CIDADE: Prefeitura e Funarj firmam parceria para construção de Museu do Videogame; moradores querem espaço para ampliação da UBS do bairro
A ideia pode até ser boa: criar um Museu do Videogame em Volta Redonda – o primeiro do estado do Rio de Janeiro –, para que vire ‘um ponto de encontro’ entre passado, presente e futuro da cultura gamer. O projeto anunciado, fruto de uma parceria entre o Palácio 17 de Julho e a Funarj (Fundação Anita Mantuano de Artes do Estado do Rio de Janeiro), passa pela cessão de um imóvel na Sessenta para que o governo do Estado possa construir o seu novo espaço cultural.
O problema é que a ideia não agradou aos moradores de vários bairros, como os da própria 60, Monte Castelo, Vila e Laranjal, que preferem que o imóvel, que foi usado durante décadas pelos ‘Caretas’, bloco de Carnaval, seja destinado para a ampliação da UBS (Unidade Básica de Saúde) do bairro.
“Solicitamos que a prefeitura reavalie esse projeto e priorize a ampliação da UBS, garantindo melhores condições de atendimento e mais dignidade à nossa população”, diz o final do texto de um abaixo-assinado que corre junto aos moradores. “A saúde deve vir em primeiro lugar”, disparam. Detalhe: o documento já conta com mais de 600 assinaturas.
Independentemente do que vier a acontecer, as partes – o prefeito Neto e o presidente da Funarj, Jackson Emerick – já assinaram a parceria que prevê a construção do Museu do Videogame. “Um momento histórico. A Funarj tem o cuidado de olhar para esse segmento gamer, geek. Nossa parceria com Volta Redonda tem rendido eventos e ações para a população, e agora esse espaço, que não será apenas um museu, mas um centro cultural. Queremos não só fornecer a parte cultural, como também fazer de Volta Redonda um polo estadual de games, e inclusive proporcionar qualificação para os jovens criarem games também”, comentou Jackson Emerick. “Um verdadeiro gol de placa. Parabéns a todos que estão fazendo esse projeto sair do papel. Queremos que nossa cidade seja cada vez mais referência no estado e no país”, justificou Neto.
Na defesa da parceria com a Funarj, o secretário de Cultura, Anderson de Souza, explica que a vinda do Museu do Videogame para Volta Redonda é resultado de um trabalho iniciado há mais tempo junto aos representantes do universo geek da região. “A gente dá um passo muito grande para ter uma área da cultura (gamer) que não era representada aqui e que agora vai ser. Fizemos anteriormente uma audiência pública para verificar a demanda para cá desse museu, que ia ser feito no Rio. Verificou-se que havia uma grande demanda aqui, e contamos com a sensibilidade do presidente da Funarj de trazer para cá o museu, porque ele é inovador, não existe nenhum desse tipo no Brasil”, conta Anderson.
Ele vai além. “Será também uma área para audiovisual, vai ter palestras, exposições permanentes e temporárias, tudo ligado a essa questão da tecnologia, da inovação, do videogame, da construção de jogos. Volta Redonda entra numa área tecnológica que até então não havia aqui. Estamos muito felizes e hoje, com certeza, é um momento histórico para a cidade, para a cultura de Volta Redonda e para a região como um todo”, destacou.
Outro defensor do museu, se não for o ‘pai da ideia’, é o secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo, Sérgio Sodré. “Essa assinatura é de uma importância fundamental para Volta Redonda. Isso vai ser uma visitação obrigatória de quem virá para nossa cidade, sem falar que esse mercado gamer é bilionário. E pretendemos também envolver as universidades, para que a gente consiga investir na gamificação. É um mercado que interessa muito e vai ser bom para a juventude de Volta Redonda”, crê Sodré.
O presidente da ProGeekRJ (Frente Estadual da Cultura Geek no Rio de Janeiro), Maicon Fagundes, destaca o papel de Volta Redonda no crescimento da cultura geek e gamer no interior fluminense. “Será um divisor de águas. Já temos um evento grande como a Anime Fest Fan e vários encontros legais feitos por outros coletivos, mas quando você tem os órgãos públicos fazendo um centro cultural, um museu público, isso é a demonstração do reconhecimento desse segmento cultural. Já temos uma cadeira exclusiva da cultura geek nos conselhos de cultura, e esse é mais um passo para poder institucionalizar o nosso segmento cultural e conquistar cada vez mais espaço na criação de políticas públicas”, avaliou.
Todos podem ter razão, mas a vontade de quem mora nas proximidades do antigo ‘Os Caretas’ não passa pela construção do Museu do Videogame. “Um absurdo. A Cultura tem seu lugar, mas a saúde vem primeiro. O postinho da Sessenta é pequeno. Usar o terreno para um museu, em vez de ampliar o posto, chega a ser o cúmulo do absurdo”, comentou um deles. “Fazendo o museu ali, não tem como ampliar o postinho”, lamentou outro.

A polêmica chegou nas redes sociais. “A ampliação do posto de saúde da Sessenta era mais importante. O museu poderia ser em outro local”, comentou Humberto Fontes. “O que deveria ser feito era ampliar o posto de saúde, que é precário para atender 3 bairros”, completou uma internauta. Teve até quem garantisse ter sugerido à prefeitura a construção de um museu da tecnologia: “Quando meu Museu de Tecnologia (o quarto maior acervo do mundo) foi oferecido gratuitamente para a PMVR, Neto desdenhou e ainda me disse que seria muito ruim politicamente, para ele, abrir um museu em VR… Fazer o que né… Em políticos não se pode confiar…”, lamentou Marcos Velasco.
“Todos os que defenderam a ampliação da UBS estão cobertos de razão. A unidade sempre foi e ainda é acanhada. E merecia crescer…”, dispara um dos defensores do movimento pela ampliação do postinho. Ele, inclusive, continua colhendo assinaturas, junto aos amigos, para o abaixo-assinado que será entregue a quem de direito. “Ao Neto”, disse, mantendo acesa a esperança de que o prefeito possa acatar o pedido da maioria dos moradores do entorno. “Aqui tem muito idoso, e ele nos defende”, acredita.
Ele contou ao aQui que, assim que soube do fechamento do bloco ‘Os Caretas’, os idosos dos bairros 60, Monte Castelo, Vila e Laranjal passaram a se movimentar para pedir à Prefeitura de Volta Redonda que ampliasse o postinho de Saúde da 60. “Ninguém imaginava que ‘Os Caretas’ iam sair de lá”, pontuou. “Era a hora de ampliar o postinho”, disparou, passando a informação de que um grupo esteve, inclusive, com Sérgio Sodré, secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo. “Ele nos disse que já estava decidido, e que ali seria construído o Museu do Videogame”, contou. “Só não ouviram os moradores e os idosos”, lamentou. “O posto de Saúde é muito pequeno, mal atende aos quatro bairros”, completou.

