“Faço por amor à raça”

0
361

ESPECIAL: Ex-comandante do Batalhão do Aço tornou-se dono de canil em Rio das Flores

A morte violenta do cachorro Orelha, em Santa Catarina, comoveu o país. Guardadas as proporções, o caso na Vila Elmira, em Barra Mansa, no domingo, 1, também foi estarrecedor. Rex, mais um animal de rua, foi atacado com um facão por um morador do bairro. A agressão foi presenciada por vizinhos, e o caso foi parar na 90ª DP.

De acordo com o secretário de Proteção e Bem-Estar dos Animais de Barra Mansa, Carlos Roberto Carvalho, o Beleza, os moradores foram fundamentais no resgate do animal. “Eles cuidaram do Rex, alimentaram, fizeram curativos e não o abandonaram à própria sorte”, contou. “Maus-tratos a animais é crime, e a participação da população é essencial para que esses casos não fiquem impunes. Denunciar é um ato de responsabilidade e de proteção à vida”, afirmou Beleza, lembrando que as denúncias podem ser feitas pelos telefones (24) 3029-9033 e (24) 98120-0153.

Mais dois fatos chamam atenção. O primeiro é que a Comissão de Defesa e Proteção dos Animais da Alerj fechou recentemente um canil clandestino em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio. Ao todo, foram resgatados 11 cães de raça que estavam em espaço inadequado – eles agora estão sob os cuidados da ONG Garra e serão encaminhados para adoção.

O segundo é quase um sopro de esperança. A Secretaria de Proteção e Bem-Estar dos Animais de Barra Mansa fez a entrega de medalhas do Mérito Animal – Protetores em Destaque aos protetores independentes e voluntários do município que se destacaram na causa animal ao longo de 2025. A iniciativa teve o objetivo de valorizar o trabalho desenvolvido por quem atua diretamente na proteção, resgate e cuidado dos animais em Barra Mansa.

Embora não estivesse presente, uma figura bem conhecida de quem mora no Sul Fluminense, o ex-comandante do 28º Batalhão da Polícia Militar, coronel Kleber dos Santos Martins, bem que merecia ser lembrado. Ele vem se dedicando à criação de cães da raça Boerboel, com um canil em Rio das Flores. Apesar do tamanho e de aparentemente dar medo, o animal, segundo Kleber, é um cão equilibrado e inteligente.  

Em entrevista ao aQui, o antigo coronel da Polícia Militar lembra que sempre foi proprietário de cães. “Nunca fui um criador. O criador tem compromisso com a tipicidade, padrão da raça, qualidade genética e, principalmente, com a construção da história de sucesso da raça em nosso país. Criar cães não é uma atividade moderna. A história da civilização humana se confunde com a dos caninos. Há mais de 50 milhões de anos o homem e o cão construíram uma história de amizade, amor e superação que poucos conhecem”, pontua. 

Ele vai além e passa a falar da raça que cria em Rio das Flores. “O Boerboel é um cão extraordinário por sua história e pelos inúmeros processos de superação que enfrentou desde que foi empregado na colonização holandesa da África do Sul, no século XVII. Superação por ter passado por escassez de comida, doenças e animais selvagens, que moldaram a personalidade deste cão fantástico”, define, informando que seu canil atualmente possui 9 matrizes, sendo 3 machos e 6 fêmeas, “todas importadas do continente africano, além dos filhotes disponíveis para venda”.

Detalhe: no ano passado, segundo Kleber, o canil registrou o nascimento das duas primeiras ninhadas. “Suriname, Uruguai, Argentina e Paraguai receberam seus primeiros cães desta raça fantástica”, diz, todo cheio de si.  

Kleber define o animal da raça Boerboel como um cão de guarda por excelência. “Mas ele não deixa de ser um grande companheiro”, dispara. “Muitas vezes brinco com minha família que eles sabem e entendem todos os nossos pensamentos, mesmo antes de expressarmos nossos problemas. Parecem seres sobrenaturais, sentem tudo que nós sentimos e têm o condão de nos dar alegria, mesmo quando estamos tristes”, acentua.

Nos vídeos que posta nas redes sociais, onde aparece brincando e dando banho nos animais mantidos no canil, Kleber passa a impressão de que a raça Boerboel, apesar de ‘meter medo’, é dócil. “Certo?”, indaga o repórter. Veja a resposta dada pelo antigo comandante do 28º BPM. “Este cão é a ‘Ferrari dos cães’. São muito inteligentes e extremamente protetores. Se eu conhecesse a raça há 30 anos, não teria nenhuma dúvida em inseri-los em meu ambiente familiar. As crianças são o diferencial nesta raça. Com criança, eles são extremamente dóceis e protetores. Como falei, eles são sobrenaturais. Sentem antes de nós mesmos sentirmos”, pontua.

Parte financeira

Para exportar os primeiros animais para países da América Latina, Kleber confessa que contou com a ajuda da internet. “Os interessados na raça nos encontram pelo Instagram e pelo TikTok, ferramentas do mundo moderno. A internet é um admirável mundo novo. A raça também é muito nova no mundo; está no Brasil desde 2023 e nos EUA há apenas 10 anos. Penso que no futuro (a raça) será um grande sucesso entre os criadores mundiais”, avalia, aproveitando para elogiar a cidade de Rio das Flores.

“É um cenário perfeito para a criação da raça. Fazendas e sítios se mostram cenários perfeitos para estes cães. Calor e frio se alternam e com isso cães com toda sua rusticidade se adaptam a todas as intempéries, fazendo suas características mais ancestrais aflorarem de forma avassaladora”, justifica.

Quanto aos valores, Kleber não esconde o jogo. “Os preços (de venda) são variados. No Brasil, um filhote pode custar entre 8 e 15 mil reais. No exterior, na Europa, fica na faixa de 4 a 5 mil USD. Na Rússia, 5 mil USD. Nos EUA, entre 6 e 8 mil USD. Na África custa entre 1500 e 3000 euros”. E quanto custa manter um animal da raça, indaga o jornal. “Quando pensamos no tamanho, os pensamentos nos assustam. Na verdade, seguir as orientações do fabricante de rações é o ideal. Eu gasto um saco de 20 quilos por mês com cada cão. A suplementação fica a cargo do tutor. Eu insiro na dieta a proteína animal in natura, mas isso é um capricho”, comenta.

Antes de encerrar, Kleber fala da sua experiência à frente do canil depois de ter comandado o 28º BPM de Volta Redonda. “Em 2020, em plena pandemia (Covid), com meus pais e sogros na chácara, entendi que deveria criar uma atividade que pudesse distrair minha família. O canil veio por acaso. Os cães são uma expressão da criação e, como nós, cada um tem seu temperamento. Não é diferente na vida. Comandar foi uma oportunidade grandiosa da parte de Deus. Conheci líderes políticos, representantes das comunidades e jornalistas fantásticos. Sou abençoado por ter experimentado comandar pessoas e até onde sei, ter feito um bom trabalho. A sociedade merece o melhor de todos nós. Os cães são tudo aquilo que nós esperamos, não pedem absolutamente nada em troca e nos dão o melhor deles. Sou um privilegiado em conhecer pessoas fantásticas em Volta Redonda, Barra Mansa, Quatis e Porto Real. O canil é uma grande oportunidade de oferecer o melhor da raça a quem deseja ter um cão equilibrado e inteligente. Não faço isso pelo dinheiro. Faço por amor à criação”, disse, para completar falando do futuro.

“Não fiz nada sozinho! Na verdade, a glória sempre foi daqueles que Deus me permitiu comandar. Foram soldados excepcionais, que me motivaram a oferecer o meu melhor. Fui abençoado por ter prefeitos comprometidos, vereadores integrados, empresários idealistas e jornalistas fiéis à profissão. Na verdade, eu não fiz nada, foram vocês que fizeram tudo para estes municípios alcançarem a excelência da destinação de nossos serviços. Foram vocês os maestros e eu apenas um expectador nesta grande orquestra. Penso que a sociedade é soberana em escolher os melhores. A sociedade é a destinatária de todo o bem que o Estado pode proporcionar”.