EXCLUSIVO: Granjas da Rica pertencem a empresa que tentou comprar o banco Master
Pollyanna Xavier
Quando o Inea interditou a granja da Rica na Fazenda da Grama, em Rio Claro, em dezembro de 2025, a presidente da associação de moradores da localidade, Deise Carlindo, afirmou que, em 40 anos, aquela era a segunda vez que a empresa enfrentava problemas de ordem sanitária. À primeira vista, a declaração soou protetiva, mas pode guardar um fundo de verdade. De fato, os registros indicam que as irregularidades ambientais mais graves se intensificaram nos últimos dois anos. Coincidência ou não, foi nesse mesmo período que o controle da empresa saiu das mãos da Reginaves Indústria e Comércio de Aves e passou à gestão do então desconhecido Grupo Fictor.
Desde a troca de comando, as granjas da Rica têm se tornado foco recorrente de passivos ambientais e entrado no radar dos órgãos fiscalizadores. Os problemas – sanitários e ambientais, é bom que se diga – afetam tanto a população do entorno, que é obrigada a conviver com os impactos das atividades (e isto inclui a infestação de moscas-varejeiras e o forte odor que exala dos aviários), quanto os próprios trabalhadores, que, com as granjas interditadas, correm o risco de perder seus empregos.
O que poucos sabem, mas que o aQui revela com exclusividade, é que o grupo Fictor é o mesmo que tentou comprar o banco Master um dia antes dele cair, no final de 2025. Sim, as oito granjas da Rica no estado do Rio – três delas na região – pertencem à fintech Fictor, que detém uma série de títulos de crédito inflados e que ofereceu R$ 3 bilhões pelo Master. Valor que ela terá de provar à Polícia Federal que tinha condições de pagar, já que seu valor de mercado não chega a essa cifra.
Pelo que foi apurado, o patrimônio do Fictor seria composto de plantas frigoríficas e carteiras de crédito consignado; só esses últimos somariam mais de R$ 500 milhões – valores, inclusive, que nunca foram provados, de fato. Aliás, o caixa do grupo Fictor baixou consideravelmente desde que os jornais publicaram a oferta feita ao Master. De lá para cá, houve uma corrida de investidores para resgatar recursos aplicados nas empresas do grupo, provocando uma severa restrição de liquidez na fintech. Com dificuldades para honrar os pedidos de resgate, o Fictor abriu falência.
No início da semana, o grupo protocolou um pedido de recuperação judicial no Tribunal de Justiça de São Paulo. Não se sabe o quanto a ação vai impactar no futuro das granjas da Rica no estado do Rio. A incerteza tem razão de ser. É que, oficialmente, o pedido de recuperação judicial contempla apenas as operações da Fictor Holding e da Fictor Invest (as granjas da Rica pertencem à Fictor Alimentos), porém, todas são controladas pelo mesmo grupo, e a mistura de caixas e o possível pagamento de despesas de uma subsidiária por outra podem afetar as granjas.
E as chances de isso acontecer são enormes. A verdade é que a Fictor está encrencada tanto na questão fiscal quanto na ambiental, e, de quebra, na sanitária. Em recente reportagem publicada pela Revista Piauí, o grupo Fictor teria captado recursos com investidores para, supostamente, investir em milho e soja, mas teria, também supostamente, desviado o dinheiro para adquirir frigoríficos – foi numa dessas que ele teria arrendado as granjas da Rica. Investidores que fizeram aportes acreditando que os valores seriam investidos em soja e milho acusam o grupo de ‘fraude contábil’, já que o dinheiro não poderia ter sido usado para outra finalidade a não ser a compra dos grãos.
O fato é que o comando das granjas passou para as mãos do Fictor há pouco mais de um ano, e, desde então, o ativo vem se transformando em passivo cada vez mais problemático. Além da unidade de Rio Claro, o Inea interditou recentemente a granja de Dorândia, em Barra do Piraí. Na fiscalização mais recente, em Barra do Piraí, os técnicos encontraram um cenário crítico: instalações insalubres, carcaças de aves misturadas a animais vivos, comedouros em condições precárias, infestação de moscas-varejeiras e licenciamento ambiental irregular. Existem boatos, inclusive, de que o grupo não estaria conseguindo comprar rações para abastecer as unidades.
A empresa não cumpriu o Termo de Ajustamento de Condutas assinado em outubro do ano passado e, mesmo sob advertência severa, realizava captação superficial de recursos hídricos sem autorização legal. Pior: emitia poluentes atmosféricos sem os cuidados exigidos, como, por exemplo, a instalação de filtros em seus incineradores. Segundo o Inea, a Rica ainda era reincidente na contaminação do solo e no maus-tratos às aves. Os problemas ambientais podem render ao grupo Fictor uma multa de aproximadamente R$ 2 milhões – valores que, se forem de fato aplicados, deverão ser cobrados na Justiça.
O aQui tentou falar com o grupo Fictor para confirmar todas as informações publicadas nesta reportagem, mas não foi atendido. Um questionário com quatro perguntas foi encaminhado ao gerente responsável pelas granjas, Henrique, mas até às 16h de quinta-feira, 5, prazo dado para o envio das respostas, não houve qualquer retorno. O espaço continua aberto para a manifestação da empresa. Entre as perguntas enviadas pela reportagem, o aQui quis saber qual é o impacto do pedido de recuperação judicial nas granjas da Rica; quais as chances de a empresa voltar para as mãos da Reginaves Indústria e Comércio de Aves, e qual movimento a fintech tem feito no sentido de sanar os problemas ambientais das granjas. Nada foi respondido.

