Frustração geral

Municípios começam a vacinar profissionais de Saúde e idosos, mas quantitativo é insuficiente

Pollyanna Xavier

Nove mil, quatrocentas e setenta e seis doses da vacina Coronavac chegaram no início da semana aos 12 municípios que integram o Consórcio Intermunicipal de Saúde do Médio Paraíba (Cismepa), trazendo um sopro de esperança em meio ao caos. Prefeitos e secretários de Saúde rapidamente se apressaram para mostrar a novidade nas mídias sociais, na imprensa e, claro, iniciar o quanto antes a vacinação da população. Essa corrida, porém, trouxe uma grande frustração: o quantitativo distribuído aos municípios era insuficiente para imunizar o primeiro grupo-alvo da campanha: os profissionais de Saúde que estão na linha de frente do combate à Covid-19 e idosos acima de 65 anos com condições crônicas de saúde. O número foi tão aquém, que foi preciso priorizar o que já era prioridade.
O problema forçou o Ministério Público a entrar na campanha. Todos os municípios da região que receberam as vacinas terão que prestar contas ao MP, dando informações detalhadas dos vacinados (nome, função e idade). A regra vale para todos e serve para garantir que ninguém que integra os grupos secundários fure a fila da vacina. Segundo o Ministério Público, o acompanhamento da vacinação é necessário porque o lote não cobre a grande parcela das pessoas prioritárias. E o que é pior, os municípios receberam números de vacina desproporcionais ao número de seus profissionais de saúde.

Essa desproporção aconteceu com Barra Mansa e Volta Redonda. Barra Mansa, por exemplo, foi a que mais recebeu vacinas dentre todos os municípios do Cismepa. A cidade é menor do que Volta Redonda em população e em cobertura de Saúde, mas inexplicavelmente para lá foram destinados 2.149 de um total de 4.510 doses – 286 a mais do que para Volta Redonda, que recebeu apenas 1.863 de um total de 3.900. A cidade do aço abriga o Hospital Regional, com mais de 300 funcionários atuando na unidade, além de oferecer atendimento aos pacientes infectados em outros dois hospitais públicos e mais de 20 unidades de saúde que estão na linha de cuidado.
Quando viu que seu município saiu na frente em doses da vacina, Rodrigo Drable comemorou: “Isto é resultado de todas as práticas que nós colocamos em ação. Nossos números durante toda a Pandemia se mostraram mais efetivos. Nós conseguimos dar um norte até para as cidades ao redor com políticas e práticas que se mostraram bem sucedidas aqui”, disse. Rodrigo reconhece, porém, que o número de doses destinadas a Barra Mansa não representa nem 6% do total de vacinas que ele pretendia comprar diretamente do Butantan, quando assinou com o Instituto um protocolo de intenções para adquirir 80 mil doses da Coronavac. “O governo Federal agora está comprando todas as vacinas e ele vai fazer a distribuição”, disse, convencido.
Assim como Barra Mansa, outras cidades também acordaram com o Butantan a pré-venda da Coronavac, mas depois que o imunizante foi aprovado pela Anvisa, o Ministério da Saúde comprou toda a produção da Coronavac, obrigando o instituto a cancelar os acordos feitos com 184 municípios brasileiros. Restou aos prefeitos desses municípios se contentar com o quantitativo insuficiente enviado pelo Estado. Volta Redonda, por exemplo, assinou protocolo com o Butantan para 70 mil doses, e deve receber do Estado apenas 3.900. O valor representa míseros 5,57% da intenção inicial. Barra do Piraí, cujo prefeito Mário Esteves acionou o Butantan no STF para cumprimento do protocolo de intenções, recebeu apenas 4,5 % das doses que pretendia com a compra direta.
Em duas fases
As vacinas foram distribuídas pelo Estado de forma fracionada e começaram a chegar na segunda, 18. Volta Redonda recebeu nesta primeira fase 1.863 vacinas, e aguarda a chegada de outras 2.037 (o que dá um total de 3.900), para concluir o esquema de vacinação do grupo já vacinado. Segundo informações do Ministério da Saúde, a vacinação contra a Covid-19 será feita em duas etapas, com doses aplicadas num intervalo seguro que vai de 14 a 28 dias. Se passar esse prazo, a primeira dose, que foi aplicada nesta última semana, perderá eficácia. Os municípios receberam com euforia o lote da primeira dose do esquema e aguardam a entrega da segunda dose para daqui no máximo 15 dias.
A euforia da chegada das vacinas, por incrível que pareça, foi maior do que a decepção diante de um quantitativo tão baixo. Prefeitos encheram as redes sociais de fotos da chegada dos imunizantes e, claro, dos primeiros vacinados. Em geral, priorizou-se enfermeiros, técnicos e médicos que atuam na linha de frente dos hospitais e que possuem um histórico de luta pela vida. Foi assim com a técnica de enfermagem Gilmara Lícia Olimpio Pereira, 41, a primeira pessoa a ser vacinada em Volta Redonda. Ela tem 24 anos de profissão, já passou por oito cirurgias no pulmão e atua na linha de frente do combate ao Coronavírus. “Estou emocionada”, disse, chorando.
Até a tarde de sexta, 22, ……… pessoas já tinham sido vacinadas em Volta Redonda. A campanha segue durante as próximas semanas e os municípios aguardam o desfecho das negociações do Brasil com a China e a Índia para a compra de insumos necessários à produção de mais doses.

Coronavac ou Astrazeneca. Posso escolher?
Há muitas questões ainda para serem esclarecidas quando o assunto é a vacina que previne a Covid-19. Muitas pessoas acreditam que vão poder escolher entre a Coronavac, produzida pelo Butantan em parceria com o laboratório chinês Sinovac, ou a Astrazeneca, que vem sendo desenvolvida pela Universidade de Oxford, cuja licença de produção foi conferida à Fiocruz. A primeira garante uma imunização de 50,4%, contra o adoecimento e protege até 78% contra casos mais graves. A segunda tem 70% de eficácia e ambas só conseguem atingir esses percentuais quando aplicadas no esquema de duas doses.
A dúvida sobre qual vacina tomar tem origem política. A desinformação tem levado as pessoas a achar que podem escolher qual imunizante tomar. A verdade é que as duas vacinas imunizam contra as formas graves da Covid-19 e as chances de a população escolher entre uma e outra é mínima, correndo o risco, inclusive, de ficar sem o imunizante. O alerta é da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), que destaca que não haverá vacina para todos nesta primeira fase e os grupos prioritários vão receber as doses que estiverem disponíveis, sem a opção de escolha.
Em entrevista à Folha de São Paulo, o presidente da SBIm, pediatra Juarez Cunha, informou que neste primeiro momento, acha pouco provável que as unidades vacinadoras recebam duas opções do imunizante. “O quantitativo que o Ministério da Saúde está programando não é suficiente para os grupos prioritários, o que dirá para a população em geral. Teremos um número bem inferior ao necessário. Eu acho pouco provável que as unidades vacinadoras tenham mais de uma opção da vacina”, comentou.
A fala do presidente da SBIm é questionada por algumas pessoas, inclusive por médicos que apostam muito mais na eficácia da Pfizer ou da Sputinik (vacinas que a princípio não serão distribuídas no SUS) do que da Coronavac e da Oxford. “Vacinação iniciada. Que venham todas as vacinas, independente de política, e o direito de escolha de cada cidadão. Por eficácia, prefiro aguardar a de Oxford”, disse uma fonte ao aQui. “Vou aguardar a da Oxford, que é mais eficaz. Se eu pudesse tomava as duas, mas como tem que escolher, eu aguardo mais duas semanas ou mais”, comentou outra fonte, acreditando que terá direito de escolha.
Outra dúvida já esclarecida pelas autoridades é quanto à aplicação das duas doses que integram o esquema da Covid-19. A pessoa que receber a primeira dose da Coronavac, por exemplo, não poderá receber a segunda dose da Oxford, e vice-versa. Segundo orientação do próprio Ministério da Saúde, o esquema deverá ser iniciado e concluído pela mesma vacina.

Vacinação na região
Logo após a chegada das vacinas, os prefeitos solicitaram aos seus RHs o quantitativo de profissionais das secretarias de Saúde, especialmente os que atuam nos hospitais. O que já deveriam ter feito bem antes para definir os profissionais que atuam diretamente no combate à Covid-19. A partir daí, foi dada a largada para a vacinação. A escolha priorizou muito quem tomaria a vacina nesta primeira fase. De acordo com o quadro abaixo (Relação de vacinas distribuídas e a população territorial), o percentual de pessoas que serão imunizadas nesta primeira etapa está muito aquém da necessidade de cada município.
Outra questão levantada foi quanto à imunização dos profissionais do Hospital Regional. Segundo a secretaria estadual de Saúde, as vacinas destinadas a este grupo estariam inseridas no lote de Volta Redonda (o porquê, ninguém sabe, grifo nosso). Só que, a princípio, o município não teria incluído a equipe do Regional no cronograma de vacinação local. Na quarta, 20, o deputado estadual Marcelo Cabeleireiro interveio e pediu que o Estado resolvesse o problema. A resposta foi direta: a vacina deveria ser disponibilizada pela prefeitura de Volta Redonda.
Em nota, o deputado informou que ligou para o prefeito Neto e reverteu a situação. “Mesmo sabendo que o Hospital Regional atende pessoas de diversos municípios, o prefeito Neto me garantiu que irá disponibilizar doses da Coronavac para os funcionários do Zilda Arns, que é exclusivamente voltado para o tratamento da doença. Isso mostra um senso de responsabilidade muito grande da nova gestão”, elogiou o deputado.
Para agilizar a questão, a secretaria de Saúde de Volta Redonda estaria levantando o número de funcionários do hospital e o local de atuação de alguns profissionais como médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e nutricionistas. Muitos destes atendem em outros municípios e, se conseguirem tomar a vacina em outros municípios de lotação, sobraria mais par1 n1a atender outros profissionais como médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e nutricionistas. Muitos destes atendem em outros municípios e, se conseguirem tomar a vacina em outros municípios de lotação, sobraria mais para atender outros profissionais da cidade do aço. A ideia parece ser bastante lógica em meio à frustação pelo número de doses recebidas. E, por fim, os médicos do Regional deverão ser vacinados, com doses destinadas a Volta Redonda, entre os dias 25 de janeiro e 1 de fevereiro. Sem direito a choro.

Deixe uma resposta