terça-feira, maio 28, 2024
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(Não) Vale a pena ver de novo

Sindicato dos Metalúrgicos quer a volta do turno de seis horas na CSN

Turno de 8 horas já foi renovado na CSN Cimento

Por Pollyanna Xavier

Em outubro, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Edimar Miguel, deu início à campanha pela volta do turno de 6 horas na Usina Presidente Vargas. A empreitada, lançada no plenário da Câmara de Volta Redonda – bem longe da Praça Juarez Antunes, onde está a estátua de D. Waldyr, o líder dos operários da CSN –, guarda algumas semelhanças com a última (e desastrosa) campanha salarial. A começar pela proposta unificada, que reúne vários sindicatos e entidades, como o dos Vigilantes, por exemplo. Não foi atoa que o sindicalista formou um comitê e insiste num modelo já reprovado e rejeitado pela CSN.
Apesar de já ter lançado a campanha, Edimar ainda não se sentou com representantes da CSN para conversar. Mas, pelas postagens feitas nas redes sociais do Sindicato e dos próprios diretores, eles não demonstram disposição para negociar: querem a volta do turno de seis horas na UPV. “Já estamos em campanha (…) Nossa luta para o turno de 6 horas vai além do financeiro, nos preocupamos com a saúde do trabalhador”, avisa Edimar.
O problema é que Edimar quer mudar o turno sem ouvir quem faz turno. E nas postagens do sindicato sobre o assunto, o que não falta é operário pedindo que o Sindicato abra uma consulta pública entre os colaboradores da CSN para saber se eles, de fato, querem a mudança. A questão é que, no turno de seis horas, a empresa pode propor a jornada que ela bem entender. Isto significa, por exemplo, que a CSN pode fixar os horários e impedir os revezamentos, como já aconteceu no passado.
No modelo, trabalhadores do ‘zero hora’ são os mais prejudicados, porque trabalham seis dias seguidos, da meia-noite às 6 horas, não passam as noites em casa com a família e têm direito a apenas uma folga por semana. No turno fixo, não há revezamento e nem o pagamento de um abono anual, conforme a legislação exige nos casos de turnos de oito ou mais horas. “Seis ‘zero hora’? Onde isso é bom, gente?”, questionou um trabalhador nas redes sociais do Sindicato. “Acho que deveria ter uma pesquisa primeiro com os colaboradores pra ver se o colaborador apoia ou não o seis horas”, opinou outro.
Consultar o trabalhador sobre a mudança de jornada parece não ser uma opção para o Sindicato. A verdade é que, se ele olhar para trás, vai ver que em 2018, Silvio Campos, então presidente do órgão, promoveu um plebiscito entre os trabalhadores para consultar a aceitação de mudanças no horário do turno de revezamento. Na época, a CSN havia acabado de implantar a jornada de oito horas, com revezamento, e o Sindicato ouviu os trabalhadores sobre o que achavam daquele novo modelo. O resultado do plebiscito mostrou que os operários estavam satisfeitos e não queriam mudança nos horários.

PRÓS E CONTRAS
Para Edimar, a implantação do turno de seis horas na UPV significa a contratação de mais uma letra (cerca de 500 novos postos de trabalho) e ainda mais segurança para trabalhar. Sim, Edimar acredita que a jornada de seis horas reduz acidentes e mantém a Usina mais segura. Ele vai além. Ressalta que a economia de Volta Redonda também seria beneficiada, com mais dinheiro circulando em função da criação de novos empregos. “Com a jornada de 6 horas haverá um reflexo positivo na saúde dos trabalhadores e as empresas terão que ampliar o quadro de funcionários, o que beneficiará a economia de Volta Redonda e região, com a criação de novos postos”, aposta.
Segundo o sindicalista, o turno de oito horas tira do trabalhador o convívio com seus
familiares, além de prejudicá-lo nos direitos trabalhistas. “Há perda no 13o salário, FGTS, rescisão de contrato e aposentadoria (…) a alternância de horário de trabalho, reduz o tempo em que o trabalhador está desfrutando do convívio com seus familiares, que estudam ou trabalham durante o dia, bem como seus amigos, que têm na noite o seu período de socialização fora do trabalho”, acredita.
A análise de Edimar apresentada nos boletins e nas redes sociais é controversa. O primeiro ponto a se destacar é que, no turno de seis horas, o trabalhador não terá mais tempo com a família e os amigos, como acredita. Pelo contrário. Na jornada de seis horas, o operário trabalha 19 dias a mais por ano, folga uma única vez a cada seis dias e, dependendo do horário que for trabalhar, como o ‘zero hora’, por exemplo, ele terá que descansar durante o dia para se manter acordado na madrugada, prejudicando sua vida social e familiar. Já no turno de oito horas, atualmente praticado na UPV, as folgas são concedidas a cada quatro dias trabalhados.
Há ainda um ponto a ser considerado: o tempo total à disposição da CSN no turno que Edimar quer implantar é de seis horas e 15 minutos por dia. Isto porque o intervalo de 15 minutos concedido para o lanche não é computado na duração do trabalho. Como a jornada semanal é de seis dias seguidos, o trabalhador vai permanecer 37 horas e meia dentro da UPV e só então terá direito a uma folga. No turno de oito horas, o tempo de permanência na UPV é de 32 horas (4 dias) seguido de uma folga e assim sucessivamente. Na comparação, a jornada de seis horas tende a ser mais cansativa.

Turno da GalvaSud
Quando o assunto é a semelhança na forma como Edimar conduziu a campanha salarial da CSN, negociada em julho, com a campanha do turno, com previsão de ser negociada no final de novembro ou em dezembro, não se pode deixar de citar o acordo de turno da GalvaSud. A empresa é o braço de galvanização da CSN em Porto Real e lá o Sindicato dos Metalúrgicos não tem base legal para representar os trabalhadores da indústria siderúrgica. Quando isto acontece, a Federação dos Metalúrgicos faz as vezes do Sindicato.
E ela de fato fez. O acordo de turno da GalvaSud foi negociado com a Federação e aprovado pelos trabalhadores na última sexta-feira de outubro. A votação foi on-line e o Sindicato dos Metalúrgicos, que não tem gestão sobre Porto Real, rechaçou a negociação. Em vídeo postado nas redes sociais, Edimar Miguel disse que vai tomar “medidas cabíveis” contra o acordo, na tentativa de anular o resultado. O comportamento é o mesmo praticado em maio, quando a Federação negociou o acordo coletivo dos trabalhadores da CSN Porto Real, enquanto o da UPV se arrastava.
O turno da CSN Porto Real é de 12 horas diárias, por quatro dias consecutivos, com revezamento, seguidos de quatro dias de folga. Os trabalhadores gostam desta jornada e, desde que a empresa foi inaugurada, há quase 20 anos, nunca foi mexida. A cada dois anos são realizados os acordos de turno e os operários preferem manter a jornada com a compensação financeira (abono) paga pela CSN. Neste último acordo, negociado no dia 27 de outubro, a empresa ofereceu R$ 5 mil pela renovação da jornada, com previsão de pagamento no dia 10 de novembro. Foram 107 votos contra 80.

Nota da redação: A reportagem do aQui fez um pedido ao presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Edimar Miguel: que ele fizesse um artigo especial citando as vantagens e desvantagens dos turnos de 6, 8 e 12 horas da Usina Presidente Vargas. Infelizmente, ele não teve tempo para expor suas ideias a respeito dos turnos que podem ser implantados pela CSN. Como o atual turno vence no próximo dia 30 de novembro, se ele quiser, o artigo ainda terá tempo para ser publicado.

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