Guerra sindical

Foto dia do acordo

Vinicius de Oliveira

Em Volta Redonda sempre existiu um clima tenso entre as duas forças sindicais que representam os servidores do Palácio 17 de Julho. A rixa entre os sindicatos dos Profissionais da Educação e dos Funcionários Públicos (SFPM) girava apenas em torno do posicionamento político de cada entidade, principalmente quando pensavam em fazer greves. Dificilmente havia acordo. Nem greve. Mas na semana passada, o tempo fechou definitivamente e, motivadas pelo intricado Plano de Cargos Carreiras e Salários, as duas instituições, que concentravam suas energias para atacar o governo, estão em lados opostos medindo força. E uma verdadeira guerra pode estourar a qualquer momento.

 

Durante coletiva de imprensa realizada na manhã de ontem, sexta, 16, na sede do sindicato, a direção colegiada do Sepe revelou o quanto o clima está tenso. Para quem não se lembra, já na edição passada o aQui adiantou qual teria sido o estopim do confronto. Os profissionais da educação denunciaram que na assembleia do dia 8, realizada pelo Sindicato dos Funcionários Públicos, no Plenário da Câmara, seus representantes teriam pressionado a categoria para votar contra a divisão do dinheiro disponibilizado pelo prefeito Samuca Silva para pagamento do PCCS, que seria feito em alguns meses, de acordo com a arrecadação da prefeitura. O valor global para fevereiro é de R$ 500 mil.

 

Foi uma “manobra sórdida e um total desrespeito aos funcionários públicos do município”, diz a nota oficial do Sepe. Entrincheiradas e prontas para atacar, a direção começou a denúncia contando que no dia 20 de dezembro do ano passado foi realizada audiência convocada pelo governo contando com a participação dos dois sindicatos, onde foi firmado um acordo sobre a divisão do dinheiro, registrado em ata. “Essa foi uma proposta construída pelo Sepe que o prefeito acatou e o outro sindicato aceitou. Tudo estava acordado”, explicou Maria da Conceição, a Sãozinha, diretora financeira do Sepe.

 

Outro ponto que a direção frisou durante a coletiva foi com relação às assembleias. Segundo Sãozinha, o fato do SFPM ter convocado a categoria que representa para o mesmo dia que o Sepe pode ter sido um artifício para tomar para si todo o dinheiro (R$ 500 mil) do PCCS. “Como é de praxe, o Sepe convocou assembleia dos profissionais de educação para o dia 8 deste mês, para informar à categoria  sobre os fatos e também para deliberar sobre os últimos acontecimentos, e fomos surpreendidos pela convocação de uma assembleia pelo funcionalismo, marcada para o mesmo dia e horário da assembleia do Sepe. Um total desrespeito aos  profissionais de educação, pois muitos professores acabaram confundindo e indo para a assembleia errada”, atacou.

 

O coordenador geral do Sepe, Raul dos Santos, foi taxativo ao dizer que não é do interesse dos professores manter um clima bélico, mas adiantou que o sindicato dos profissionais da Educação não pretende se calar ou aceitar passivamente o fim do acordo firmado com a prefeitura. “O Sepe tem uma história de mais de 40 anos de luta. Vamos colocar a categoria em movimento para defender um direito nosso ameaçado por 20 anos. Queremos uma audiência com o prefeito para saber a posição dele. Nosso intuito é manter a divisão igualitária, mas se isso não for possível, vamos, juntos com a categoria, deliberar uma forma de pressionar o governo”, pontuou o sindicalista.

 

Mantendo-se na defensiva, Ataíde de Oliveira, presidente do Sindicato dos Funcionários Públicos, garantiu ao aQui que não articulou nenhum golpe como denuncia a direção do Sepe, apenas buscou o que seria mais justo para seus filiados. “O Sepe tem outro processo para implantação do PCCS. Nós já ganhamos o nosso. Então nada mais justo que conceder o dinheiro primeiro para o funcionalismo. O Sepe tem que esperar como nós esperamos”, defende Ataíde.

 

Sobre o fato de ter acordado antes com o prefeito e o Sepe a divisão igual do dinheiro disponibilizado por Samuca para pagamento das primeiras parcelas do Plano, Ataíde explicou que esperava uma quantia maior e, por isso, mudaram de ideia com relação ao rateio. “O valor pedido a princípio para o prefeito era R$ 1,8 milhão. Ele deu a metade disso. Ao dividir R$ 500 mil para todo mundo não daria quase nada para ninguém. Ficaríamos devendo ainda. Então, ao contrário do que estão dizendo, não armamos nenhum golpe. Nós não damos golpe em ninguém. Ao contrário, costumamos sofrer os golpes”, avaliou o sindicalista.

 

No meio dos tiros e bombas está o Palácio 17 de Julho. Ao ser questionada pelo aQui sobre a guerra entre os dois sindicatos, a prefeitura preferiu permanecer em terreno neutro. Em nota, a secretaria de Comunicação disse o mais do mesmo, tentando, em vão, permanecer distante dos disparos. “A proposta da prefeitura já apresentada ao sindicato – que, inclusive, fez recentemente uma assembleia com a categoria – diz o seguinte: pagamento de R$ 500 mil mensais a partir de fevereiro de 2018 até setembro de 2018, quando será analisada a possibilidade de um reajuste desse valor, assim como também em janeiro de 2019, dependendo do comportamento da arrecadação”.

 

Quanto à pergunta sobre se o prefeito descumpriria o acordo registrado entre os dois sindicatos com relação à divisão do dinheiro para implementação do PCCS, mais uma vez a prefeitura flutuou sobre o conflito. “De forma geral, este governo está conversando com todos os seguimentos (sic) do funcionalismo e mostrando na prática o respeito por eles, uma vez que este caso vinha sendo postergado há vários anos e, agora, está realmente sendo concretizado”, finalizou.

Audiência

A direção do Sepe enviou um ofício à prefeitura de Volta Redonda solicitando audiência urgente com o prefeito Samuca Silva, que acatou o pedido. O encontro será  na próxima terça, 20, às 10 horas.

Greve na segunda, 19

Também andam tensas as coisas dentro da secretaria de Infraestrutura, a antiga secretaria de Obras. Os funcionários remanescentes da prefeitura, ligados à Cohab (Companhia de Habitação de Volta Redonda), reclamam justamente da falta de estrutura e segurança para trabalhar e, indignados com o silêncio do governo sobre a questão, anunciaram que vão cruzar os braços na próxima segunda, 19.

De acordo com Leonel de Souza, um dos funcionários da SMI que lidera o movimento grevista, falta desde Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) a produtos alimentícios. “Os funcionários de campo, que pegam no batente, são obrigados a trabalhar desprotegidos. Boa parte deles está sem botina e uniforme há muito tempo. Falta todo tipo de EPI, sem contar a comida. Antes recebíamos para o lanche um copo de suco e pão com mortadela. Agora só estamos recebendo pão”, reclamou Leonel.

Ainda de acordo com o funcionário, os encarregados da secretaria insistem em transportar funcionários em carrocerias. “Querem que o funcionário se segure junto às ferramentas, na carroceria dos carros. Um total desrespeito. É contra a lei e ainda expõe o funcionário a todo tipo de perigos”, continuou, salientando que o secretário Joselito Magalhães e o prefeito Samuca não lhes deram perspectiva de quando vão atender suas exigências. “Por isso vamos paralisar na segunda-feira. E a expectativa é estender pela semana até que a prefeitura nos atenda e nos dê uma posição oficial”.

Procurado pelo aQui, o presidente do Sindicato dos Funcionários Públicos de Volta Redonda, Ataíde de Oliveira, desencorajou o movimento grevista. Disse que já teria conversado com Joselito e este, por sua vez, teria lhe garantido que resolveria os problemas dos funcionários da SMI. “Sugeri que esperassem até o final da próxima semana para paralisarem, pois o secretário me garantiu que vai atender aos pedidos o quanto antes”, comentou.

Nota da redação: A prefeitura de Volta Redonda foi procurada para se pronunciar sobre a reclamação dos funcionários da SMI e, principalmente, diante ameaça que fizeram de cruzar os braços, mas até o fechamento desta edição ninguém do governo se pronunciou.

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