Especialista em siderurgia derruba tese de venda da Usina Presidente Vargas
Para analisar e derrubar a tese de que Benjamin Steinbruch estaria disposto a vender até a Usina Presidente Vargas e acabar com Volta Redonda, o aQui buscou um especialista em siderurgia. E ele não deixou por menos. “Ela continua sendo o coração do sistema”, disparou, referindo-se à UPV, onde trabalham atualmente cerca de 10 mil funcionários. “Esse desfazimento (termo usado por internautas que torcem pelo pior) não vai ocorrer”, avalia Maurício Prado Xavier, que escreveu um artigo especial para o aQui abordando a real situação do maior grupo siderúrgico brasileiro. Leia a seguir.
Por que não faz sentido imaginar a CSN sem a Usina Presidente Vargas
Nos últimos dias passaram a circular em publicações alternativas e, sobretudo, nas redes sociais, comentários e especulações sobre mudanças profundas na estrutura da Companhia Siderúrgica Nacional. Entre as hipóteses levantadas está a ideia de que a empresa poderia vender sua siderurgia ou até mesmo se desfazer da Usina Presidente Vargas, em Volta Redonda. Em algumas versões desses boatos, fala-se até em um suposto “desfazimento” da área de metalurgia – isto é, o encerramento das etapas que vão da preparação do minério até a produção do aço bruto.
Para quem observa a companhia apenas pelos números da bolsa ou a partir de discussões superficiais na internet, esse tipo de comentário pode até soar plausível. Afinal, a mineração do grupo cresceu muito nos últimos anos e hoje é uma das principais fontes de receita da empresa. Mas quando se olha para a realidade industrial da CSN – especialmente a partir da perspectiva de quem vive no Sul Fluminense –, essas hipóteses rapidamente se mostram pouco razoáveis.
A razão é relativamente simples: a Usina Presidente Vargas não é apenas uma unidade produtiva dentro da empresa. Ela é o centro em torno do qual todo o sistema industrial da CSN foi estruturado ao longo de mais de oito décadas.
Desde a sua criação, na década de 1940, a companhia foi concebida como um projeto industrial integrado. A ideia nunca foi ter apenas uma siderúrgica isolada, mas construir uma cadeia produtiva completa, que começasse na mineração, passasse pela produção de aço e se conectasse a outras atividades industriais e logísticas.
É justamente esse encadeamento que explica por que a usina em Volta Redonda continua sendo estratégica.
O minério de ferro que alimenta os altos-fornos da usina vem das minas da própria empresa em Minas Gerais, operadas pela CSN Mineração. Esse minério é transformado em ferro e depois em aço dentro da Usina Presidente Vargas, que permanece como uma das maiores siderúrgicas integradas da América Latina.
Mas o aço não é o único resultado desse processo.
A siderurgia gera uma série de subprodutos industriais, e um dos mais importantes é a escória de alto-forno. Esse material, que antes era tratado apenas como resíduo, tornou-se uma matéria-prima valiosa para a produção de cimento. É justamente a escória produzida na usina que abastece boa parte da produção da fábrica de cimentos de Volta Redonda.
Ou seja: a siderurgia não apenas produz aço, ela também alimenta diretamente outra área estratégica.
A integração aparece também na relação com a mineração. É verdade que o minério produzido pela CSN é exportado para diversos países. No entanto, a própria Usina Presidente Vargas funciona como um grande consumidor interno desse minério. Isso dá à empresa uma vantagem importante: mesmo quando o mercado internacional oscila, existe um grande cliente dentro do próprio grupo.
Outro elemento que muitas vezes passa despercebido fora do setor é a logística. Ao longo de décadas, ferrovias, portos e sistemas de transporte foram estruturados para ligar minas, usinas e clientes. Grande parte dessa infraestrutura foi desenvolvida justamente para alimentar o funcionamento da siderúrgica em Volta Redonda.
Sem a usina, todo esse sistema teria que ser reorganizado.
É nesse ponto que os rumores sobre um suposto “desfazimento” da metalurgia se tornam ainda mais improváveis. A etapa metalúrgica – que inclui processos como sinterização, alto-forno e aciaria – é justamente o que permite transformar minério em aço. Sem ela, a usina deixaria de ser uma siderúrgica integrada e se tornaria apenas uma grande laminadora, dependente da compra de placas de aço no mercado. E é justamente aí que aparecem as principais fragilidades dessa hipótese.
Hoje, a CSN possui uma integração que poucos grupos siderúrgicos no mundo ainda mantêm: minério próprio, produção de ferro-gusa, fabricação de placas e laminação final. Se a empresa abandonasse a metalurgia para comprar placas prontas no mercado, perderia o controle sobre a matéria-prima do aço.
Isso criaria dois riscos imediatos: volatilidade de preços e dependência de fornecedores externos. Em vez de produzir seu próprio aço bruto, a empresa passaria a aceitar o preço de mercado das placas, ficando exposta às oscilações internacionais.
Há também um efeito indireto pouco comentado fora do setor: a perda da escória de alto-forno. Sem os altos-fornos, a produção desse subproduto cairia drasticamente, afetando diretamente a cadeia do cimento. Como a escória é um componente importante para a fabricação de cimento, sua redução teria impacto sobre as operações com esse produto valioso.
Outro ponto relevante diz respeito à competitividade. Em ciclos favoráveis da siderurgia – especialmente quando o minério está barato –, usinas integradas costumam ter vantagem de custo sobre laminadores que dependem de placas compradas no mercado. Produzir internamente permite capturar melhor esses momentos de mercado. Transformar a usina em uma grande laminadora significaria abrir mão dessa vantagem.
É verdade que, do ponto de vista estritamente financeiro, alguns analistas apontam possíveis benefícios em um modelo mais enxuto. Uma operação focada apenas em laminação exigiria menos investimento industrial, reduziria riscos operacionais e poderia gerar fluxo de caixa mais estável. Esse tipo de modelo é comum em empresas que priorizam retorno sobre capital e baixa alavancagem.
Mas a CSN nunca foi apenas um exercício financeiro.
Há também um componente político e industrial importante nessa discussão. A Usina Presidente Vargas é a maior siderúrgica integrada do Brasil e um dos símbolos da industrialização do país. Abandonar a metalurgia significaria reduzir significativamente o peso industrial da companhia e alterar profundamente o perfil histórico da empresa.
Seria, em muitos sentidos, uma decisão quase civilizacional para a CSN.
Por isso, quando se observam todos os elementos em conjunto, a conclusão é relativamente clara. É possível argumentar que um modelo mais leve reduziria investimentos e riscos no curto prazo. Mas, olhando a estratégia industrial de longo prazo, os custos seriam consideráveis.
A empresa perderia integração, passaria a depender de placas produzidas por terceiros e enfraqueceria parte do ecossistema industrial que construiu ao longo de décadas.
No fim das contas, transformar a Usina Presidente Vargas em uma grande laminadora poderia até melhorar alguns indicadores financeiros no curto prazo. Mas também significaria reduzir o poder industrial da CSN no longo prazo.
E é justamente por isso que os rumores sobre o abandono da metalurgia ou o desfazimento da siderurgia acabam soando, para quem conhece o setor, mais como especulação de redes sociais do que como um cenário realmente plausível.
A Usina Presidente Vargas continua sendo o ponto de convergência de todas as atividades do grupo. É ali que o minério vira aço, que surgem os subprodutos que alimentam outras áreas e que se organiza boa parte da estrutura industrial da companhia.
Em outras palavras, a siderurgia não é apenas mais uma divisão da CSN.
Ela continua sendo o coração do sistema.
Maurício Prado Xavier é especialista em siderurgia. Nasceu em Volta Redonda, conhece bem a Usina Presidente Vargas e morou no Japão por quase uma década, tendo trabalhado na Nippon Steel.

