Escória segura

Por Pollyanna Xavier

O Centro de Beneficiamento de Agregado Siderúrgico da CSN – popularmente conhecido como ‘montanha de escória’, voltou à pauta de discussão dos ambientalistas de Volta Redonda e região. Em parte, por conta do rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho (MG), que matou quase 200 pessoas e ainda deixou mais de 100 desaparecidas. Em parte também pelos riscos de rompimento da barragem da Mina Casa de Pedra, localizada em Congonhas, que é de propriedade da CSN Mineração. O fato é que a população se alarmou e teme que a montanha de escória da CSN se espalhe, atingindo casas ao entorno ou mesmo as águas do Rio Paraíba.

O risco, porém, de uma coisa ou outra acontecer, segundo a CSN, é quase nulo.Uma fonte da empresa, por exemplo, deu detalhes do histórico e da situação da barragem. “O estudo preliminar é bastante tranquilizador. Há estabilidade no local, sem risco de desabamento”, garantiu, baseando-se em laudos emitidos pela empresa Astec Engenharia, contratada pela CSN. “Um estudo conclusivo está sendo desenvolvido para a elaboração de um laudo definitivo sobre a estabilidade das pilhas (de escória), mas o que já temos, de forma preliminar, é bastante tranquilizador”, garantiu a fonte.

Apesar de existir há quase 40 anos no mesmo local, sem nunca poluir as águas do Rio Paraíba, a montanha só virou ‘tema de discussão’ em meados de 2018, durante a campanha eleitoral. Dezenas de políticos subiram nela – não no sentido literal, é bom que se diga, mas fizeram do depósito um verdadeiro palanque atrás de visibilidade. Alguns até conseguiram aparecer, mas não o suficiente para se elegerem. A polêmica em torno da montanha virou caso de Justiça e, em julho, a CSN foi obrigada a reduzi-la. Cerca de 200 mil toneladas de escória já foram removidas do local nos últimos cinco meses.  

De acordo com a fonte do aQui, parte do volume retirado foi vendida para empresas de terraplanagem (como a que está sendo feita às margens da Rodovia dos Metalúrgicos) e outra parte foi doada para as prefeituras de Barra Mansa e Volta Redonda. No caso de Volta Redonda, o produto retirado foi aproveitado pelo Saae-VR, em operações ligadas às atividades da autarquia. A fonte explicou que a CSN já colocou à disposição das prefeituras da região e dos órgãos estaduais o material para doação. “Algumas prefeituras têm encontrado dificuldade para arcar com os fretes. Outra questão é que, com a crise econômica do Estado do Rio, as obras de pavimentação e terraplanagem foram reduzidas, o que diminuiu o interesse pelo material”, comentou.

Na semana passada, o prefeito Samuca Silva esteve em São Paulo para se reunir com o presidente da CSN, Benjamin Steinbruch, e a remoção da escória foi um dos assuntos da conversa entre eles. “Os dois falaram sobre a utilização da escória. A ideia é ampliar o uso do produto nas obras de pavimentação realizadas no município. Por outro lado, a CSN está buscando alternativas para diminuir o agregado siderúrgico”, disse a fonte, sem dar maiores detalhes da conversa entre Samuca e Steinbruch.

De fato, em nota divulgada à imprensa, a CSN informou estar “comprometida em buscar alternativas factíveis para a questão e por isto tem mantido um estreito relacionamento com o governo do Estado do Rio e com o município de Volta Redonda”. A nota da empresa diz ainda que o “agregado siderúrgico, coproduto gerado no processo de refino do aço, comercializado pela empresa Harsco Metals, é usualmente destinado para diversas aplicações, em especial para a pavimentação e terraplanagem. “Estas aplicações, mundialmente consagradas, representam ganho ambiental, uma vez que possibilitam a redução de uso de recursos naturais não-renováveis, como os provenientes de mineração de rochas, areias e outros materiais primários”.

A CSN termina a nota dizendo que “o pátio operado pela Harsco sempre teve suas atividades devidamente licenciadas e acompanhadas pelos órgãos de fiscalização ambientais competentes”. E garantiu que, conforme laudos já protocolados na Justiça, a escória depositada há quase 40 anos na Brasilândia e ainda no Volta Grande não é material perigoso e possui classificação Classe IIA, conforme norma da ABNT NBR 10.004.

Sem lama

Segundo o laudo a que o aQui teve acesso, e que trata das questões técnicas envolvendo a montanha de escória, o risco de vazamento para o Rio Paraíba é baixo, quase nulo. E a explicação para a ausência do risco é uma só: a montanha é formada por dejetos secos que, por si só, se endureceram nos últimos anos, contribuindo para formar uma montanha petrificada. “O tipo de processamento daquele rejeito é o oposto dos rejeitos encontrados em barragens, como a de Brumadinho. Aqui em Volta Redonda, o que temos é uma montanha seca, cujo produto é processado a seco. Não tem lama, não tem água, não tem água pluvial acumulada, não existe risco de rompimento”, explicou a fonte. “Até para cavar aquilo é preciso técnica”, comentou.

Mesmo tratando-se de material consolidado, que forma um corpo maciço similar a uma rocha, a fonte explicou que a CSN construiu um muro de contenção delimitando todo o entorno da montanha, separando-a da área de preservação ambiental. “Esse muro, construído em 2010, está totalmente preservado e ainda conta com uma rede de canaletas que recolhe toda a água da chuva e a transfere para uma unidade de tratamento de efluentes. Após o tratamento, a água limpa é devolvida ao Rio”, detalhou a fonte.

Outra informação é que ao redor do muro, a CSN mandou reflorestar a área, plantando várias espécies. “Se você vir pela imagem do satélite, vai entender perfeitamente o que eu estou falando. Ali tem mais vegetação do que do outro lado do rio”, disse, aproveitando para explicar que, quando a escória começou a ser depositada no início da década de 1980, ela obedecia a critérios e exigências da lei em vigor na época. E a lei permitia a construção ou o depósito de dejetos em uma distância superior à metade do leito do rio. “O rio mede 113 metros. A CSN deveria obedecer, então, a uma distância mínima de 57 metros. E ela fez isto, conforme a legislação da época”, contou, acrescentando que, desde então, a Harsco Metals, que administra a montanha de dejetos, está com as licenças ambientais em dia.

A escória presente na montanha da CSN é oriunda do processo de fabricação da Aciaria. E, segundo a fontea CSN estaria realizando estudos para utilizar este produto na fabricação de cimentos. “Atualmente, a escória usada como subproduto do cimento é a de alto forno e não a da aciaria. Mas a empresa tem realizado estudos técnicos para saber se essa escória é viável na produção do cimento. Se for, ela será absorvida pela cimenteira da CSN. Enquanto isto, a empresa vem doando ou vendendo o rejeito”, explicou.

O caso de Quatis

No início do mês, um relatório elaborado por órgãos federais ambientais apontou que no estado do Rio existem pelo menos 7 barragens com alto dano potencial associado (DPA). Se qualquer uma delas se romper, poderá impactar social, econômica, ambiental e humanamente falando a cidade atingida. E seus vizinhos. Uma das barragens, pasmem, fica na pequena cidade de Quatis, exatamente no limite com Barra Mansa. Ela pertence à Cimento Tupi e, em tese, não recebe rejeitos há cinco anos. No local estão armazenados 204 mil metros cúbicos de sobras de exploração de quartzo – subproduto utilizado na mistura do cimento. E apesar de o governo Federal atestar que ela oferece riscos, há relatórios que indicam o contrário: que não corre o risco de se romper.

Além do pedido de informação, Bruno de Souza determinou que a Secretaria Municipal de Meio Ambiente elaborasse um plano de ação complementar, para adotar medidas de segurança para a barragem. Dentre estas ações, está prevista a edição de um decreto que vai tratar das situações de emergência voltado à barragem. O objetivo era editar o decreto até onte, sexta, 15. “A Prefeitura de Quatis tem o compromisso de zelar pela população de Quatis, daí a nossa preocupação com essa questão (…) vamos intensificar ainda mais o nosso acompanhamento sobre a barragem”, garantiu Bruno.

 

Barra Mansa

Na quarta, 13, o secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Barra Mansa, Carlos Roberto de Carvalho, esteve na barragem de Quatis acompanhado da equipe técnica da secretaria, de representantes do Conselho Municipal de Meio Ambiente e da Comissão Ambiental Sul. O encontro serviu para buscar esclarecimentos sobre a barragem e o seu grau de risco.

Quanto à ação da prefeitura de Barra Mansa, uma reunião pública com os moradores da Vila dos Remédios – bairro mais próximo da barragem – foi agendada para o dia 26 de fevereiro, às 19 horas, em local ainda a ser definido. O encontro tem a finalidade de esclarecer as dúvidas existentes em torno da empresa e da barragem. São esperados para esta reunião representantes da Cimento Tupi, da prefeitura de Quatis, Barra Mansa e ainda do Estado.  

 

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