido pelo decreto de eventos (Decreto Nº15274/2018), mantendo uma série de documentações necessárias para a realização de seus desfiles. Dentre deles, uma documentação que passa pela Guarda Municipal de Volta Redonda, pelas Polícias Militar e Civil, além da documentação do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro. Tudo isso para que seja realizada uma festa com segurança, para toda a população”, afirmou.


Os órgãos de fiscalização do Poder Público estão levando a sério essa determinação. Recentemente, a prefeitura, em parceria com a Polícia Militar, reprimiu um evento que aconteceria no domingo, dia 2, na Amaral Peixoto, organizado pelo bar Cantinho Gourmet. Após receber denúncias, a secretaria de Fazenda autuou o estabelecimento. Uma das responsáveis, que não foi identificada, gravou um vídeo onde mostrava a presença de policiais na porta do bar. “A gente tá na porta do cantinho para dar uma satisfação. O rolê que aconteceria foi cancelado, porque fomos denunciados. Falaram que era um bloco de carnaval, mas não é um bloco. É uma festa. Mas o bar não vai poder abrir e não vamos poder fazer o rolê”, justificou a moça.


Ainda em nota, a prefeitura de Volta Redonda disse que vai apoiar todos os blocos neste período de carnaval que estejam devidamente cadastrados. “Terá infraestrutura de apoio, que conta com as secretarias de Cultura, Fazenda, Meio Ambiente, Trânsito e Mobilidade Urbana, Guarda Municipal e outros órgãos municipais, visando principalmente o conforto e a segurança de todos os foliões e da população em geral”.


De acordo com a secretária de Cultura de Volta Redonda, Aline Ribeiro, alguns novos blocos se misturam aos blocos tradicionais da cidade, com mais de 60 anos de existência. “Todos estão com a consciência de que o carnaval é uma grande brincadeira popular e deve ser aproveitado com toda responsabilidade”, afirmou Aline.

Pra todos os gostos

“Este ano não vai ser igual aquele que passou”. A tradicional marchinha de Carnaval, dos compositores Umberto Silva e Pedro Sette, poderia ser adotada como hino do Palácio 17 de Julho para ilustrar o que os foliões de Volta Redonda e região terão à disposição de hoje, sábado, 15, até o dia 15 de março. Isso mesmo, pela primeira vez na história, os foliões terão 30 dias para brincar, pular, suar e desfilar pelas ruas da cidade do aço em diferentes bairros do município. Só não pode é beber demais, brigar, usar drogas e fazer xixi nos 20 blocos que sairão às ruas, autorizados ou não.

As festas já começaram e a euforia é grande. Prova disso é que a expectativa é que o Carnaval de Volta Redonda atraia, diariamente, mais de 10 mil foliões. O agito dos foliões ficará por conta dos blocos ‘Vai que cola’, Bloco da Jurema, LGBT Folia, Os Caretas, Camisolas, Alegria Alegria, Tô no Brilho, De Volta na Redonda, Tacalipal, Piranhas do Beco, Bloco do Lençol, Em Cima Da Hora, Vai dar Merda, Pé de Galinha, Bloco dos Crias e o bloco Nós na Rua com Sabor de Mel. “Serão 20 blocos tradicionais, mais o nosso querido Bloco da Vida, que este ano desfila com um enredo em homenagem ao meio ambiente. Os blocos de Volta Redonda estão crescendo muito e recebendo foliões de toda a região”, destacou a secretária de Cultura, Aline Ribeiro.


O prefeito Samuca Silva espera que a festa seja voltada para a família. “Esperamos contar com a ajuda de todos os foliões para que os blocos sejam proveitosos para todos. Montamos um planejamento para que seja uma festa divertida, segura e com respeito por todos”, pontua.

Confira a programação completa dos blocos:
15/02 – Os Caretas – das 14 às 20 horas – Concentração na sede do bloco à Rua 318, na Sessenta.
15/02 – Camisolas – das 14 às 20 horas – Concentração na Praça do Limoeiro
15/02 – Alegria Alegria – das 19 às 22 horas – Concentração na Praça da Rua C – Parque das Ilhas
16/02 – Tô no Brilho – das 14 às 20 horas – Concentração na Avenida Amaral Peixoto
16/02 – De Volta na Redonda – das 9 às 15 horas – Concentração na Rua 60        
21/02 – Tacalipal – das 18 às 22 horas – Concentração na Rua  Almirante Tamandaré (Eucaliptal)
21/02 – Piranhas do Beco – das 16 às 22h – Concentração na Rua 41-G, na Vila
22/02 – Bloco do Lençol – das 14 às 20 horas – Concentração na Rua 14, na Vila
22/02 – Em cima Da Hora – das 14 às 17 horas – Concentração na Avenida dos Açores, no Bom Jesus
22/02 – Vai dar Merda – das 14 às 20 horas – Concentração na Rua 42, na Vila Rica – Tiradentes
23/02 – Pé de Galinha – das 14 às 20 horas – Concentração na Rua 31, na Vila Rica
23/02 – Bloco dos Crias – das 14 às 20 horas – Concentração na quadra da Rua Agmar Lopes, no Santa Cruz
24/02 – Nós na Rua com Sabor de Mel – das 14 às 20 horas – Concentração na Rua Campos, no Siderlândia
29/02 – Arrastão do Conforto – das 14 às 20 horas – Concentração na quadra  da Rua 235, no Conforto
29/02 – Bloquinho Infantil Mamãe Eu quero Sambar – das 14 às 20 horas –  Praça Mário F. Neto, na Rua 535, no Aterrado
08/03 – Bloco do Pai – das 10 às 14 horas – Concentração no Memorial Zumbi, na Vila
15/03 – Bloco do Galo – das 14 às 22 horas – Concentração na Ilha São João

BARRA MANSA

O Carnaval de Barra Mansa prevê o desfile dos Blocos de Rua entre os dias 22 e 29, das 14 às 23 horas. Uma das atrações mais esperadas é a ‘Banda Animação’, que vai embalar o ritmo das marchinhas, e a ‘Bateria Ritmo Ousado’, composta por sambistas ritmistas do município. Os blocos selecionados são: ‘Me Beija Direito’, no Centro; ‘Se Vira nos Trinta’, na Siderlândia; ‘Arrastão do Povão’, na Vista Alegre; e ‘Renascer’, na Cotiara. Além desses, o ‘Bloco da Tradição’ vai desfilar pelo quarto ano consecutivo, saindo do Morro do Cruzeiro.


Para o presidente da Fundação de Cultura de Barra Mansa, Marcelo Bravo, a democratização e a transparência foram alcançadas, pois a programação foi selecionada por meio de edital, no qual todos os blocos puderam participar. “Atendendo uma demanda antiga do setor cultural, decidimos intensificar a política de editais para a seleção das programações culturais e valorizar os artistas locais. Para o carnaval, não poderia ser diferente. Além de selecionar os blocos, também selecionamos as bandas que vão animar os quatro dias da Matinê do Calçadão entre 14 e 23 horas. Todos os dias uma banda vai embalar as marchinhas carnavalescas mais tradicionais abrindo a programação. Para fechar a folia, foi selecionado um grupo de bateria para agitar a galera até o momento da dispersão”, detalhou.

Veja a programação dos blocos em Barra Mansa:
Sexta, 21/2 – Bloco da Tradição – Concentração às 19 horas na Rua João Miranda Torres, no Morro do Cruzeiro
Sábado, 22/2 – Me Beija Direito – Concentração às 13 horas, na Rua Domingos Mariano e Avenida Joaquim Leite
Centro
Sábado, 22/2 – Se vira nos Trinta – Concentração às 16 horas na Rua José Gonçalves Rebollas, no Siderlândia
Sábado, 22/2 – Bloco do Boi – Concentração às 16 horas na| Rua Sete de Setembro, no bairro Roberto Silveira
Domingo, 23/2 – Arrastão do Vistão – Concentração às 14 horas, na Praça Juscelino Kubitschek, no Vista Alegre
Domingo, 23/2 – Bloco do Boi – Concentração às 16 horas, na Rua Sete de Setembro, bairro Roberto Silveira
Segunda, 24/2 – Bloco Renascer – Concentração às 15 horas, na Rua José Hipólito, na Cotiara
Terça, 25/2 – Arrastão do Vistão – Concentração às 14 horas, na Praça Juscelino Kubitschek, na Vista Alegre
Terça, 25/2 – Bloco do Boi – Concentração às 16 horas, na Rua Sete de Setembro, bairro Roberto Silveira
Sábado, 29/2 – Ressaca do Me Beija Direto – Concentração às 14 horas, no Calçadão Dama do Samba, no Centro
De 22 a 25 – Matinê do Calçadão m- sempre das 14 às 23 horas – Calçadão Dama do Samba Paula de Jesus Francisco, no Centro
Carnaval em Amparo – De 22 a 25 fevereiro – 14 horas, Matinê – 19 horas música à cargo da Banda Sintonia, na Praça Arthur Luis Corrêa, em Amparo

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