terça-feira, maio 24, 2022
CasaEditoriasBarra Mansa‘Não éramos loucos’

‘Não éramos loucos’

Barra Mansa é referência no combate ao câncer no sul do estado

Os casos de câncer vêm crescendo assustadoramente pelo Brasil. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a incidência se deve em parte pelo envelhecimento e o crescimento populacional, além das mudanças na distribuição e na prevalência dos fatores de risco da doença, especialmente aqueles associados ao desenvolvimento socioeconômico. Pensando nisso, a prefeitura de Barra Mansa desenvolveu o maior serviço do sul do Estado do Rio de combate aos diversos tipos de câncer.
Trata-se da Oncobarra, unidade que tem mais de dois mil m², e onde estão distribuídos os serviços de cancerologia clínica e cirúrgica, hematologia, radioterapia convencional, conformada ou tridimensional e radiocirurgia, teleterapia, braquiterapia de alta taxa de dose 2D e 3D, quimioterapia, cirurgia (mastologia, urologia, ginecologia, coloproctologia, cabeça, pescoço, pele e tireoide), além de enfermagem e farmácia oncológica, fisioterapia, serviço social e nutrição especializada.
Localizada à Rua Santos Dumont, 181, no Centro, ela funciona de segunda a sexta, anexa à Santa Casa, e atende a pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde) e conveniados de mais de 10 municípios, como Rio das Flores, Barra do Piraí, Valença, Resende, Porto Real, Quatis, Itatiaia, Angra dos Reis, Paraty, Mangaratiba, Itaguaí, além de cidades da Baixada Fluminense.
O secretário de Saúde, Sérgio Gomes (foto acima), um dos idealizadores do Oncobarra, relatou como os serviços foram constituídos. “Quando apresentamos o projeto do hospital para a sociedade e entidades, muitos disseram que éramos loucos e que não conseguiríamos tirar a proposta do papel. Trabalhamos muito pelo ideal de oferecer qualidade de vida aos pacientes oncológicos, levando apoio e conforto inclusive para os familiares. Nossa meta era tratar as pessoas próximas de casa, já que, até então, os procedimentos eram realizados no Rio de Janeiro e em outras capitais. Buscamos os recursos necessários junto aos governos Federal e Estadual e iniciamos a obra. Porém, por entraves políticos e burocráticos, os serviços foram paralisados durante quase dois anos”, contou, indo além.
“Naquela época, o então vereador e hoje prefeito Rodrigo Drable conseguiu resolver a situação junto à Caixa Econômica. Fácil não foi, mas quando olhamos toda a trajetória e os resultados, os esforços foram e continuam sendo compensadores. Outra situação que vale analisar diz respeito à relação entre paciente e médico, que é pautada em expectativa de vida com qualidade, cura e esperanças mútuas”, disse Sérgio Gomes.
O oncologista clínico Guilherme Menezes Warol dos Santos trabalha no Oncobarra desde 2018 e, de maneira objetiva, comentou sobre como é trabalhar com pessoas que chegam para o tratamento em extremo estado de fragilidade. “É muito delicado. A parte oncológica abala o psicológico do paciente e seus familiares. Cada um enfrenta as suas lutas diárias, por isso, não projetamos ações em longo prazo. Trabalhamos com as expectativas de um dia após outro, buscando estruturar o paciente para que ele seja forte e supere os desafios existentes”, detalhou.
Com referência aos pacientes de outros municípios, Guilherme Menezes comentou que toda a equipe multidisciplinar do Oncobarra é qualificada para oferecer acolhimento humanitário e ter um olhar especial sobre os pacientes. Disse ainda que a unidade depende das prefeituras quando o assunto é o encaminhamento das pessoas acometidas pelo câncer para o tratamento. “Nosso atendimento hoje é 95% da rede SUS. Então, todo mundo do sul do estado é referenciado para cá. Dos centros de tratamento existentes somos referência, com a unidade mais completa”.


‘Gratidão’
Aos 84 anos, a aposentada Zélia de Castro Guedes, ver foto, moradora de Barra Mansa, foi diagnosticada com câncer de mama. A confirmação da doença ocorreu em setembro de 2021, após a realização de exames laboratoriais. Na sala de quimioterapia do Oncobarra, ela revelou como foi receber tal diagnóstico. “Confesso que fiquei surpresa, pois os exames preventivos estavam rigorosamente em dia. Inicialmente foi complexo e difícil lidar com a situação, mas a fé e o apoio dos filhos, netos, da família em geral e dos amigos foram fundamentais para reverter o medo e a insegurança em otimismo para enfrentar o que estava por vir”, revelou.
Zélia, ao iniciar o tratamento, não tinha ideia da estrutura existente na unidade. “Temos à disposição uma equipe de profissionais capacitada e que nos recebe não apenas como paciente, mas como ser humano. Os médicos, enfermeiros e atendentes são excepcionais. Há um acolhimento especial que faz toda diferença frente a uma situação de grande fragilidade. Sou extremamente grata pelo atendimento que tenho recebido. Aqui eu me sinto em casa. Faço a quimioterapia três vezes por mês e enquanto estou no procedimento, aproveito para colocar a leitura em dia. No momento, estou lendo o livro ‘A morte é um dia que vale a pena’, de Ana Cláudia Quintana de Arantes. Particularmente, entendo que todos vamos viver esse dia, mas considero que para mim essa data ainda está bem distante”, ressaltou Zélia, entre risos.


‘Viver vale a pena’
Na ala de acesso ao tratamento de radioterapia, o eletricista Ricardo Luiz de Oliveira (ver foto), 53, com quatro filhos, esperava ansioso para tocar o sino existente no local, simbolizando a conclusão de mais uma etapa do tratamento contra o câncer. Morador de Três Poços, em Volta Redonda, ele foi diagnosticado em 2016 com câncer de boca, durante um tratamento dentário. O tumor afetou a língua.
“É muito difícil receber uma notícia como essa. Temos a falsa sensação que esse tipo de situação nunca vai acontecer com a gente e quando a confirmação chega é de tirar o chão e a estrutura de qualquer pessoa. Como trabalhador autônomo, enfrentei diversas dificuldades financeiras para me locomover até Barra Mansa. Na época, a Prefeitura do município onde moro inviabilizou o serviço de tratamento fora do domicílio, o que me levou a abandonar o acompanhamento e os procedimentos médicos por duas vezes. Não é fácil saber da sua necessidade de saúde e não poder parar de trabalhar porque o sustento dos seus filhos depende de você”, pontuou.
Em 2020, com a debilitação da saúde, Ricardo decidiu encarar os obstáculos e, para isso, nas primeiras consultas, caminhou pelo menos 20 quilômetros, da sua casa até o Oncobarra. “Saía muito cedo para chegar à consulta no horário marcado. Quando comentei com o médico e os funcionários sobre a minha realidade, eles se sensibilizaram e me ajudaram a custear a passagem e a conseguir o transporte fora do município. Aqui, eu descobri que sou importante, recebi apoio, carinho e atenção. Não tenho palavras para classificar o atendimento realizado pela Oncobarra. Com certeza, as pessoas que pensaram nesse hospital são seres iluminados e utilizados por Deus para cuidar da vida daqueles que precisam. No encerramento da quimioterapia afirmo com toda certeza que viver vale à pena e isso independe da sua condição social ou econômica. Estou vivo, bem vivo, e quero desfrutar de tudo que o universo puder me oferecer”.
“Trabalhamos com as expectativas de um dia após outro, buscando estruturar o paciente para que ele seja forte e supere os desafios existentes” – oncologista clínico Guilherme Menezes Warol dos Santos.
A Prefeitura de Barra Mansa desenvolveu o maior serviço do sul do estado do Rio de combate aos diversos tipos de câncer. Trata-se da Oncobarra
“Trabalhamos muito pelo ideal de oferecer qualidade de vida aos pacientes oncológicos, levando apoio e conforto inclusive para os familiares” – secretário de Saúde de Barra Mansa, Dr. Sérgio Gomes
Texto: Jane Portella
Foto: Chico de Assis

Artigo anteriorHaja criatividade
Artigo seguinteNovidades na mesa
ARTIGOS RELACIONADOS

Grampos Barra Mansa

Pegou fogo

Longe de Brasília

LEIA MAIS

Lazer

Mudo e com a mão no bolso

Seja bem vindo!
Enviar via WhatsApp