Casa Editorias Especial Entre cadernos e armas

Entre cadernos e armas

Crimes em São Paulo e Blumenau devem servir de exemplo para combater a violência nas escolas

0
194

Por Vinícius de Oliveira

Moribunda e mal das pernas, a Educação pede socorro. Se não bastassem as condições salariais degradantes pelas quais passam os profissionais da área, em vez de ensinar
alunos a ler e escrever, as escolas precisam, antes de tudo, resistir à violência cotidiana. É um ataque após o outro. Na quarta, 5, um homem de 25 anos invadiu uma creche em Blumenau (SC), matou quatro crianças e feriu cinco. Usou, vejam só, uma machadinha contra meninos e meninas de quatro a sete anos. Nove dias antes, em São Paulo (SP), um adolescente de 13 anos cometeu a mesma atrocidade: esfaqueou uma professora de 71
anos. Ela não resistiu ao ataque e morreu. Outros três professores e dois alunos ficaram feridos. Quem acredita que a violência no espaço escolar é coisa só das grandes cidades está por fora. Em Volta Redonda, por exemplo, apesar das incidências serem consideradas
menores, os números da violência começam a chamar a atenção. Há algumas semanas o
Instituto de Educação Professor Manuel Marinho, na Vila, passou por momentos difíceis quando um rumor correu as redes sociais dando conta que um ex-aluno pretendia invadir a instituição e matar quem estivesse lá dentro. A Polícia foi acionada, mas nenhum suspeito foi encontrado. Só que no dia 29 de março o muro da escola amanhece todo pichado. Com um recado: “Um massacre está marcado para o dia 14 d abril”. Quando a notícia
parou nas redes sociais, o pânico se espalhou inclusive em outras escolas do ensino médio.
Como resposta, o governador Cláudio Castro anunciou, na quinta, 30 de março, a criação de um Comitê Permanente de Segurança Escolar com representantes de vários órgãos do governo e entidades civis. O objetivo é implantar ações para identificar e evitar situações
de violência nas escolas públicas e privadas do Rio. “Como tenho afirmado, a educação é prioridade do nosso governo. Sem educação, não vamos a lugar nenhum. Por isso, estamos
criando esse comitê para garantir mais proteção às nossas crianças, jovens e profissionais que trabalham na rede. Os pais precisam ter a tranquilidade de saber que seus filhos vão
chegar em casa em segurança”, disse Castro, acrescentando que o Bope e a Core, que têm experiência em gerenciamento de crises, também vão treinar os professores para que
eles atuem em casos de prevenção e de emergência.
Outra medida anunciada foi a criação de um grupo de trabalho na área de inteligência da Polícia Civil para apuração de casos de incitação à violência em escolas nas redes sociais. Essas ações serão complementadas com os programas já existentes, como a ‘Patrulha Escolar’ e o ‘Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd)’, ambos da Polícia Militar, e o ‘Segurança Presente’, da secretaria de Governo.
Os casos citados acima deveriam servir, no mínimo, de alerta ao secretário de Educação de
Volta Redonda, Sérgio Sodré. Para se ter uma ideia, em um curto espaço de tempo, ao menos três atos violentos viralizaram nas redes. Primeiro, em junho de 2022, quando as
escolas ainda se recuperavam da Covid-19, um homem agrediu os diretores do Jayme Martins com empurrões e xingamentos. O caso foi parar na delegacia, e o agressor está
desaparecido. Meses depois, no Complexo do Santo Agostinho, mesma região do incidente anterior, um guarda municipal aposentado, em conflito com um adolescente, decidiu resolver seu problema à bala. Disparou vários tiros contra o garoto.
Um acertou a região abdominal da vítima, outro foi parar no muro do Centro de Educação
Infantil Vera Lucia Braga, que atende crianças em fase pré-escolar. Na Polícia Civil, o caso é
mantido sob sigilo. O início de 2023 vai marcar a história da Educação de Volta Redonda.
Foi em fevereiro, quando as aulas mal haviam retornado. Um homem, de 45 anos, armou uma tocaia contra uma funcionária da Escola Municipal Amaral Peixoto, no Retiro. Ele foi até a porta da unidade, onde estudam crianças em alfabetização, e atirou contra a mulher, atingindo seu braço e tórax. Depois, atirou também contra o próprio pescoço. O atentado deixou marcas não só na vítima, mas também em toda a comunidade escolar. “Foi horrível. Nunca vivi uma situação parecida. Todos ficamos em choque e amedrontados”, disse
uma professora. Sem dados oficiais da secretaria de Educação, o aQui fez um levantamento entre diretores da rede municipal de Volta Redonda. Vinte e dois gestores, sendo que
98,2% de anos iniciais, responderam a um questionário de cinco perguntas que tratavam
sobre a violência e como se sentiam com relação à segurança no espaço escolar. O levantamento aponta que 95,2% dos diretores precisam resolver de um a cinco incidentes violentos por semana envolvendo alunos. A boa notícia é que ampla maioria afirma que são situações mais simples e passíveis de resolução dentro da própria escola a partir de atos administrativos.
Ainda de acordo com a pesquisa, 61,9% dizem que o principal desafio nas escolas é a postura agressiva e desrespeitosa por parte dos alunos contra eles próprios, funcionários
e professores. “É impressionante como os alunos resolvem seus conflitos batendo, socando, xingando.
Outro dia, um menino do terceiro ano saiu com a boca cortada após um soco que levou de um colega de classe. Dia desses, tivemos que resolver uma crise envolvendo um aluno
que levou um tapa na cara de outro no recreio escolar. Você chama o pai para
conversar e pedir que repreenda o filho em casa assim como é feito na escola e escuta dele que foi exatamente isso que ensinou: ‘se alguém mexer com ele, deve bater’. É como enxugar gelo”, reclamou uma frustrada orientadora educacional. “E são tão novos. O que
farão quando estiverem na adolescência ou mesmo na fase adulta? Voltarão à escola e esfaquearão os alunos e professores?”, questionou.
Já 9,5% dos diretores entrevistados dizem vivenciar com mais frequência no local de trabalho incidentes envolvendo pais que chegam na escola falando palavrões, gritando e
fazendo ameaças. Outro dado observado na entrevista dá conta de que 90,5% dos participantes sentem-se parcialmente seguros dentro da escola em que trabalham.
Sensibilizada com os casos, a Câmara de Volta Redonda aprovou, por unanimidade, um projeto de lei dos vereadores Renan Cury e Paulinho AP que visa promover a saúde mental e prevenir a ocorrência de incidentes envolvendo estudantes, tais como ataques em
escolas, bullying e violência. O projeto segue para sanção do prefeito Neto. Aliás, no ano
passado, o vereador Lela conseguiu aprovar um projeto determinando que a prefeitura instale câmeras de segurança e detector de metais nas escolas, mas até hoje nenhuma dessas medidas saiu do papel.
A inércia do Poder Público tem reflexos na opinião dos dirigentes escolares. O levantamento
feito pelo jornal mostrou que paira sobre a rede uma sensação generalizada de impotência e insatisfação por parte dos diretores. 57,1% afirmam estar apenas “parcialmente
satisfeitos com a atuação do Poder Público”, apesar de acreditar que o governo não pode fazer nada contra essa rotina de violência. Na contrapartida, 42,9% se declaram totalmente insatisfeitos, pois “não veem qualquer iniciativa e tudo depende de sua própria equipe” para não sucumbir à violência.

SEM COMENTÁRIOS

Seja bem vindo!
Enviar via WhatsApp