quinta-feira, julho 18, 2024

Fake news

Prefeituras anunciam câmeras de segurança nas escolas e ,Neto, o uso do ‘botão do pânico’

Por Vinícius de Oliveira
Os últimos dias foram de tensão dentro e fora das escolas. Pode-se dizer que uma histeria coletiva se abateu sobre as cidades brasileiras, levando todos à crença de que, cedo ou tarde, novas escolas seriam invadidas por um ou mais maníacos. A preocupação não surgiu do nada. Em Volta Redonda, por exemplo, as autoridades de segurança foram obrigadas a conviver com uma ameaça de massacre marcado para acontecer ontem, sexta, 14, no Colégio Estadual Manoel Marinho, na Vila. Não aconteceu nada. Era, possivelmente, mais uma fake news, como tantas que surgiram envolvendo várias escolas, em vários municípios. O que resultou em salas de aulas vazias e o ensino, prejudicado.
Tanto medo fez com que um adolescente de Volta Redonda, aluno da Escola Maria Rosa, no bairro Tiradentes, levasse na mochila uma faca. Sua intenção, conforme contou aos policiais, era “se defender”. Ele, certamente, nunca mais será o mesmo. E nem a cidade. Na quarta, 12, o prefeito Neto se reuniu com forças de segurança
municipal e estadual e pais de estudantes.
Decidiram que as escolas serão vigiadas 24 horas por dia. “Vamos monitorar todas as escolas públicas: municipais e estaduais. São 126 escolas, sendo 104 da secretaria de Educação (SME), com 36 mil alunos; seis unidades da Fevre; e 16 escolas estaduais. Quando for uma escola pequena, ela vai ter oito câmeras, quando for maior, serão 16”, explicou Neto, lembrando que, só na rede municipal, 36 mil alunos serão beneficiados.
Monitorar as escolas, na verdade, foi a principal medida adotada pela maioria dos prefeitos para frear a histeria e o medo de novos massacres nas escolas. Em Barra Mansa, na segunda, 10, o prefeito Rodrigo Drable disse que a ação vai atingir 70 escolas e creches do município. Os trabalhos ‘devem ser realizados em breve’. “Estamos implementando ações importantes para aumentar a segurança e permitir que as nossas crianças tenham paz para estudar, assim como seus pais tenham tranquilidade para deixar seus filhos nas escolas. Além da instalação de câmeras em todas as escolas da rede municipal,
nós aumentaremos a ronda escolar, que já é um modelo para vários municípios”, afirmou Drable.
Em Barra do Piraí, um jovem que ‘admirava’ as ameaças foi preso após publicar nas redes sociais uma foto na qual aparecia armado. Na legenda, mensagens ameaçando a vida de crianças. A resposta, como nos outros casos, foi câmera de segurança. “Queremos tranquilizar a população quanto à segurança. Estamos fortalecendo o policiamento, e a cidade já está com as câmeras. Vamos monitorar, 24 horas por dia, pontos importantes do município, como as entradas e saídas da cidade, praças, escolas, entre outros, coibindo qualquer tipo de ação criminosa”, prometeu o prefeito Mário Esteves.
Seguiram a mesma cantilena os prefeitos de Pinheiral, Piraí e Resende. O de Volta Redonda foi além. Anunciou o uso de um “botão do pânico”, que consiste em um aplicativo que ficará à disposição dos professores para que estes o acionem na primeira iminência de perigo. “Os botões serão distribuídos para os profissionais das escolas e, em alguma situação atípica, eles
poderão acioná-los. Na hora, imagens das câmeras serão vistas”, garantiu Gil Duque, diretor da empresa Vegas Vigilância, que foi contratada às ‘pressas’ e que é especializada em câmeras de monitoramento.
A escola-piloto para a implantação da novidade foi a Amaral Peixoto, no Retiro. Justamente a que, recentemente, passou por um drama quando um homem tentou matar, a tiros, em horário de aula, uma funcionária da cozinha da escola. Não se sabe quando a estratégia chegará a todas as escolas, mas Gil, responsável pelas instalações das câmeras, garantiu que os GMs poderão fazer rondas com um dispositivo chamado de “bastão de ronda”. “Cada sala de direção de escola terá um ponto fixo que faz com que o guarda municipal, após a visita à unidade, vá à sala da diretoria ter contato de fato com o diretor, e pegar mais informações sobre o que está acontecendo na escola. Isso dá visibilidade, gera mais segurança, tranquilidade para pais, alunos e colaboradores”, crê Gil.
Outra novidade em Volta Redonda será a adoção de portais detectores de metais, como os usados em aeroportos. A notícia, entretanto, suscitou dúvi das, pois não foi informado que profissionais ficarão responsáveis pelo controle do equipamento e pelo desgaste de revistar integrantes da comunidade que forem barrados no portão da escola pela geringonça.
Neto também foi o único a mencionar o uso de psicólogos nas escolas. “Vamos colocar as nossas psicólogas e assistentes sociais para nos ajudar. Vão fazer palestras, fornecer apoio à rede municipal de educação. Só a Smac tem, entre psicólogos e assistentes, 150 profissionais, e de alto nível, com uma vontade grande de ajudar”, justificou.
Para alguns estudiosos, tais medidas de segurança atenderão a uma demanda mais urgente, mas não resolverão o caso. Para o professor Samuel Pires, da direção colegiada do Sepe- VR, as causas para tanta violência dentro da escola têm raízes mais profundas. “Os aspectos que levam a situações como essas são de longa data. O primeiro é o sucateamento. Quando não se recompõe o quadro de servidor com o básico (porteiro, orientador, coordenador de turno…), os alunos já ficam desassistidos”, disparou o sindicalista, que cobrou justamente a presença de psicólogos e assistentes sociais nas escolas. “É uma reivindicação nossa. Assim, a escola fica mais preparada a longo prazo para evitar esse tipo de situação”, argumenta.
Samuel acredita que o discurso de ódio, lugar- comum nas redes sociais atualmente, piora o que já anda mal das pernas. “A difusão de discurso de ódio na internet com teor machista, misógino e racista, agravado pelo governo anterior, também contribui com esse cenário lamentável. E para combater esse mal aí sim se faz necessária
uma resposta rápida das forças de segurança através de inteligência policial. Isso tudo de forma discreta, porque os autores desses crimes gostam de visibilidade”.
Quem tem opinião parecida com Samuel é a professora e mestra em Ciências Sociais pela UFRRJ Mayara Cristina Albano. “O massacre não começa na faca que assassina uma professora ou na machadinha que tira a vida de crianças na creche. Começa em discursos de ódio que passeiam livremente pela nossa linguagem, pensamentos e instituições, até que encontre um terreno fértil, para, enfim, ganhar vida através de ações. Ou seja, os discursos de ódio não só criaram um estado de histeria coletiva, como operaram na construção de um novo significado para o ambiente escolar. O que antes era um espaço de aprendizagem, de continuidade, se tornou símbolo do pavor, do terrorismo, da possibilidade do fim”, pontua.
Mayara entende que sem uma ação efetiva que atue na psique humana, colocar câmeras ou instalar botões de pânico servirão apenas para seduzir ainda mais os psicopatas. “É im- prescindível compreendermos o poder estruturante dos discursos de ódio e sua capacidade de ditar normas e formas de interação social, para que não caiamos na ingênua ideia de que somente mais controle ou proibições são capazes de inibir comportamentos agressivos. Além de ser paliativo, proibições e punições sem programas que proporcionem a mudança do imaginário social só tornam a transgressão mais desafiadora para o agressor. O cenário caótico nos convoca a nos atentarmos para o que é anterior e intrínseco às ações violentas”, dispara.

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