Encontro histórico

Por Pollyanna Xavier
Colaborou: Manu Porfírio

O presidente da CSN, Benjamin Steinbruch, assinou dois protocolos de intenções com o prefeito Samuca Silva e o governador Pezão. A cerimônia, histórica, aconteceu no Palácio 17 de Julho, no final da manhã de quinta, 18, e contou com a presença de diversos prefeitos da região, deputados eleitos, técnicos ambientalistas do Estado e um grupo de oito investidores paulistas, cujas empresas estão de mudança para a cidade do aço. A presença de Steinbruch na sede do Palácio 17 de Julho, apesar de esperada, foi surpresa: o executivo parecia estar bastante à vontade. “Estamos em casa, por isto vamos deixar as formalidades de lado”, disse, ao tomar a palavra.

 

Com uma personalidade difícil, sempre avesso à imprensa, Benjamin desta feita não fugiu dos jornalistas. Muito pelo contrário. Cercado por eles, respondeu a todas as perguntas que lhe foram feitas. Falou da CSN, do TAC ambiental, da geração de novos empregos, do Hospital Vita [agora Hospital das Clínicas], das terras não operacionais da CSN, do Escritório Central e até deu uma pista em quem vai votar nas eleições presidenciais: “Não conheço o Paulo Guedes, mas conheço a história dele. É um excelente economista. Nunca tive contato com ele, mas se ele for ministro da Fazenda, acredito que tem amplas condições de propor o que o Brasil precisa”, justificou o presidente da CSN, ao falar do provável ministro de Bolsonaro.

 

Steinbruch foi polido em seu discurso, o que não lhe tirou a franqueza de suas palavras. Falou várias vezes em “romper com o passado” e construir o futuro. “Queremos deixar uma marca profunda e definitiva na região (…) a CSN é uma solução, nunca foi problema”, disse. Em seguida falou sobre a volta do ‘cinturão do aço’, graças à instalação de oito empresas do setor metalmecânico em Volta Redonda. Destas oito empresas, duas são do grupo CSN: a Prada Embalagens e a Prada Distribuidora. Ambas devem ser instaladas na área da antiga Tubonal, no Siderville (veja mais informações abaixo).

 

O executivo da CSN falou por 14 minutos, em seguida, assinou os protocolos de intenções envolvendo as questões ambientais (TAC) e de desenvolvimento econômico (cinturão de aço). Algo chamou a atenção em sua fala: Benjamin citou o deputado estadual reeleito André Corrêa, presente ao evento, e, com elegância, deu um puxão de orelhas no parlamentar de Valença. “Acompanhei suas postagens no Facebook, no Twitter, no WhatsApp. Eu vi o dia a dia de sua campanha, acompanhei os momentos finais, o cansaço e imagino que a recompensa de todo o trabalho é a eleição. Mas a recompensa maior é o que você pode vir a fazer pela sua região, pelo seu estado, pelo seu país”, alfinetou.

A fala direta ao deputado tem explicação. André Correa defendeu, veementemente, o fechamento da Usina Presidente Vargas pelo não cumprimento integral do TAC. Ele chegou a fazer vídeos e publicou textos contra a CSN em sua página do Facebook. Estranhamente, o Inea se tornou uma extensão do gabinete de André Correa, ou vice-versa, o que permitiu que André – também chamado de deputado verde, pela defesa das causas ambientais – ditasse algumas decisões do órgão ambiental. Ao final, os dois posaram para fotos (foto acima).

 

Veja a seguir os detalhes de cada assunto tratado no encontro histórico que reuniu Pezão, Steinbruch e Samuca na mesma mesa.  

Cinturão do aço

O projeto é antigo e polêmico. Desde 1992, quando Sindicatos, CDL e Aciap, aliados aos empresários que prestavam serviços à CSN ainda nos tempos em que a empresa era estatal, formaram uma espécie de um grupo, batizado de cinturão de aço, com o objetivo de ser parceiro da CSN. O cinturão começou a ruir quando Benjamin Steinbruch passou a detestar a palavra ‘parceria’ e passou a impor uma série de regras econômicas e financeiras, tipo redução de prazos de venda e entrega de produtos siderúrgicos, preços etc. Com isto, abriu espaço para concorrentes externos, especialmente de São Paulo, onde estavam seus ‘parceiros’, resultando num cenário que culminou com o fim do cinturão do aço.

 

Na quinta, 18, com toda a pompa, o prefeito Samuca Silva, Benjamin Steinbruch e Pezão anunciaram o que eles entendem ser a volta do cinturão com a assinatura de um protocolo de intenções para a implantação de unidades industriais e empreendimentos inseridos na cadeia produtiva do aço. Oito empresas devem se instalar em Volta Redonda, em locais ainda não definidos, com exceção da Prada. Muitas poderão ocupar áreas da própria CSN ou da prefeitura de Volta Redonda ao longo da Rodovia do Contorno. Além da Prada Embalagens e Prada Distribuição, estão previstas a vinda da Multiaço (Salto-SP), Steel Service (Guarulhos-SP), Mastra (Limeira-SP), Tuberfil (Indaiatuba-SP), Soufer (São João da Boa Vista), Kloeckner & Co (Piracicaba-SP) e Perfimax (Xanxerê-SC).

 

Ao contrário do que se propagou, a unidade da Prada de Resende não será transferida para Volta Redonda. Ela permanecerá em funcionamento na cidade vizinha e a que virá para a cidade do aço será a unidade de Santo Amaro (SP). Na quinta, 18, os representantes de cada empresa se reuniram com o governador Pezão, Samuca e Benjamin para discutir o pacote de incentivos fiscais concedidos pelo Estado e Município. Pelo que o aQui apurou, juntas, elas poderão gerar até 3,5 mil empregos diretos. 

 

Outra novidade anunciada por Benjamin Steinbruch favorece Porto Real. É que a unidade da CSN (a GalvaSud) deve ganhar mais uma linha de galvanização. Os valores a serem investidos, prazos e capacidade instalada de produção não foram divulgados. Presente ao evento, o prefeito de Porto Real, Ailton Mar-ques, se mostrou surpreso com o anúncio. “Oficialmente eu ainda não recebi nenhuma informação da CSN neste sentido. Será ótimo para a cidade, principalmente pela geração de empregos”, ressaltou ao aQui. Apesar de, geograficamente, a GalvaSud estar localizada distante das demais empresas, ela também fará parte do cinturão de aço. 

 

Para Pezão, a implantação do cinturão, além de representar um grande avanço no desenvolvimento econômico de Volta Redonda e região é ainda o cumprimento de uma promessa antiga feita aos empresários. “Volta Redonda e o Sul Fluminense puxam a economia de todo o estado do Rio para cima. Este complexo é uma reivindicação antiga dos empresários”, ressaltou. Quanto à CSN, Pezão reconheceu que a cidade cresceu em volta dela e que, por isto mesmo, “não se pode pegar a CSN, colocar nas costas e simplesmente levá-la embora de Volta Redonda. É preciso dar incentivos para que ela cresça”, disparou.

 

Pezão não chegou a dar detalhes dos incentivos fiscais que ofereceu aos empresários paulistas. Apenas disse que precisou lutar para defender a Lei de Incentivos Fiscais, que foi duramente criticada na fase mais difícil da crise no Estado do Rio. “Tive que ir para a Justiça para provar que a nossa lei de incentivos não era o problema do Estado. O Estado do Rio quebrou por causa da crise no Brasil. O Rio sofreu com a Lava Jato, com o barril do Petróleo lá embaixo. Ficamos cinco anos sem fazer leilão do petróleo, perdemos R$ 28 bilhões de receita. Quem fala que quer acabar com a lei de incentivos fiscais não tem noção da importância do plano de recuperação fiscal”, disse Pezão.      

TAC Ambiental

Além do protocolo de intenções que prevê a implantação do complexo metalmecânico, Samuca, Pezão e Steinbruch também assinaram um protocolo de intenções que viabilizou a assinatura do TAC Ambiental. “Ninguém está botando R$ 300 milhões em nada neste país. A CSN está”, comemorou Pezão, se referindo ao valor total do Termo de Ajustamento de Condutas, elaborado pelo Inea em conjunto com a SEA e que a CSN assinou como forma de ter renovada a Licença de Operação da UPV. O TAC possui 35 ações de adequação ambiental e de compensação do passivo causado pela poluição.

 

A vigência do TAC é de seis anos. Neste período a CSN deverá investir o montante anunciado em ações que vão garantir, de forma definitiva, as demandas ambientais envolvendo a UPV. Isto inclui a modernização das sinterizações, o fim (ou a redução considerável) do pó preto, da fumaça alaranjada e da montanha de escórias.

Escritório Central

Propositadamente, o assunto envolvendo o Escritório Central não entrou na pauta de quinta, 18. O tema foi abordado por jornalistas, que questionaram Samuca e Steinbruch sobre o prédio da Vila Santa Cecília. “Ainda estamos negociando”, despistou Steinbruch. “As conversas sobre o uso do Escritório Central ainda não foram concluídas. Há algumas coisas para serem acertadas. Eu diria que não avançamos, mas também não declinamos. A questão está estável”, avisou Samuca Silva.

 

A proposta de Samuca para o Escritório Central, conforme o aQui já divulgou com exclusividade, prevê o uso compartilhado do imóvel. A prefeitura ficaria com 7 dos 16 andares e a CSN com o restante. A ideia é levar para lá a parte administrativa do Palácio 17 de Julho e de todas as secretarias e autarquias. A mudança ocorreria em dezembro e a sede da prefeitura seria transformada em um Centro Cultural. O gabinete do prefeito, entretanto, seria mantido para que Samuca promova eventos oficiais e receba ilustres visitantes. A CSN ficaria com três andares para uso próprio e o restante alugaria para as empresas que a prefeitura indicasse.

 

Revitalização da Rua 33

Dentre as muitas novidades anunciadas no encontro histórico entre Pezão, Steinbruch e Samuca está a revitalização da Rua 33 – uma das mais antigas e importantes de Volta Redonda. A via foi inserida em um projeto arquitetônico e imobiliário desenvolvido por Vitória Steinbruch, filha de Benjamin, especialmente para a cidade do aço. “A Vitória me acompanha desde muito pequena. Aos dois anos de idade ela já viajava comigo, inclusive para fora (do Brasil). Sem babá, eu é que trocava fralda, dava alimentação. Ela ficava no meu colo. Foi crescendo ao meu lado. Tenho muito orgulho disto, ela é forte e determinada e compartilha comigo das questões empresariais”, contou Benjamin sobre a filha.

 

A jovem, de 24 anos, acompanhou o pai e não conversou com a imprensa. Reservada, não quis falar sobre o projeto que contempla a principal rua da Vila, onde o metro quadrado é o mais caro da cidade do aço. Steinbruch também não deu muitos detalhes do que será feito na via. Apenas disse que ela será revitalizada e que o projeto arquitetônico imobiliário contemplará, também, todos os imóveis não operacionais da CSN na cidade do aço, dentre eles o Posto de Puericultura, os clubes, campos de futebol, etc. “Teremos cinco empreendimentos novos pra anunciar em breve. Todos eles envolvendo imóveis da CSN”, prometeu, ao lado do sorridente prefeito Samuca Silva. 

 

Por falar em imóveis não operacionais, na próxima terça, 23, o TRF2 vai julgar o recurso da ação que questiona a propriedade destes imóveis. A ação é de autoria do ainda deputado federal Deley de Oliveira e foi julgada pró-CSN em 1ª Instância. O processo está parado no TRF2, desde maio deste ano, quando o desembargador Alcides Martins pediu vistas depois do voto do desembargador relator Ricardo Perlingeiro. O julgamento está marcado para as 14 horas, no Rio.

Hospital das Clínicas

A questão que envolve o uso do prédio onde está instalado o Hospital das Clínicas (antigo Vita) também foi abordada por Benjamin Steinbruch. O executivo confirmou que a CSN continua buscando uma empresa para assumir a gestão do hospital. E lembrou que o prazo dado pela Justiça para o Centro Médico se encerra no final de outubro e que espera até lá anunciar novidades neste sentido. “Nossa ideia é fazer uma saúde diferenciada para Volta Redonda e região como um todo. Estamos discutindo com várias empresas para trazer para a cidade o melhor hospital”, comentou Steinbruch, de forma genérica, sem dar grandes detalhes. Nem pequenos.    

 

Pezão

O governador Pezão aproveitou o encontro com os empresários, prefeitos, deputados eleitos e imprensa para anunciar sua aposentadoria. Ele disse que até o final do seu mandato pretende entregar algumas obras no Estado e que, depois disto, vai encerrar sua vida pública.  

 

Barra Mansa e Valença

Presente ao evento, o prefeito Rodrigo Drable deixou o Palácio 17 de Julho com uma promessa feita por Benjamin Steinbruch: a de que será avaliada a possibilidade de reativação do imóvel da CSN em Barra Mansa, onde funcionou a antiga litográfica Matarazzo. “Eu pedi a eles a reabertura da empresa que funcionou durante muitos anos em Barra Mansa, gerando inúmeros empregos e que, infelizmente, se encontra desativada há mais de 10 anos. Já acertamos para a próxima semana uma reunião para debater a possibilidade de reativar esse importante equipamento de geração de empregos e negócios em nossa cidade. Saio muito animado desse encontro e agradeço imensamente a oportunidade, o carinho e a atenção com essa questão extremamente importante para a nossa cidade”, disse Rodrigo.

Drable chegou a fazer um vídeo com Steinbruch e Luiz Daury Hallembeck, diretor da Prada, anunciando uma reunião com os executivos para a próxima semana. “O prefeito nos pediu para analisarmos a abertura operacional daquele prédio que nós temos na cidade, então nós vamos estudar as alternativas que o imóvel tem para uso. Eu acredito que encontraremos uma solução para fazer daquela instalação algo operacional para gerar empregos em Barra Mansa”, prometeu Steinbruch na gravação.

Sobre Valença, o presidente da CSN lembrou a recente aquisição da planta industrial da Axis Indústria e Produtos Siderúrgicos (em recuperação judicial). A compra foi aprovada pelo Cade e as negociações envolveram o Banco Fibra. Tanto a CSN quanto o Fibra eram credores da Axis e, juntos, mantinham créditos de pouco mais de R$ 36 milhões. Para a unidade, Benjamin Steinbruch disse que está sedo estudada a possibilidade de ampliação, o que irá gerar novos empregos para Valença.

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